• Anabela Fino

Mistura explosiva na Venezuela
Petróleo, CIA e imperialismo

«A Venezuela não é um microfone, uma câmara de TV, uma praça, três municípios do Leste de Caracas (a parte grã-fina da capital do país), nem muito menos a PDVSA (Petróleos de Venezuela, a estatal petrolífera paralisada pelo «paro» dos seus directores). A Venezuela somos todos os que vivemos nesta terra.» A afirmação é de Guayú De Falkón, num artigo publicado em Emancipación, Caracas, e traduz bem o que está em jogo no conturbado processo que se vive no país.

Desde 2 de Dezembro de 2002 confrontam-se nas ruas da Venezuela apoiantes e defensores do presidente Hugo Chavez. De um lado encontram-se a corrupta Confederação de Trabalhadores da Venezuela (CTV) e a organização patronal Fedecamaras, que apelaram a uma paralisação geral de todos os sectores, apoiada por um importante grupo de gestores da PDVSA e por uns quantos militares de alta patente. Do outro lado está o povo venezuelano, explorado e oprimido por sucessivos governos, que vê na chamada «revolução bolivariana» de Chavez o caminho para uma sociedade mais justa e solidária.

Poderosos grupos económicos e uma classe média receosa de perder os seus privilégios acusam Chavez de ditador, põem em causa a actividade da petrolífera estatal que produz cerca de 80 por cento dos rendimentos do país, tentam encerrar bancos e escolas, instaurar a desobediência civil e militar, lançar o caos e a violência nas ruas. Gente que nunca esteve numa bicha para comprar nada, que não sabe o que é procurar uma bilha de gás porque tem gás canalizado, que tem as despensas recheadas e nunca soube o que era passar fome, manifesta-se hoje batendo tachos e panelas que provavelmente nunca usou, exigindo «democracia».

Os que há mais de um mês protestam diariamente contra o governo - que se propõe promover uma política petrolífera ao serviço dos interesses nacionais, combater o latifúndio e favorecer os mais desfavorecidos -, são os mesmos que em 11 de Abril do ano passado saudaram o golpe reaccionário de Carmona, que no seu efémero reinado concentrou todos os poderes e eliminou todos os direitos constitucionais, e mandou perseguir, prender e torturar os seus opositores.

Os que agora clamam por democracia são os mesmos que recorrem à violência contra empresas e estabelecimentos comerciais que recusam fechar as suas portas, como denunciaram as organizações de direitos humanos, e que apelam abertamente à ditadura fascista para repor «a lei e a ordem» que eles próprios subverteram. Em declarações ao semanário Quinto Dia, o brigadeiro Pedro Pereira, um dos participantes do golpe de 11 de Abril, afirmou mesmo que «nesse país terá que haver violência».

 

A grande mistificação

 

Goste-se ou não do presidente Hugo Chavez, o facto é que foi eleito e reeleito sem margem para dúvidas, num país onde o voto é obrigatório.

Concorde-se ou não com a Constituição venezuelana, a verdade é que é considerada das mais democráticas do mundo, indo ao ponto de estabelecer algo tão inédito como a realização de um referendo a meio do mandato para decidir se o presidente deve ou não continuar no seu cargo.

Acusado de prepotente e ditatorial, o facto é que Chavez enfrentou em menos de um ano quatro paralisações e um golpe de Estado sem que até ao momento tenha recorrido aos dispositivos legais que tem à sua disposição, ou seja, sem impor a censura à imprensa, sem proibir os cortes de estradas, sem limitar a liberdade de movimentos da oposição, sem sequer mandar deter os opositores que infringem a lei. Mais, apesar de todas as virulentas campanhas de que é alvo, mantém, mesmo segundo as sondagens da oposição, um elevado apoio popular.

Que se critica então a Chavez? A resposta é simples: ter a veleidade de pretender levar a cabo uma política autónoma dos EUA e de se propor fazer uma redistribuição mais justa da riqueza do país de forma a acabar com a degradante situação de pobreza em que vive mais de 80 por cento da população. Ao desespero da elite venezuelana não é alheio, por exemplo, o de este mês entrarem em vigor as leis de Terras e Hidrocarbonetos, que atentam contra os seus privilégios.

Tendo em conta que a Venezuela representa 14 por cento do total das importações de petróleo para consumo dos EUA e que faz parte da Organização de Países Produtores de Petróleo (OPEP), fácil se torna concluir que o que está em causa na Venezuela são interesses que nada têm a ver com os do povo venezuelano. Vale a pena lembrar uma declaração de Otto Reich, enviado especial de Bush para a América Latina, a propósito da Venezuela: «uma eleição não é suficiente para dizer que num país há democracia». Muito esclarecedor, vindo de quem vem.

A intensa campanha de mistificação que a CTV, Fedecamaras e a auto-designada Coordenadora Democrática estão a levar a cabo através dos seus meios de comunicação (Radio Caracas Televisión, Globovisión, Venevisión, Televen, entre outros) mostra bem a importância do que está em jogo.

O único motivo por que Hugo Chavez continua no poder é porque tem o apoio popular. Como escreveu Jesús Gazo (Panorama, 2 de Janeiro de 2003), sem o apoio popular o presidente «há muito que teria caído. Um governo qualquer não resiste a isto, a todo esse poder mediático e ao poder real que [os opositores] ainda têm».


Os «democratas»

 

A Venezuela, considerada formalmente como uma democracia, viveu durante mais de 40 anos oprimida e explorada pela oligarquia dominante. Segundo o semanário Veraz (Novembro 2002, nº7), 31 grupos económicos controlam o país, sendo os responsáveis pelo facto de mais de 80 por cento da população viver em extrema pobreza.

Os grupos que compõem a elite que hoje clama nas ruas por «democracia» são os seguintes:

Grupo Polar - 10 mil milhões de dólares; Gustavo Cisneros y Ricardo Cisneros - 9 mil milhões de dólares; Oswaldo Cisneros - 8500 milhões de dólares; José Álvarez Stelling - 8 mil milhões de dólares; Familia Vollmer - 8 mil milhões de dólares; Familia Delfino - 7 mil milhões de dólares; Miguel Ángel Capriles - 6 mil milhões de dólares; Armando de Armas - 6 mil milhões de dólares; Salomón Cohén - 6 mil milhões de dólares; Familia Pizzorini - 5500 milhões de dólares; Hans Neumann - 5500 milhões de dólares; Grupo Central Madeirense - 5 mil milhões de dólares; Familia Di Masse - 5 mil milhões de dólares; Nelson Mezerhane - 5 mil milhões de dólares; Julio Sosa Rodríguez - 5 mil milhões de dólares; Grupo Phelps - 5 mil milhões de dólares; Beto Finol - 4500 milhões de dólares; Sixto Márquez - 4 mil milhões de dólares; Familia Domínguez - 4 mil milhões de dólares; Familia Veluntini - 3500 milhões de dólares; Humberto Petricca - 3500 milhões de dólares; Familia Mendoza - 3 mil milhões de dólares; Andrés Mata - 3 mil milhões de dólares; Luis Ángel Pérez - 3 mil milhões de dólares; Celestino Díaz - 3 mil milhões de dólares; Iván Darío Maldonado - 3 mil milhões de dólares; Nixon Levy - 3 mil milhões de dólares; Familia Ulivi - 3 mil milhões de dólares; Pablo Cevallos Eraso - 3 mil milhões de dólares; Familia Berrizbeitia - 3 mil milhões de dólares; Familia Pérez Dupuy - 3 mil milhões de dólares.

 

Os donos dos media

 

Os meios de comunicação social privados da Venezuela têm desempenhado um importante papel na desestabilização política e social que se vive no país. Isso não sucede por acaso. Atentando na lista dos 31 multimilionários que publicamos em separado, verifica-se que é encabeçada, a nível de individualidades, por Gustavo Cisneros, justamente um dos implicados no golpe de Estado de 11 de Abril de 2002.

Apesar do Grupo Polar aparecer como o maior grupo económico, a verdade é que os irmãos Cisneros, juntos, detêm quase o dobro da riqueza do Polar: qualquer coisa como 17 500 mil milhões de dólares.

Ora sucede que, ainda segundo o semanário Veraz, os manos Cisneros são os donos da Venevisión e da Telcel, entre centenas de outras empresas no continente americano.

É este grupo, o mais poderoso da Venezuela, que está por trás da conspiração contra Chavez.

Também o Grupo de Armas é proprietários de vários jornais, entre os quais 2001 e Abril, que de acordo com a nossa fonte servem para dar cobertura a grandes negócios, contrabando e tráfico de influências desde os anos 60.

Outro grupo poderoso no mundo dos media é o Capriles, que no entanto se tem mantido à margem das manobras conspirativas, como se verifica através dos jornais Últimas Notícias e El Mundo. O mesmo não se pode dizer do Hans Neumann, patrão do Tal Cual, que não desdenha ajudar de vez em quando os golpistas.

Com interesses na comunicação social aparece ainda o Grupo Phelps, que partilha agora o capital da RCTV com capital colombiano ou transnacional, e Andrés Mata, dono de El Universal, o mais pobre do grupo com «apenas» três mil milhões de dólares.

Tirando raras e honrosas excepções, os meios de comunicação social venezuelanos têm sido usados na campanha contra o governo de Chavez. Falsear a realidade, manipular em vez de informar, tornou-se uma prática quotidiana. Para defender os interesses dos grupos económicos a que pertencem, naturalmente.

Segundo sectores próximos do governo, a conjura para derrubar Chavez conta ainda com o apoio das organizações católicas ultraconservadoras TFP e Opus Dei, e da embaixada da Espanha.

 

Ligações perigosas

 

A tentativa de paralisar a empresa estatal Petróleos da Venezuela (PDVSA), verdadeiro coração da economia do país (45 000 empregados, exporta cerca de 2 300 000 barris diários de petróleo), surpreendeu muita gente e foi vista como um claro testemunho da alegada contestação generalizada ao governo. No entanto, a pronta adesão da PDVSA à campanha anti-Chavez explica-se de outro modo: foi a forma mais expedita que a CIA encontrou de intervir no processo.

Na verdade, a PDVSA uniu-se, em 1999, com a transnacional Science Applications International Corporation (SAIC) para formar a Intesa, uma empresa de outsourcing em matéria de informática. Através deste negócio, em que a Venezuela entrou com o capital inicial mas só ficou com direito a 40 por cento das acções, a SAIC passou a controlar toda a informação da petrolífera venezuelana.

De acordo com um artigo de Ralph Alexandar Foster e Tulio Monsalve (Uruguai), os lucros anuais da SAIC ascendem a 2 mil milhões de dólares, sendo que 90 por cento resultam de contratos com o governo dos EUA na área da defesa e dos serviços de informação.

Sediada nos EUA, a SAIC tem actualmente como administradores o general Wayne Downing (ex-comandante chefe das forças especiais dos EUA), o general Jasper Welch (ex-coordenador do Conselho de Segurança Nacional), e o almirante Bobby Ray Inman, ex-director da Agência Nacional de Segurança e antigo director da CIA.

Nomes tão sonantes da inteligência militar norte-americana na direcção da SAIC não são um acaso. A empresa tem a seu cargo o desenvolvimento do sistema informático da defesa do Departamento de Defesa dos EUA, ganhou os contratos mais importantes para o desenho do sistema de defesa e ataque aeroespacial mundial dos EUA, e está instalada nos centros de decisão das principais empresas petrolíferas do mundo, como a BP-AMOCO, por acaso a principal concorrente internacional da PDVSA.

Segundo o referido artigo, ao sucesso da SAIC não é estranho o peso dos seus administradores, entre os quais se contam Melvin Laird, secretário da Defesa de Nixon; o general na reserva Max Thurman, comandante da invasão do Panamá; Donald Hicks, chefe de investigações do Pentágono; William Perry, ex-secretário da Defesa; John Deutsch e Robert Gates ex-directores da CIA

Para rematar esta rede de ligações perigosas, refira-se que o ex-presidente da empresa estatal venezuelana, Luis Giusti, é actualmente assessor de Bush. De referir, já agora, que Giusti foi surpreendido com Carlos Andrés Pérez dando instruções e fazendo recomendações a líderes opositores locais que, sintomaticamente, se declararam em estado de «resistência activa» no dia 12 de Dezembro e pediram a intervenção militar da ONU e dos Estados Unidos.

Perante semelhante quadro, e tendo em conta a necessidade de ter garantido o fornecimento de petróleo durante o iminente ataque contra o Iraque, torna-se difícil admitir que a CIA não tem nada a ver com os acontecimentos na Venezuela.



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