Editorial

Nas últimas semanas, no Iraque, foram mortos e feridos muitos milhares de pessoas

CRIME CONTRA A HUMANIDADE

A tentativa de esconder a verdadeira dimensão das atrocidades praticadas pelas tropas anglo-americanas no Iraque reflecte da parte dos encobridores a consciência da gravidade dos crimes contra a Humanidade cometidos nas últimas semanas às ordens de Bush e Blair - com o acordo, o apoio e a conivência, nomeadamente, de Aznar e Durão Barroso.
Os responsáveis pelos assassinatos em massa procuram esconder as atrocidades que praticam (bombardeamentos de bairros residenciais, de escolas, de hospitais, de mercados) por detrás das habituais formulações hipócritas («danos colaterais», etc) – e, tentanto silenciar os seus crimes, não hesitam em bombardear os jornalistas do Hotel Palestina e da Al-Jazeera. Os papagaios do Império, fardados e à paisana, utilizando a comunicação social dominante, propalam aos quatro ventos que esta é uma «guerra limpa», «quase sem vítimas civis», uma guerra em que, apesar dos «bombardeamentos massacrantes, dos ataques a cidades, dos confrontos no terreno», as «vítimas civis são em número reduzido».
No entanto, as imagens e as notícias que, apesar de tudo e contra a vontade do Império, chegam até milhões de pessoas e a memória das mentiras a que é hábito recorrerem esses papagaios, destroçam por completo as suas patranhas actuais. De facto, tudo indica que, nas últimas semanas, no Iraque, foram mortas e feridas muitos milhares de pessoas - homens, mulheres e crianças – por efeito dos milhares de toneladas de bombas despejadas sobre o país e o povo iraquianos naquele que foi, provavelmente, o maior bombardeamento da história da humanidade.
O Império, os seus aliados e a habitual turba canora de serviço à glorificação do crime não conseguem, desta vez, fazer passar a mentira, a mistificação, a manipulação; nem conseguem que a máscara de democratas a que usam recorrer seja aceite como tal pela opinião pública que lhes vê os rostos cobertos do sangue das suas vítimas. Os criminosos são criminosos. E os seus cúmplices e lacaios são cúmplices e lacaios de criminosos. Assim os vê a opinião pública. Ao contrário do que a opinião publicada desejaria.

Foram dois os argumentos essenciais utilizados pelos EUA para justificar a invasão e ocupação do Iraque: as armas de destruição maciça que, segundo Bush, estariam na posse do regime iraquiano e a ligação e o apoio desse regime aos terroristas da Al-Qaeda, ligação e apoio que Bush considerava mais do que provados. Tudo isto, acrescido do facto de o Iraque viver sob um regime ditatorial, configurava, na opinião do Império, um grave perigo para a Humanidade. Ouvindo as arengas proferidas pelo Presidente dos EUA – que os mentecaptos papagaios de serviço repetiam em coro síncrono - dir-se-ia estarmos na iminência da conquista do Planeta por parte do império do mal, personificado em Saddam Hussein. Na realidade, Bush sabia melhor do que ninguém que tal perigo era inexistente e sabia melhor do que ninguém que a invocação desse falso perigo era tão somente o pretexto para os EUA ocuparem o Iraque e se apropriarem do petróleo ali existente. Isto para já – porque só quem quiser ser cego e surdo é que não vê nem ouve a concreta ameaça expansionista, hegemónica, totalitária, fascizante que percorre o discurso e a postura de Bush e dos seus homens de mão. E quanto às preocupações libertadoras dos EUA, basta lembrar os golpes fascistas concretizados às ordens do Império ou os regimes fascistas por ele apoiados... (para não ir mais longe, lembremo-nos do apoio que os EUA deram, durante 48 anos, ao regime fascista português).

Quando os inspectores da ONU estavam em vias de concluir que o Iraque não possuía as tais armas de destruição maciça, o Império apressou-se a iniciar a guerra. E fê-lo em condições de absoluta vantagem: dispondo da maior força bélica que alguma vez um país teve e utilizando-a com a maior brutalidade de sempre ; sabendo que o Iraque era um país praticamente desarmado; sabendo que as armas de que os iraquianos dispunham eram velharias obsoletas; e sabendo tudo sobre as condições de defesa do país.
No decorrer da invasão e do massacre, os serviços de contra informação do Império cedo deixaram cair o argumento das ligações à Al-Qaeda mas aludiam com frequência às suspeitas de existência das terríveis «armas químicas» (quase sempre escondidas num «velho armazém») que as «forças do mal de Saddam Hussein» se preparavam para utilizar. Tais alusões terminavam sempre, significativamente, com a afirmação: «A confirmar-se a descoberta, a guerra está plenamente justificada». Como, até agora, tais armas não foram descobertas (nem se presume que o venham a ser), há que concluir (pegando na palavra dos invasores) que a guerra não tem justificação, que Bush e Blair mandaram matar milhares de homens, mulheres e crianças por presumirem que Saddam tinha armas de destruição maciça...
A realidade da guerra confirmou aquilo que já se sabia: que o país possuidor do maior arsenal de armas de destruição maciça, químicas e biológicas é os EUA; que os EUA têm sido, ao longo da história, os maiores utilizadores de tais armas – não hesitando, sempre que isso serve os seus interesses «vitais», em massacrar «preventivamente» centenas de milhares de pessoas; que tudo isto mais o seu objectivo de domínio total do mundo fazem do imperialismo norte-americano o maior perigo para a Humanidade, a maior ameaça à democracia, à liberdade, aos direitos humanos.


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