Câmaras da revolta

A Associação Portuguesa de Realizadores manifestou-se, em conferência de imprensa, quarta-feira da semana passada, contra o plano de mercantilização do cinema português, contida no novo anteprojecto da Lei das Artes Cinematográficas e Audiovisuais.
Tal como já haviam feito durante a discussão pública do diploma, os realizadores voltaram a alertar para a transformação desta arte «num negócio de empresários», e para a não «separação clara entre cinema e televisão» cujos objectivos, modos de produção, difusão e consumo «são radicalmente diferentes».
Desta forma, disseram, procura-se efectivar a «censura económica», como é exemplo a diminuição de 14 para 6 longas metragens produzidas por ano de 2000 a esta parte.
Exigiram ainda a imediata revogação de uma recente portaria que regula o Plano de Produção Intercalar, que obriga, como regra de candidatura a subsídios, a agregação a um produtor, bem como subestima a capacidade de penetração no circuito internacional em detrimento das vendas nas salas de cinema nacionais.
Caso não sejam ouvidos pelo ministro da Cultura, dispuseram-se a encetar outras formas de luta para defenderem «a língua, a memória e a cultura de um país».


Mulher de muitas lutas

Decorreu ontem na Livraria Bertrand, em Lisboa, a apresentação do livro «Maria Lamas. Biografia», de Maria António Fiadeiro.
A obra visa, segundo a autora, dar a conhecer o trabalho e a vida de uma lutadora pela emancipação da mulher como «uma realização profissional, uma consciencialização cívica».
O livro compila textos daquela militante comunista e testemunhos de diversas pessoas que com ela conviveram.
Na década de vinte, Maria Lamas colabora com as secções infantis de diversos jornais, passando a coordenar o suplemento Modas & Bordados do qual seria directora até ser compulsivamente afastada em 1947.
A par da carreira jornalística escreve romances, contos infantis e organiza mostras, imprimindo à revista um carácter «resistente e sobrevivente, que acompanha a evolução da mulher, a sua promoção cultural e cívica», como refere Maria António Fiadeiro, que destaca o papel de Maria Lamas na resistência ao fascismo.
Colabora na criação do MUD Juvenil e é eleita presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, que é depois encerrado. Inicia a sua obra mais relevante As Mulheres do meu País, que edita em fascículos quinzenais.
No regresso de uma viagem aos países socialistas é presa, passando desde então a ser vigiada pela PIDE até ao seu exílio em Paris.
Depois do 25 de Abril volta à Modas & Bordados como directora honorária, vindo a falecer em 1983 com 90 anos de idade.


PJ investiga Finanças

A Direcção Central de Investigação da Corrupção e Criminalidade Económica e Financeira deteve, na passada semana, 17 indivíduos suspeitos de corrupção fiscal.
A mega-operação da Polícia Judiciária culminou meses de investigações à Direcção de Finanças de Setúbal, à qual pertenciam 13 dos 17 detidos, alguns desempenhando funções como quadros superiores e intermédios.
Os restantes quatro elementos alegadamente envolvidos, dois advogados, um jurista e uma técnica de um gabinete de consultoria e contabilidade, funcionavam como intermediários no negócio, constituindo a segunda célula operativa, articulada pela estrutura de cúpula dos altos funcionários das Finanças.
A alegada fraude consistia em anular ou retardar o pagamento das contribuições de determinadas empresas devedoras ao fisco, das quais foram até agora detectadas cerca de uma centena, intervindo na fase dos processos graciosos e contenciosos fiscais, resultando em prejuízos ainda por quantificar para a administração fiscal.
O Tribunal de Setúbal já ouviu os suspeitos, tendo aplicado como medidas de coacção uma caução de 15 mil euros para um dos arguidos, e determinado a apresentação periódica às autoridades com termo de identidade e residência a três funcionários das Finanças.


Exoneração «atípica»

A direcção clínica do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, decidiu, na passada quarta-feira, demitir o director do serviço de doenças infecciosas, Francisco Antunes, na sequência das declarações proferidas por este numa entrevista à TVI.
O médico alertou, na referida entrevista, para a inexistência de condições de isolamento de doentes suspeitos de estarem infectados com a pneumonia atípica, colocando em causa a exequibilidade do plano de acção apresentado pelo Ministro da Saúde, no qual se incluía o serviço de doenças infecciosas do HSM como um dos que estavam preparados para fazer face à existência de casos da doença em Portugal.
Em resposta ao teor das declarações a direcção decidiu exonerar Francisco Antunes do cargo que ocupava, alegando que este se havia afastado «do que era de esperar face à administração do hospital», e acusou este de nunca «se ter queixado da falta de condições ou proposto alternativas».
A Ordem dos médicos já reagiu ao sucedido afirmando que «nenhum médico pode ser exonerado por delito de opinião e muito menos por revelar que um serviço não tem condições para fazer aquilo para que foi solicitado» constituindo tal «um dever médico».


Resumo da Semana