• Manoel de Lencastre

O império Blair a caminho da derrocada
O primeiro-ministro britânico perdeu a integridade
O Partido Trabalhista britânico e os seus «leaders» têm tido oportunidades soberanas para libertar os destinos do seu país das correntes que o imperialismo utiliza para atormentá-lo. Em 1945, Clement Attlee recebeu um inequívoco mandato para guiar o Reino Unido ao socialismo. Em 1964, Harold Wilson, eleito para avançar no sentido da destruição do sistema dos «tories» que uma série de escândalos ridicularizava, vacilou e perdeu-se. Em 1997, Tony Blair recebeu do eleitorado as chaves de oiro que apontavam a um futuro excitante. Mas, também ele, traiu as perspectivas do povo. Os conservadores, assim, têm conseguido sobreviver quando o seu desaparecimento parecia possível e lógico.
Já em fins do passado mês de Junho as sondagens indicavam que os «tories» tinham ultrapassado o «New Labour» nas preferências dos eleitores, pela primeira vez nos últimos onze anos. Mas a votação na Câmara dos Comuns originada por uma proposta do primeiro-ministro para a criação de «Hospitais Fundação», a 8 de Julho, indicou, claramente, quão profunda é a crise que Tony Blair enfrenta no interior do seu próprio partido. Com efeito, a maioria absoluta dos trabalhistas, que é de 164 lugares, foi pulverizada pela rebelião de quase toda a bancada. No fim do debate o governo salvou-se por 35 votos, apenas. Esses votos, porém, vinham de deputados que nada tinham a ver com a questão dos «Hospitais Fundação». Eram os votos da Escócia trabalhista e do País de Gales trabalhista. O projecto-lei de Blair apenas se aplica às regiões inglesas (shires). A contradição entre as nações britânicas salvou Blair, efectivamente.
Já em duas votações anteriores, ambas relacionadas com a intervenção britânica, ao lado de George W. Bush, no Iraque, o país se tinha apercebido da catastrófica erosão do apoio parlamentar, partidário e nacional de que o primeiro-ministro goza. Inexplicavelmente, para um homem com a formação profissional do primeiro-ministro, declarava a ambição de conquistar um lugar na História ao lado de Sir Winston Churchill e de outras emblemáticas figuras que fizeram a grandeza do povo destas Ilhas. Por isso, Blair avançava contra o Iraque, país que, segundo as suas próprias palavras, poderia utilizar armas de destruição maciça contra o Ocidente em, apenas, 45 minutos. Já se provou não serem verdadeiras estas alegações. Blair, segundo membros do seu partido, mentiu ao Parlamento e ao povo. Ficou numa posição vergonhosa. A sua credibilidade, a sua integridade, já não existem.

O MI 6 devia saber o que dizia

Foi a antiga ministra, Clare Short, quem declarou que Mr. Blair governa em forma de «diktat». Isto é, pretende fazer, simplesmente, aquilo que parece positivo para a sua imagem publicitária. Mas Clare Short e Robin Cook (também este se demitiu do governo em protesto contra a guerra do Iraque) disseram ter sido informados pelo MI6 (serviços de espionagem), directamente, que Saddam Hussein não possuía quaisquer armas de destruição maciça ou outras capazes de constituir uma ameaça para a segurança da Grã-Bretanha. Segundo Mr. Cook, «as provas avançadas pelo primeiro-ministro para entrar em guerra eram derivativas ou erróneas; não eram suficientes para abrir o terrível conflito a que se assistiu». Quanto a Miss Short, afirmou com toda a elevação: «O primeiro-ministro enganou-me. Eu sabia, através do próprio MI6, que Saddam Hussein podia ser uma ameaça, mas não possuía capacidade para levar à prática essa mesma ameaça».
Nos últimos dias, Tony Blair tem-se multiplicado em iniciativas que lhe restituam a dignidade de primeiro-ministro credível. Mas já teve de admitir não ser de esperar que se encontrem as «célebres» armas de destruição maciça no Iraque.
O governo britânico vive numa situação de alarme constante. O «Labour Party» virou-lhe as costas. Na Câmara dos Comuns, alguns observadores informados indicam-nos que Blair será derrotado na próxima votação do sistema de propinas para o ensino universitário. Entretanto, a suprema intriga, a batalha do futuro, poderá jogar-se durante a Conferência do «Labour Party», em Agosto. Há quem diga que, para ver os punhais em plena acção, William Shakespeare, estará presente...

No labirinto europeu
A Grã-Bretanha não quer o Euro

A questão central que decidirá a substituição do primeiro-ministro, Tony Blair, pelo actual chanceler do Tesouro, Gordon Brown, é, evidentemente, a da Europa e, mais ainda, a da eventual entrada do Reino Unido na zona monetária do Euro. Entretanto, toda a Grã-Bretanha sabe que se Blair não for demitido ou obrigado a abandonar o seu lugar, os trabalhistas perderão as próximas eleições, o que constituiria um cataclismo político. Para que isso não se verifique, será necessário entregar a chefia do partido e, consequentemente, do governo, a uma personalidade mais fresca e não desacreditada, como é o caso de Gordon Brown.
Este, em recente comunicação aos Comuns e ao país (9 de Junho), debruçou-se sobre a candente questão da economia do Reino Unido face à proposta de adesão ao Euro. É uma proposta que suscita largas reservas neste país, que não parece preparado para abandonar a sua própria moeda (a libra esterlina) mas que os «europeistas» subscrevem com entusiasmo. Blair, como se sabe, é desses pró-europeus, embora pretenda o contrário. Brown, muito mais prudente, afirma que só o povo britânico decidirá o caminho a seguir, pronunciando-se, eventualmente, através de um referendo a realizar durante o Outono de 2004. Mas, disse: «A realidade, neste momento, está em que a perspectiva de obtermos um voto positivo no referendo sobre o Euro, nunca, provavelmente, pareceu mais remota».
Gordon Brown, jamais deixou as mãos livres a Tony Blair. Logo nos primeiros tempos em que a questão do Euro começou a intrigar a opinião pública, conseguiu convencer o Gabinete e a Câmara dos Comuns de que a adesão britânica à moeda europeia teria de depender de cinco factores fundamentais. Esses factores são os seguintes: 1) se existe sustentável convergência entre as economias do Reino Unido e da zona Euro; 2) se existe suficiente flexibilidade na economia britânica para responder às turbulências que a entrada no Euro provocaria; 3) quais seriam os efeitos da adesão ao Euro na aplicação de investimentos internacionais no mercado britânico? 4) qual seria o efeito da entrada na zona Euro para a indústria de serviços financeiros (City of London); 5) quais seriam os efeitos do Euro em graves questões económicas nacionais como as do desemprego e da prosperidade?
Perante toda uma Grã-Bretanha atenta e extremamente grave, Gordon Brown, consultando um documento de 2000 páginas, afirmou que, de momento, apenas a questão número quatro parece resolvida. Todas as outras estão longe de justificar a adesão britânica à moeda europeia. Blair, não conseguiu esconder o seu desapontamento. Passou a noite a explicar aos colegas da União Europeia que as coisas, no fim de contas, não seriam bem assim e que poderá, de repente, convocar eleições gerais para sobreviver a Brown e substituir o referendo. O que, nas condições descritas, parece uma impossibilidade visto que Blair não teria o Partido trabalhista consigo se pretendesse dissolver o Parlamento para que se realizassem essas aventurosas eleições gerais. A sua substituição, portanto, é a saída em que os trabalhistas apostarão se quiserem manter o castelo intacto. E o esquema do «New Labour» (Novo trabalhismo), morrerá com Blair enquanto o partido marchará em frente recuperando os valores das suas origens.


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