• Gustavo Carneiro

Várias dezenas de milhar na manifestação nacional da CGTP
«Não cedemos!»

Já a cabeça da manifestação havia chegado ao Rossio há uma hora e meia quando os últimos trabalhadores arrancavam do Marquês de Pombal. Os trabalhadores estão unidos e determinados a combater a ofensiva.

As muitas razões para o protesto trouxeram várias dezenas de milhar de pessoas a Lisboa, no passado sábado, dia 8. Às três da tarde, não só a rotunda do Marquês de Pombal estava cheia como também as ruas adjacentes. Bandeiras vermelhas, de diversos sindicatos, federações e uniões, empunhadas por trabalhadores de outros tantos sectores e regiões, com diversas experiências e sotaques, deixavam transparecer a amplitude do protesto. Os jovens, os reformados e muitas outras camadas da população marcaram forte presença: o ataque do Governo afecta-os também a eles. Só autocarros, que transportaram milhares de pessoas de todas as regiões do País, vieram 290. E muitos deslocaram-se por meios próprios.

Para além do repúdio pelo pacote laboral esteve presente a indignação pelo aumento do custo de vida, sobretudo dos bens essenciais, sempre bastante acima do crescimento dos salários. A privatização de serviços públicos essenciais foi outra das medidas mais contestadas pela multidão que desceu a avenida, de nome «Liberdade». Ao longo de todo o percurso, colunas com som davam voz aos anseios dos manifestantes: «não pode ser, os ricos mais ricos e os pobres a perder» foi uma das frases mais entoadas a par de «pacote laboral só interessa ao capital».

A braços com um ataque sem precedentes do Governo «mais à direita desde o 25 de Abril» – como afirmaria Carvalho da Silva –, os trabalhadores portugueses não se esqueceram da sua tradicional solidariedade e repudiaram a intenção norte-americana de atacar o Iraque, bem como a subserviência do Governo português, que se pôs, sem quaisquer condições, ao serviço da administração Bush e das suas macabras intenções. E gritaram em uníssono: «Durão, Bush, Blair, esta guerra ninguém quer.»

A meio da avenida, junto ao centro de trabalho Vitória, uma grande delegação do PCP e da JCP, liderada pelo secretário-geral, Carlos Carvalhas, demonstrava a sua solidariedade para com o protesto.

Chegados os primeiros trabalhadores ao Rossio, muitos não tinham ainda sequer começado a andar. O facto de não estarem todos no Rossio – nem podiam, pois não cabiam – não impediu o início das intervenções. Mas ninguém deixou de as ouvir, pois foram difundidas pelo sistema de som colocado ao longo de todo o percurso.


Não dar tréguas


O secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, considerou a marcha, à qual compareceram «muitas dezenas de milhar», como uma enorme manifestação de indignação pela violenta ofensiva do Governo contra os trabalhadores. Lembrando que esta luta se trava num contexto nacional e internacional favorável às forças da direita e do capital, que se sente com forças para atacar, Carvalho da Silva voltou a manifestar a convicção da central sindical de que apenas a luta poderá melhorar as condições de vida e de trabalho. «Não cederemos», afirmou o dirigente sindical. «Defenderemos os direitos dos trabalhadores e o futuro do País.»

Sobre o pacote laboral, Carvalho da Silva apelou à luta, pois ainda nada está decidido. É necessário lutar nas empresas, pois os patrões estão a bloquear a negociação colectiva, esperando pela entrada em vigor da nova legislação. Depois, a negociação seria feita «sem rede», em favor dos patrões.

«A crise só serve para não aumentar os salários», afirmou o secretário-geral da CGTP. Quando de trata do aumento dos preços e das benesses para os ricos ela não existe, lembrou. «Ladrões», gritaram alguns. Em seguida, em tom irónico, o dirigente da Inter recordou as promessas feitas pelo «Paulinho das Feiras» aos mais velhos. Aumentaria as reformas mínimas, até ficarem equiparadas ao salário mínimo. «Mas o "Paulinho das Feiras" desapareceu. Agora, o ministro de Estado Paulo Portas não tem tempo para pensar nos velhinhos», afiançou.

Antes do secretário-geral da CGTP, falou Célia Lopes, da Interjovem e da Comissão Executiva da central. Na sua intervenção, destacou a necessidade de contactar com os muitos trabalhadores que, na greve geral, travaram a sua primeira luta, nomeadamente os mais jovens. «A razão está do nosso lado», considerou a jovem sindicalista. «A luta vai continuar», prometeu.


Unir as lutas em Março


Do palco colocado no Rossio, perante várias dezenas de milhar de manifestantes, a CGTP comprometeu-se a prosseguir as «acções de esclarecimento e mobilização dos trabalhadores nos locais de trabalho e prosseguir, desde já, com redobrado empenho, nas empresas e sectores de actividade, a luta organizada contra o pacote laboral, o aumento do custo de vida, o desemprego, e por políticas salariais e sociais justas». No seguimento destas acções, a Intersindical vai empenhar-se na concretização de uma «grande acção conjugada das lutas reivindicativas, a ter lugar na segunda quinzena de Março». Os trabalhadores apoiaram a ideia.

Antes, Carvalho da Silva não poupara críticas à UGT, que acusou de ter um papel «vergonhoso», ao credibilizar o pacote laboral, assinando o «compromisso tripartido» com o Governo e a CIP e dando ao executivo a oportunidade que precisava para afirmar que sobre as medidas constantes no «compromisso» não aceitará alterações. Ainda assim, o dirigente da Intersindical lembrou que muitos sindicalistas da UGT «estão connosco».



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