• Jorge Cordeiro
    Membro da Comissão Politica

Pontos nos ii sobre o Fórum Social Português
1.
A realização do Fórum Social Português e a viva controvérsia de pontos de vista e de atitudes que envolveram a sua preparação dificilmente serão compreensíveis à margem do que sobre ele se concebia e dos objectivos que a ele se atribuíam.
Para um largo conjunto de organizações, claramente maioritário e onde o PCP se incluía, o FSP deveria ser sobretudo um momento de encontro, troca de experiências e de propostas de todas aquelas organizações que afirmando-se criticas e oponentes do neoliberalismo e da guerra poderiam nele convergir, enriquecido pela características de cada uma das organizações, da autonomia própria de acção e objectivos e no respeito pela independência da cada um.
Amalgamá-las ou tentar impor-lhe um modelo e voz única, não só não contribuiria para afirmar pela diversidade a sua amplitude como não corresponderia a uma solução desejável num espaço onde estavam patentes muitas e naturais diferenças de pontos de vista políticos e sociais (desde organizações que se opuseram à condenação do capitalismo na declaração final, por se assumirem não anti-capitalistas, a outras em que o preconceito anticomunista emergia com indisfarçável nitidez).
Cedo se percebeu que alguns pretendiam do FSP muito mais do que publicamente apresentaram para a sua realização : um instrumento para afirmarem um projecto próprio, um meio para alcançarem projecção e para tentarem obter o que a sua real influência e papel na sociedade lhes negava. Os que assim o viam, desde a primeira hora que persistiram na tentativa de impor a outros um modelo de FSP assumido como um processo determinado com objectivos estruturalistas e dirigistas destinado a construir e a fazer nascer um novo «ente político» ambicionado a transformar-se em centro político de marcação do programa e da agenda de luta social no nosso país, capaz de atrelar a ele (e a eles naturalmente) o que de mais representativo e influente intervém na sociedade.
Se algo ficou patente na preparação do FSP foi, não o controleirismo que alguns acusam outros de praticar, mas sim, a sua imensa ambição de se apresentarem como donos do movimento social, de nele mandarem e decidirem no sentido do que previamente já concertaram, e dele poderem dispor para as suas estratégias políticas e de grupo sem qualquer contestação.

2.
Como hoje se revela claro, foi manifesta a dificuldade de alguns em aceitarem e respeitarem o conjunto de organizações e de movimentos na sua diversidade e objectivos, com o seu percurso histórico e presença real de cada um na vida e na luta na sociedade portuguesa. Para esses, o movimento social seria aquilo que eles determinaram que passaria a ser, e não o que efectivamente era. Ou seja os «movimentos sociais» seriam aqueles e exclusivamente aqueles que alguns determinaram que assim passavam a ser considerados, não por razão da sua natureza ou influência, mas sobretudo por razão de afinidade, proximidade ou coincidência de posições com o Bloco de Esquerda. Teorizando, e tentando impor o que teorizavam, alguns rapidamente se encarregaram de deixar claro o lugar secundário que reservavam para as organizações de classe e de massas existentes em Portugal, a desvalorização que assumiam do papel da luta dos trabalhadores e a subalternização que desde o início pretenderam impor aos Partidos, e mais directamente ao PCP na medida em que o Bloco de Esquerda se apresentava, como uma das suas vozes o afirmou, mais como movimento do que como partido.
Na expressão de maniqueísmo doentio de alguns, as organizações com o percurso e afirmação do movimento sindical, das organizações de agricultores, de quadros técnicos e cooperativas, da paz e cooperação , de mulheres ou de comissões de utentes não passariam de «satélites» do PCP e expressões ultrapassadas do movimento social incapazes de responderem aos novos desafios da «globalização»; enquanto que o que restaria, — na sua maioria meras siglas, grupos de amigos ou associações de facto políticas mas que preferem chamar-se sociais, sem dúvida respeitáveis e com alguma contribuição a dar, — seriam os únicos, legítimos e pujantes «movimentos sociais» capazes de dar novas respostas e de dirigir o combate à globalização neoliberal.

3.
Ao contrário do que se escreveu, foram os que agora acusam o PCP que, a todo o momento, não se coibiram de recorrer ao golpe e à instrumentalização para tentarem tornear o que não conseguiam fazer vingar no quadro do debate no conjunto das organizações, que não se conformavam com o que consensualmente se apurava.
Em todo o processo de preparação do FSP esteve presente o que de mais característico se conhece da actividade e dos procedimentos dos agrupamentos esquerdistas : a reposição permanente, por caminhos tortuosos, de tudo o que não conseguiam fazer prevalecer nas discussões, propostas e consensos que maioritariamente eram construídos; a tentativa, algumas vezes consumada, de à margem das estruturas normais de debate e preparação do FSP, criar outros espaços e reuniões de onde pudessem criar a partir de factos consumados melhores condições para imporem as sua opiniões; o desprezo pela opinião e autonomia de todas as organizações que com eles não convergiam; a mesquinha atitude divisionista e da manipulação dos factos de que o processo da manifestação e da Assembleia dos Movimentos Sociais é expressão maior.
Aquilo que alguns, com a colaborante intervenção de jornalistas de serviço aos interesses do BE, acusaram o PCP de fazer, é justamente o que eles próprios ao arrepio dos consensos e das decisões comuns laboriosamente construídas se recusaram a aceitar.
As acusações que se dirigiram ao PCP de pretender monopolizar e hegemonizar a indicação de oradores para as conferências tem o mais elucidativo desmentido na prova irrefutável de, entre os conferencistas, se encontrarem 11 dirigentes nacionais do Bloco de Esquerda para apenas 7 do PCP.
A acusação dirigida ao PCP a propósito da Manifestação, de a pretender hegemonizar ou manipular não só é desmentida pelo facto de quem profere essa acusação ter tentado até á exaustão impor a todos os outros uma ordenação do desfile que os subalternizasse, como pela inqualificável atitude de, na mais completa falta de respeito pelo que democraticamente havia sido consensualizado, não só terem organizado uma manifestação à parte, preparada à margem da organização a que eles próprios pertenciam e com um percurso que democraticamente não haviam conseguido fazer prevalecer. Recorde-se neste momento o que alguns pretendem fazer esquecer: a sua intenção de, numa concepção dirigista e discriminatória, pretenderem impor ao movimento sindical e aos partidos um papel subalterno, instituindo e consagrando um estatuto de segunda categoria ao que chamam de movimentos sociais «tradicionais» ; e o facto de já na Avenida da Liberdade, quando o PCP num último esforço para salvar a unidade do desfile se disponibilizou para o fechar (por sua iniciativa e não por determinação de outros, note-se) foram esses mesmos que numa táctica de vitimização premeditada assumiram a responsabilidade, exclusiva, da separação do desfile.
A acusação dirigida ao PCP de manipulação da Assembleia dos Movimentos Sociais (da qual não era parte integrante, lembre-se) em que alguns quiseram impor a aprovação do agendamento de um segundo Fórum é também elucidativa por três razões: pelo golpismo dos que, estando a declaração final a ser construída há semanas, reservaram à socapa e de surpresa para o próprio dia da reunião plenária de preparação da Assembleia a apresentação dessa proposta; pela manipulação que com essa proposta alguns (o Bloco de Esquerda e a associação política ATTAC) quiseram obter de uma Assembleia que sabiam não ser parte integrante do FSP e não terem presente um largo conjunto de organizações que o haviam preparado e nele participado; pela concepção antidemocrática que está subjacente aos que, não apenas sabendo que aquele espaço não tinha legitimidade para assumir a decisão que à força queriam impor, consideravam ser possível a um conjunto diversificado de representantes de organizações que têm um funcionamento democrático assumirem uma decisão que as comprometia sem uma avaliação prévia nas respectivas direcções quanto aos resultados da iniciativa em que haviam acabado de participar.

4.
O PCP esteve com empenho e de direito próprio na preparação e realização do FSP. Num quadro muito diversificado de organizações, de correntes de opinião, de visões do mundo e da sociedade a presença do PCP é uma contribuição indispensável para que num movimento maioritariamente com uma dinâmica anti-imperialista e anti-capitalista, ainda que contraditória, se afirmem com nitidez e conteúdo de classe as razões que se encontram no agravamento dos problemas e da injustiça, a natureza das políticas capitalistas e neoliberais que lhe estão na origem, os caminhos de luta e de organização para a sua supressão e para a construção de uma nova sociedade. Os que insistentemente procuram marginalizar o PCP, desvalorizar a luta de massas e subestimar o papel das organizações de trabalhadores e de classe em nome de um «novo movimento», que em si e nesse movimento se esgota, estarão a contribuir, ainda que involuntariamente alguns, para o desarmar ideologicamente, para o tornar inofensivo para os interesses do grande capital e assim contribuir para a sobrevivência das políticas neoliberais.

5.
Contrastando com o sectarismo de alguns, desde o início mais preocupados em buscar protagonismo mediático e em imporem-se como líderes do movimento social, o PCP pautou a sua actividade por um espírito unitário e por um esforço permanente orientado para aproximar e viabilizar decisões comuns.
Apesar das objecções expressas perante os que, copiando mecanicamente experiências, insistiram num modelo, local datas e duração para o FSP que não correspondiam à realidade e dinâmica do movimento social em Portugal, o PCP respeitou integralmente as decisões consensualizadas, empenhou-se em dar conteúdo, assegurar uma presença digna e mobilizar os seus militantes.
Sem precipitar conclusões sobre as razões que terão deixado o FSP aquém das expectativas que o esforço desenvolvido e os meios disponibilizados para a realização deixavam antever, não será ao PCP e ao seu esforço de mobilização para os principais momentos e iniciativas do Fórum, ou a ele associadas, que se poderão imputar culpas ou responsabilidades.


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