Trabalhadores das indústrias eléctricas realizam greve nacional e obrigam Governo a recuar
A luta dá resultado
O Governo foi forçado a recuar na decisão de atribuir altas compulsivas aos trabalhadores com tendinite até ser feita uma reavaliação das situações clínicas.
Os trabalhadores do sector da fabricação de material eléctrico e electrónico concentraram-se no passado dia 11 junto ao Centro Nacional de Protecção Contra os Riscos Profissionais (CNPCRP) para exigir a continuação do pagamento das baixas e a reparação efectiva da saúde dos trabalhadores doentes. Nesta acção, conseguiram ser recebidos pelo director do centro, que foi forçado a afirmar que recuaria na decisão de atribuir altas administrativas aos portadores de tendinite, até ser feita uma reavaliação do estado de saúde de cada trabalhador.
Antes da concentração, centenas de trabalhadores haviam já reocupado os seus postos de trabalho nas empresas, apesar de se encontrarem doentes. Em muitas empresas, estes voltaram a ocupar os mesmos postos de trabalho que anteriormente haviam gerado a doença.
Na multinacional norte-americana Visteon, as condições de trabalho foram mesmo pioradas, com a retirada das cadeiras e a obrigatoriedade em trabalhar de pé. A Pioneer, por sua vez, mantinha estes trabalhadores numa sala sem trabalho, com o argumento de que não tem postos de trabalho compatíveis com o estado de saúde dos operários. A Yakaki Saltano, de Ovar, obrigava-os a desempenhar funções e ritmos de trabalho iguais a todos os outros trabalhadores, independentemente de se encontrarem ou não doentes.
A Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores das Indústrias Eléctricas de Portugal (FSTIEP) acusa as empresas de estarem a forçar estes trabalhadores à rescisão. Para a federação, estas manobras das empresas contam com o aval do Governo, que sabia que «ao atribuir altas administrativas sabia que ia vulnerabilizar os portadores de doença profissional do ponto de vista do emprego». A FSTIEP responsabiliza ainda o CNPCRP por nada ter feito para prevenir a contracção de doenças profissionais e por ter cancelado «ilegalmente o pagamento das baixas aos 30 meses». Acusa ainda o centro por não reembolsar, em muitos casos, os portadores de tendinite das despesas ligadas à doença.
Resta saber se – e como – o Governo vai levar por diante a garantia dada no calor da luta.

Contra o desemprego

A concentração ocorreu no dia da greve nacional do sector. Para além das doenças profissionais, os trabalhadores protestavam contra o desemprego e exigiam do Governo medidas para conter as deslocalizações de empresas. Segundo a federação, este processo está em curso em várias empresas e estimam-se em três mil os postos de trabalho em risco. Já no ano passado, lembra, perderam-se outros tantos.
Entre as empresas que já iniciaram processos de deslocalização, encontra-se a Alcoa, que está a transferir para a Hungria uma parte da sua produção de cablagens para os veículos produzidos na Autoeuropa, sua única cliente. A Alcoa já reduziu de 1600 para 1330 o seu número de trabalhadores e, segundo a federação, estão previstos mais 200. A Phillips desmembrou a fábrica de Ovar em cinco unidades e transferiu a produção de componentes electrónicos para a Eslováquia, estando a pressionar cerca de 400 trabalhadores para que rescindam os seus contratos. A deslocalização parcial da Yazaki Saltano para Marrocos provocará a perda de 750 postos de trabalho. A fábrica de Valongo da Lear Corporation despediu já 500 dos seus 1500 trabalhadores, mantendo a ameaça de transferência total do trabalho para as suas fábricas na Roménia e em Marrocos.
A FSTIEP acusa também o Governo pela situação. Segundo a estrutura sindical, o executivo conhece a situação e nada faz. Nos encontros com os trabalhadores, chega mesmo a considerar as deslocalizações como «processos normais», acusa a federação.


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