• Jorge Messias

Pedofilias (4)
No escuro labirinto das intrigas do processo da Casa Pia de Lisboa encontramos as pistas de tradicionais conluios entre a Igreja e o Estado. Da monarquia à República, do parlamentarismo ao fascismo ou da libertação anunciada pelo 25 de Abril ao actual estado de coisas, a igreja nunca foi contestada nem jamais abandonou a secreta intenção de se substituir ao Estado. Se os «políticos» usaram o poder para organizarem clientelas, a igreja aperfeiçoou sempre, através do tempo, estruturas paralelas, políticas e confessionais, no interior do poder. Estes núcleos, ocultos e interactivos, revelam-se muito bem em casos como o da Casa Pia. Na década de 80 começou a falar-se nas violações e no tráfico de menores praticados na instituição. Era então presidente da República o general Ramalho Eanes cujas relações com o Opus Dei são notórias. Teresa Costa Macedo tinha sido nomeada secretária de Estado da Família e exercia a tutela das instituições de menores. Activista católica de grande relevo, seria mais tarde nomeada por João Paulo II sua Conselheira Particular para os Assuntos da Família, cargo de dificílimo acesso. Morais Leitão, Silva Peneda e o odioso ministro Bagão Félix
(ex-presidente da Comissão Episcopal «Justiça e Paz») preenchiam os postos governamentais mais intimamente ligados à Casa Pia. Mas não só esses políticos católicos devem ser recordadas: Costa Macedo, Soares Louro e a actual Provedora da Casa Pia, Catalina Pestana, o casal Roberto Carneiro e Maria do Rosário, Simões de Almeida, Rui Cunha, etc., exerciam funções responsáveis no aparelho do Estado em áreas bem integradas na acção social. Acrescente-se a tudo isto que a Conferência Episcopal (possuidora de uma rede de informações tão frequentemente elogiada ) mantinha em permanência sete secretariados ou comissões episcopais especializadas, fortemente ligados às instituições sócio-caritativas do tipo da Casa Pia: o Secretariado Geral da Acção Social e Caritativa, o Secretariado Geral do Apostolado dos Leigos, o Secretariado Geral das Comunicações Sociais, o Secretariado Geral da Doutrina da Fé e as Comissões Episcopais da Educação Cristã, da Família e do Instituto Misto dos Bispos. Havia dezenas ou centenas de pessoas com acesso a estas informações. Quando, porém, perguntados sobre os crimes cometidos, os responsáveis responderam que de nada sabiam ou que tudo tinham rapidamente esquecido.

Maravilhosa utilidade

Trata-se, com toda a evidência, de uma estratégia concertada que faz soar, inevitavelmente, uma campainha de alarme. Se assim é com uma intriga horrível mas limitada, quantas outras redes não existirão no universo institucional português? Até que ponto não serão os nossos destinos nacionais talhados à medida das intrigas dos bispos, dos leigos ou dos generais que comandam um autêntico «exército da sombra»? Voltando agora ao caso das crianças violadas, convém notar que mais de uma centena desses crimes apenas se tornaram possíveis graças à cumplicidade passiva do tal corpo-fantasma de invisíveis opressores. Recordemos de novo Leão XIII. Diz-se na Rerum Novarum (ponto 40): «Uma época cede o lugar a outra. Mas o curso das coisas apresenta maravilhosas semelhanças preparadas pela Providência... Nas primeiras idades da Igreja, imputavam-lhe como crime a indigência dos seus membros, condenados a viver de esmolas ou do trabalho. Mas, despidos como estavam de riquezas e de poder, souberam conquistar o favor dos ricos e a protecção dos poderosos... (Também...) a sorte da classe operária será resolvida pela razão, ou sem ela... Para todos os operários podem as organizações católicas ser de maravilhosa utilidade, se convidarem os hesitantes a vir procurar no seu seio um remédio para todos os seus males e acolherem, pressurosas, os arrependidos, assegurando-lhes defesa e protecção». As crianças abusadas na Casa Pia são «filhas do operariado», mesmo que este seja considerado no sentido paternalista inerente à doutrina social da igreja. São filhas de pobres, crianças indefesas entregues à protecção de uma «associação católica de maravilhosa utilidade», segundo os critérios da RN. E se os bispos se calam, D. José, o Patriarca, recordou: «Só o crescimento na caridade é critério decisivo do nosso viver na Igreja ...».


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