Greves e manifestações em França
Em defesa das pensões
Em dois meses, os franceses realizaram duas poderosas jornadas de luta contra a reforma do sistema de pensões que o governo de direita pretende aprovar no parlamento.
Com greve greves e manifestações por todo o país, os trabalhadores franceses de diferentes sectores, público e privado, deram resposta clara ao governo de Jean-Pierre Raffarin que se propõe aprovar, até ao próximo Verão, uma profunda reforma no sistema de segurança social, pondo em causa princípios e direitos há muito adquiridos.
Já em 1 de Fevereiro, com os mesmos objectivos, uma jornada nacional de luta mobilizou entre 250 mil e meio milhão de manifestantes. Quinta-feira da passada semana, dia 3, organizadores e polícia convergiram num ponto: houve mais gente e mais acções do que em na jornada anterior. Dados policiais davam conta de pelo menos 320 mil manifestantes em 70 cidades. Os números dos sindicatos referem acções numa centena de cidades. Destacaram-se Paris e Marselha com mais de 80 mil pessoas e Toulouse com 35 mil. Funcionários públicos, os principais visados pela reforma, engrossaram os desfiles, mas também os assalariados do sector privado marcaram forte presença.
As greves abrangeram diferentes ramos da economia, mas os tiveram efeitos particularmente visíveis nos transportes terrestres e aéreos. Em média, foram anulados três em quatro voos. Nos aeroportos parisienses de Roissy e de Orly, 70 por cento dos voos não se efectuaram. Estima-se que dos 2100 voos diários se tenham realizado apenas 620. Segundo dados da direcção geral de aviação civil, 80 por cento dos voos foram cancelados em toda a França.
Na rede ferroviária da companhia pública SNCF, a greve afectou uma em cada duas composições, mas na região de Paris, apenas uma em cada quatro circulou. O metro de Paris registou igualmente fortes restrições, circulando apenas um comboio em cada três, sem bem que em várias linhas o tráfego tenha paralisado totalmente.
As greves afectaram ainda o sector das telecomunicações, as escolas, com perto de metade dos estabelecimentos de ensino básico encerrados, bem como outros serviços públicos, designadamente os museus.

Um sistema
excedentário

O governo de Raffarin lançou esta reforma no início do ano evocando a insustentabilidade do actual sistema de pensões, que vigora no País desde o pós-guerra. O primeiro-ministro francês afirma que manterá a idade de reforma nos 60 anos, embora pretenda abrir a possibilidade de se trabalhar durante mais tempo. Garante também que o sistema de repartição será salvaguardado, sendo contudo «completado» por esquemas de poupança-reforma. Outro objectivo da direita no poder é nivelar os períodos de contribuição exigidos no sectores público e privado.
Os funcionários públicos, que constituem um quarto da população activa, mostram-se determinados a defender os seus direitos, designadamente o tempo de serviço necessário para requerer a reforma - 37,5 anos contra os 40 exigidos no sector privado. Actualmente, o sistema de segurança social apresenta um importante excedente igual a 0,6 por cento do produto interno bruto francês (PIB). Porém, cálculos do governo prevêem que atinja o défice de 1,8 por cento do PIB em 2020 e de 3,8 por cento em 2040.
Entretanto, a reforma foi apresentada pela França no último Conselho de Economia e Finanças da União Europeia, onde foi acolhida com entusiasmo e como uma prova de que afinal o governo gaulês pretende aplicar as orientações de Bruxelas de reduzir as despesas do Estado e efectuar as chamadas reformas estruturais (ver peça). Os diferendos da França com a Comissão e os parceiros comunitários em torno do cumprimento do Pacto de Estabilidade poderão esbater-se por esta via.


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