• Luís Carapinha

Elo perigoso

Cavalgando por cima do crescente clamor contra a guerra que percorre o mundo, os EUA e acólitos prosseguem os preparativos para uma intervenção armada no Iraque. A guerra que tentam impor a um país enfraquecido representa uma clara escalada belicista do imperialismo norte-americano no seu sinistro intento de alcançar o domínio global absoluto.

A instabilidade e nervosismo que se observa nos falcões de todos os azimutes tem a ver com as sérias resistências que a caminhada para a uma nova ordem mundial totalitária hegemonizada pelos EUA actualmente enfrenta, ainda não transcorridos dois anos dos trágicos atentados de 11 de Setembro de 2001. O autêntico «estado de graça» de que os EUA gozaram está agora esgotado. Apesar da gigantesca máquina de propaganda mediática, cresce a consciência contra a guerra das massas populares em todo o mundo, processo intimamente ligado às lutas dos trabalhadores que despontam e se vão multiplicando. Neste contexto, agravam-se e emergem à superfície as inevitáveis contradições estruturais interimperialistas.

As declarações do secretário da defesa americano, Donald Rumsfeld, sobre a deslocação para leste do eixo europeu e a emergência de uma «Nova Europa» em oposição à «Velha Europa» encarnada pela França e Alemanha, são sintomáticas, indiciando que o que está em causa extravasa os próprios limites da questão iraquiana e dos vastos interesses económicos que lhe estão associados. Sobre a mesa está a estratégia planetária comum do sistema capitalista mundial, o reforço dos seus instrumentos e estruturas supranacionais como emanação das crescentes pretensões hegemónicas norte-americanas e expressão das suas insanáveis contradições internas. A lógica do sistema, na sua dinâmica interna, exigirá novas «vítimas» e vassalos, o que, parecendo agradar a alguns «abutres», não pode deixar de constituir motivo de inquietação maior até para parceiros e aliados tradicionais dos EUA. Mas que «Nova Europa» é esta que o acelerado alargamento da NATO (e UE) tentam sedimentar? Na realidade, trata-se da Europa revanchista da restauração capitalista, da regressão social, do poder nas mãos de minorias oligárquicas e mafias, economicamente dependente e subordinada ao «consenso de Washington». Uma Europa de nacionalismos exacerbados mas de Estados fictícios; de perseguições xenófobas e políticas. Esta é, na generalidade, a Europa dos países saídos do colapso do campo socialista e do retalhamento da Jugoslávia, uma Europa de recuo civilizacional, para a qual, é bom recordar, muito contribuíram todas as grandes potências capitalistas ocidentais.

Neste contexto (e não esquecendo o quadro das contradições internas da UE), a posição de seguidismo dos desígnios norte-americanos de Blair, Aznar, Berlusconi e Durão, as alusões e a mitificação recorrentes do elo transatlântico, constituem um elemento simultaneamente revelador e motivo de inquietação. Mais do que a manifestação de meros factores da conjuntura, o seu alinhamento com Washington, afrontando a opinião pública dos respectivos países, coloca a descoberto o ímpeto agressivo, o carácter anti-democrático, o oportunismo e a agenda obscura de uma direita reaccionária em fuga para a frente.

O reforço da mobilização e luta pela paz assumem, deste modo, uma importância fundamental, inseparável da luta dos trabalhadores e povos contra o neoliberalismo, versão actual do sistema capitalista. Só assim será possível vencer o imperialismo e afastar o espectro da catástrofe que ameaça a humanidade.



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