• Carlos Gonçalves

A «guerra em directo»
Vivemos a «guerra em directo», a euforia televisiva do grande espectáculo da guerra, de violência e destruição apocalíptica e morte anónima, de fascínio pela parafernália tecnológico-militar e de overdose de directo da frente de batalha, resultando na insensibilização do espectador e na putativa legitimação da guerra pela sua vulgarização e despolitização, como se fosse mais uma superprodução de Holywood.

A vertigem do directo televisivo é um produto da tecnologia, mas a sua proximidade à linha da frente da coligação imperialista resulta duma decisão de comando, fruto da nova doutrina de «controlo do ambiente mediático», permitindo o acesso dos media aos combates, mas garantindo a sua presença e enquadramento, conforme interesse a quem decide.

Assim, pela via dos directos espectaculares, mas superficiais e parciais, gere-se o binómio informação/censura, com ou sem disfarce, resultando muitas vezes em propaganda e contra-informação com objectivos tático-operacionais, como bem se vê pela lista de «notícias» desmentidas desta guerra criminosa.

E ao controlo encapotado junta-se a (auto) censura imposta, na CNN e noutros media, e o «comentário técnico», (que nas tvs nacionais mais parece oficial, quando produzido por militares fardados), incorporando tantas vezes o conceito do «nós», os «aliados», e o subliminar das «nossas tropas» contra o «inimigo».

Quando os grandes media saem do controlo, porque o «ingrato» povo do Iraque resiste e muita coisa está a fugír do «guião» USA da guerra, e há jornalistas que mostram a situação real, (e há portugueses que o estão a fazer), então Bush fica «irritado» e Blair «frustrado» e acontecem as ameaças (in)directas aos media «desafectos».

Talvez por isso, por não estarem «devidamente enquadrados», nem bem apoiados pelo «Governo aliado» de DBarroso, dois profissionais da RTP foram presos e mal tratados pela polícia militar americana, seguramente uma força bem próxima do respectivo comando.

Só que não é com a intimidação ou o saneamento de jornalistas, como agora na NBC americana, com o controlo dos media, ou a overdose da «guerra em directo», que Bush & Cia conseguem escamotear a natureza desta guerra imperialista, de agressão e rapina, que transparece das muitas promiscuidades dos «senhores da guerra» com os grandes interesses do petróleo, do armamento e da «reconstrução».

E para o denunciar - escreveu Mia Couto - «...temos uma arma de construção maciça: a capacidade de pensar». E de agir.


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