Iraque
A catástrofe anunciada

Cerca de 30 por cento das crianças iraquianas com menos de 5 anos correm «risco de morte por desnutrição» em caso de ataque ao Iraque, prevê estudo da ONU.

Destinado às agências de socorro e representantes de governo, o documento confidencial das Nações Unidas recentemente vindo a público com o título «Plano humanitário integrado de contingência para o Iraque e países vizinhos», foi elaborado pelo Office for the Coordination of Humanitarian Affairs (OCHA) visando mobilizar esforços para «operações humanitárias em caso de guerra».

O estudo do OCHA foi divulgado pelo Center for Economic and Social Rights (CESR), de Nova Iorque, e pela Campaign Against Sanctions on Iraq (CASI, organização não governamental com sede em Cambridge), graças à colaboração de fontes das Nações Unidas que consideram que a tragédia humanitário no Iraque pode ser tão grave, em caso de guerra, que todo o mundo deve conhecer o que efectivamente está em jogo.

As perspectivas avançadas pelo OCHA são aterradoras:

- Em caso de crise, 30 por cento das crianças com menos de cinco anos estão ameaçadas de morte por desnutrição. Tendo em conta que o número total de crianças nessas condições é de 4,2 milhões, o número das que podem morrer de fome ascende a 1,26 milhões;

- O colapso dos serviços essenciais no Iraque pode levar a uma catástrofe humanitária a que as agências da ONU e outras organizações de socorro, a braços com graves problemas financeiros, não terão capacidade para lhe dar resposta;

- Os efeitos de mais de 12 anos de sanções ao Iraque, antecedidas pela guerra, aumentaram consideravelmente a vulnerabilidade da população; o maior sector em risco é o das crianças menores de cinco anos, mulheres e lactantes, que ascende a 5 210 000 seres humanos;

- O programa Alimentar Mundial (PAM) estima que cerca de 10 milhões de pessoas poderão ficar altamente afectadas em termos de alimentação, deslocadas ou atingidas pela acção militar; pelo menos 3 020 000 pessoas ficarão numa situação de risco nutricional;

- No caso de uma crise, apenas 39 por cento da população seria abastecida com água racionada. No total, 18 240 000 pessoas poderá ficar sem acesso a água potável e 8 710 000 poderão ficar sem saneamento básico;

- O organismo das Nações Unidas para os refugiados prevê que, em caso de conflito, mais de 1,45 milhões de pessoas tentem fugir do Iraque e procurar asilo em países vizinhos;

- Mais de 900 mil pessoas podem ser deslocadas, para além 900 000 a 1 100 000 que já se encontram deslocadas internamente;

- As baixas potenciais podem ascender a 500 000.

Confrontado com estas estimativas, o coordenador da CASI, Jonathan Stevenson, foi peremptório em afirmar que «os 30 milhões de dólares de ajuda de emergência» prometidos para enfrentar a crise humanitária iraquiana (pouco mais de um dólar por pessoa) são «totalmente inadequados». Para Stevenson, «o paleio de Tony Blair quanto a uma causa moral para a guerra constitui mais uma indicação de que não está a ser assumida nenhuma responsabilidade séria quanto ao impacto das políticas do Reino Unido sobre os civis iraquianos».

No passado dia 13 de Fevereiro, as agências da ONU estimaram em cerca de 120 milhões de dólares as suas necessidades de financiamento para medidas de preparação de auxílio em caso de um ataque ao Iraque.


Uma população indefesa


Um outro documento da ONU divulgado em Janeiro pela CASI (Likely Humanitarian Scenarios, datado de 10 de Dezembro de 2002) alerta para o facto de haver a tentação em alguns sectores para equacionar a situação que se seguiria a qualquer futura intervenção militar no Iraque em função da capacidade que a população teve para enfrentar a agressão em 1991. «Tais comparações não são válidas», refere a CASI, «pois a maioria da população, imediatamente antes dos acontecimentos de 1991, dispunha de pleno emprego e de dinheiro e bens materiais para enfrentar a crise», o que agora não sucede. A organização lembra que «o grosso da população está agora totalmente dependente do governo iraquiano para a maioria, se não a totalidade, das suas necessidades básicas e, ao contrário do que sucedia em 1991, não tem qualquer meio para enfrentar a situação».

Vale a pena lembrar que, segundo um estudo elaborado em 1993 pelo Physicians for Social Responsability Quartely, o «número de iraquianos que morreram em 1991 em consequência dos efeitos da Guerra do Golfo ou da perturbação do pós-guerra aproxima-se dos 205 500».



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