Editorial

«PS e PSD estão ambos cheios de razão quando se acusam um ao outro»

O QUE OS FAZ CORRER

Talvez não valesse a pena voltar à questão: o tema foi abordado em toda a comunicação social e, aqui mesmo, no Avante!, lhe demos o destaque que se entendeu adequado. A verdade, no entanto, é que cada órgão de informação tratou-o à sua maneira, isto é, à maneira que melhor serve os interesses dos seus proprietários. Acresce, ainda, que o debate de há uma semana confirmou o que toda a gente sabia: que o estado da Nação é mau ou, dizendo com mais rigor: é mau para a imensa maioria dos portugueses e é bom, muito bom e óptimo para uma pequeníssima minoria. Com a agravante de a maioria desfavorecida ser cada vez mais maioria, enquanto que a favorecida minoria é cada vez mais minoria. O que significa que aumentam, acentuam-se e aprofundam-se as desigualdades.
E é por isso – porque estamos a falar das injustiças de que é vítima a imensa maioria dos portugueses e portuguesas - que vale a pena voltar à questão, relembrar as causas dessa situação, continuar a procurar as respostas que conduzam a uma intensificação da luta contra a política que serve a minoria e por uma política que sirva a maioria, ou seja, por uma política de esquerda.
Temos sublinhado insistentemente a importância e as consequências do conteúdo de classe da política de direita levada a cabo pelos sucessivos governos. Nunca é demais repetir e relembrar que é essa marca de classe que lhe define os alvos e lhe aponta, como beneficiários privilegiados, os grandes grupos económicos e financeiros e, como vítimas, em primeiro lugar e preferencialmente, a classe operária e todos os trabalhadores; depois, todas as camadas e sectores cuja submissão consolida o domínio absoluto do grande capital: reformados e pensionistas, jovens, mulheres, deficientes, micro, pequenos e médios empresários.
A luta contra essa política de direita – que constitui uma direcção de trabalho imperiosa – será tanto mais forte e tanto mais eficaz quanto maior e mais ampla e mais determinada for a adesão e a participação das classes, camadas e sectores vítimas dessa política.


Vale a pena, igualmente, voltar ao estado da Nação para sublinhar um outro aspecto que escapou à observação da generalidade dos media. Tem a ver com a habitual troca de acusações mútuas, entre o PSD e o PS, em matéria de responsabilidades quanto aos inúmeros e graves problemas que assolam o País. Essas trocas de acusações, regra geral no meio de acesa discussão e exuberante gritaria, são uma constante entre aqueles dois partidos. No decorrer do recente debate sobre o estado da Nação, mais uma vez, como não poderia deixar de ser, os dois partidos se acusaram acaloradamente um ao outro e, mais uma vez, como era inevitável, se atribuíram um ao outro todas as responsabilidades pelas consequências da política que cada um tem levado à prática.
Cumpre reconhecer que PS e PSD estão ambos cheios de razão quando, com a energia e a fogosidade que lhes são características - mas sempre, sempre, dentro das regras de cavalheirismo próprias da classe que representam - se acusam um ao outro do que foi mal feito e puxam, cada um para si, os louros do que não foi tão mau como eles próprios esperavam. De facto, tanta razão tem o PS quando acusa do que acusa o PSD, como este quando atira ao PS exactamente as mesmas acusações. É que, vendo bem as coisas, PS e PSD - sozinhos, ou de mãos dadas e (ou) com o CDS-PP atrelado – estão no Poder há quase três décadas, são governo há quase três décadas e são, por isso, os verdadeiros, os únicos responsáveis pelo estado a que a Nação chegou. É claro que ambos sabem isso. Mas é claro também que ambos sabem que, se assobiarem para o ar em relação a essa matéria, a generalidade dos media lhes acompanha o assobio e finge não ver. Assim, a opinião pública também não verá. E continuarão todos satisfeitos.

Por tudo o que acima se escreveu, as discussões e debates travados entre os partidos da política de direita são sempre, essencialmente, discussões de forma, de estilo, de maneira de fazer, de maneira de dizer. Sobre o conteúdo dessa política o debate é de faz-de-conta, na medida em que ambos estão de acordo naquilo que é essencial, a saber: que a política que é necessário fazer, tem que ter como prioridade das prioridades a defesa dos interesses do grande capital. E a comunhão política em torno desse conteúdo, gera entre eles um quase total acordo – que só não é mesmo total porque os grandes grupos económicos nem sempre estão todos de acordo em relação aos timings de execução das diversas linhas da política de direita.
Tudo isto emerge com luminosa nitidez dos debates e discussões travados entre os responsáveis desses partidos: seja na Assembleia da República, seja num dos vários canais de televisão, seja numa qualquer estação de rádio, seja num qualquer jornal, seja, enfim, em qualquer dos órgãos de comunicação social a que todos têm abundante acesso.
Quer isto dizer que a oposição que cada um destes partidos faz ao outro – ou seja, a oposição desenvolvida pelo que não está no governo – é uma oposição muito peculiar. De facto, se atentarmos na actual prática oposicionista do PS, constataremos que se trata de uma oposição não (essencialmente) à política mas (essencialmente) ao Governo. E que o que hoje faz correr o PS é o que antes fez correr o PSD: substituir quem está no governo e ir para lá fazer a mesma política.
Acabar com este círculo alternante e impor uma alternativa política de esquerda é, assim, o único caminho que salvaguarda o futuro do País.


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