O ataque à Carris pública ameaça o direito à mobilidade em Lisboa
CT alerta população e utentes
Mais cortes na Carris
Para denunciar as graves consequências da «reestruturação» em curso na Carris, a Comissão de Trabalhadores reuniu na semana passada com eleitos das freguesias de Lisboa e representantes das comissões de utentes de transportes públicos.
Após anos sucessivos de políticas que provocaram uma redução sistemática da oferta e contribuíram para que milhares de pessoas tivessem que recorrer a outros meios de transporte, está anunciada e a ser posta em prática pela administração da Carris «uma dita reestruturação que, a ser levada a cabo, traduzir-se-á numa redução brutal da oferta», a qual «atingirá níveis nunca imagináveis».
Em nome da Comissão de Trabalhadores da Carris, José Cordeiro disse dia 17, no auditório da Junta de Freguesia de Alcântara, que o plano de reestruturação, elaborado por consultores externos, integra «a maior ofensiva» de sempre contra a empresa pública de transporte. Para quem vive e trabalha em Lisboa, este ataque terá «consequências gravíssimas, se não formos capazes de lhe pôr cobro».

Cabo Ruivo
encerra

Até ao fim do corrente ano, a administração da Carris pretende fechar a estação de Cabo Ruivo. Em Santo Amaro, apenas deverão ficar os serviços dos eléctricos, sendo os restantes transferidos para Miraflores. A manutenção da frota ficará reduzida às chamadas 1.ª e 2.ª linhas.
A CT revelou ainda que foi constituído pela administração um «grupo de trabalho», que tem por tarefa analisar «carreira a carreira, os cortes que considera possíveis». Os representantes dos trabalhadores – que, apesar do estipulado legalmente, ainda não foram oficialmente informados nem ouvidos sobre esta reestruturação – adiantaram já algumas medidas que se enquadram no «objectivo central», que é «cortar serviços em todas as carreiras», nomeadamente:
- eliminar a carreira 78, que liga o Campo Grande a Telheiras; este percurso seria garantido pela carreira 47, que ficava com um trajecto mais longo e maiores intervalos entre autocarros;
- acabar com a «rede da madrugada» e realizar cortes drásticos nos serviços nocturnos;
- limitar a carreira 85 apenas às horas de ponta;
- aumentar os intervalos entre autocarros, de tarde, de 20 minutos para meia hora, na carreira 35, cujo último autocarro sairia às 19.35 (uma hora mais cedo do que actualmente).
Até ao fim deste ano, deverá ser abatida a frota mais antiga. Mas o «plano de aquisição» de novos autocarros não tem data marcada: se houver dinheiro, será aberto concurso... calculando a CT que as primeiras entregas demorem mais 6 ou 7 meses. O plano da administração «visa, de facto, acabar com o serviço, e não tratar da sua renovação», acusou José Cordeiro, notando que, para melhorar o serviço, «primeiro seria encomendado material novo e reforçar-se-ia a manutenção do existente».
Também ao nível do pessoal, continuam as pressões para a rescisão de contratos, que levaram à saída de 300 trabalhadores, entre Janeiro e Maio deste ano. A Carris, de acordo com a CT, tinha 8400 funcionários no ano de 1982; em 1990, o quadro ficava-se pelos 6155; actualmente, tem cerca de 3600, mas as perspectivas apontam para uma redução, a curto prazo, até apenas 3 mil.

PCP questiona Governo

«Verbas disponibilizadas através da contracção de empréstimos à banca, destinadas especificamente à modernização da Carris, estão a ser utilizadas para pagar a rescisão de contratos de trabalhadores», denunciou o deputado comunista Bruno Dias, num requerimento que dirigiu ao Governo a propósito da situação na empresa.
As medidas apontadas pela administração são consideradas «no quadro de uma estratégia de privatização, que seria concretizada por via de interposta municipalização». Expressando preocupação pelo «continuado e gradual processo de desarticulação» da Carris, Bruno Dias perguntou ao ministro dos Transportes se confirma, ou não, as informações sobre o encerramento de estações e serviços e sobre os pagamentos de rescisões. O deputado comunista quer igualmente saber de Carmona Rodrigues qual a posição do Governo perante o «reiterado incumprimento do Estado face aos seus compromissos e obrigações respeitantes às indemnizações compensatórias devidas à Carris (420 milhões de euros na última década).
Para ontem, estava prevista a ida do ministro à comissão parlamentar de Transportes, onde este problema deveria ser abordado.
Também ontem, a situação na Carris seria levantada pelos deputados comunistas na Assembleia Municipal de Lisboa. Trabalhadores da empresa estavam a mobilizar-se para ali distribuírem informação a todos os eleitos.


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