Editorial

«É natural que a luta de classes incomode o Primeiro Ministro»

ISTO ANDA TUDO LIGADO

Apupado, na Covilhã, por trabalhadores têxteis ameaçados com o desemprego, o Primeiro Ministro, reagiu, no essencial, como qualquer homólogo seu o teria feito há várias décadas atrás – a confirmar quão pouco inovadores são, de facto, estes representantes do grande capital de todas as épocas. Neste caso, Durão Barroso fugiu aos protestos, escapuliu-se para o interior dos Paços do Concelho e, lá dentro, falou para quem lá o esperava com a tarefa de o ouvir em silêncio e com acenos de cabeça. Disse o Primeiro Ministro que acredita «no futuro da indústria têxtil da região» - e dizendo tal, há-de ter considerado ser isso suficiente para que toda a gente acredite «no futuro da indústria têxtil da região», ou seja, naquilo em que nem ele próprio acredita... Disse, ainda, Durão Barroso, lá dentro, que «não é tempo para a luta de classes dentro das empresas» e ameaçou com o desemprego inevitável, na medida em que, diz ele, não é possível «manter artificialmente as empresas que não são produtivas». Isto porque, como ensinou Barroso, se a empresa for à falência... vai à falência... e «subsidiar o sector têxtil seria a pior notícia a trazer-vos aqui». A boa, a grande, a magnífica notícia que o Primeiro Ministro deixou aos trabalhadores têxteis foi fornecer-lhes a sua receita milagrosa que ele sintetiza deste jeito: «inovação e paz social».

É natural que a luta de classes incomode o Primeiro Ministro: ele chefia um governo ao serviço dos interesses do grande capital, para o qual a «paz social» é o melhor caminho para o aumento dos lucros. É claro que os donos do País sabem que a «paz social» - aquela que lhes interessa, ou seja, aquela que permite a exploração desenfreada dos trabalhadores – só é possível através da via repressiva. Daí, por exemplo, o «Código do Trabalho» que mandaram fazer aos seus homens de mão no Governo – essa lei antidemocrática, esse autêntico acto de terrorismo social cujo objectivo maior é precisamente instaurar, pela força, a «paz social» que quer pôr fim á «luta de classes». O Governo – neste caso o do PSD/CDS-PP ou, se se preferir, o de Barroso/Portas – coloca à disposição e ao serviço do grande capital todos os meios de que dispõe, todo o aparelho de Estado. Para ajudar à concretização do seu objectivo, os donos do País contam, ainda, com o imenso bando de comentadores e analistas que todos os dias demonstram - nos órgãos de comunicação social que são propriedade da classe dominante... - que a «luta de classes acabou»; que a «inovação e a paz social» são o caminho que conduz ao Paraíso; que o direito ao trabalho não é assim tão direito como faria pensar o facto de ele estar consagrado na Constituição da República Portuguesa...

Enquanto o Primeiro Ministro e Chefe do PSD fazia propaganda na Beira Interior e o Ministro Portas, Chefe do CDS/PP, prosseguia os desatinos na área da Defesa - desta vez levando à demissão do Chefe do Estado Maior do Exército - na região Autónoma da Madeira, Alberto João Jardim, acolitado pelo inevitável Ramos, concretizava mais uma iniciativa com a habitual e ostensiva marca separatista.
A tradicional festança de Chão da Lagoa é-nos normalmente apresentada como uma exibição das capacidades de beberronia de Jardim: vemo-lo agir como age, em qualquer parte do Planeta, a generalidade dos beberrazes (talvez, neste caso, com uma maior carga de boçalidade) e tudo isto configura um espectáculo deprimente, degradado, degradante. Mas há quem goste. Para além de Jardim, ele próprio, há entre os tais comentadores e analistas, quem aprecie, quem ache bem, quem elogie, até, as espectaculares bebedeiras do Presidente do Governo Regional. Quem tenha visto o afamado constitucionalista Marcelo Rebelo de Sousa, no passado Domingo, há-de tê-lo ouvido contar, embevecido, a história de uma monumental bebedeira de Jardim – dessa «força da natureza» como fez questão de sublinhar, sorrindo.

Ora, como acima se disse, a festança de Chão da Lagoa é mais do que as bebedeiras de Jardim: é, de facto, todos os anos, uma condenável provocação separatista, um insulto abjecto à democracia, uma exibição afrontosa de desrespeito pela Constituição. E é estranho que esse facto não mereça qualquer reparo. Que os media do costume foquem ao de leve a provocação, percebe-se: cumprem o papel que lhes está destinado. Mas é grave – e, por isso, digno de registo – que quem deveria zelar pelo cumprimento da Constituição se remeta a tão profundo silêncio face a tão óbvio atentado à Lei Fundamental do País.
Para além dos disparates insultuosos e provocatórios vertidos por Jardim contra o PCP (e vale a pena registar que, nessa matéria, o Diário de Notícias, jornal que se auto-intitula «de referência», fez questão de dedicar a sua manchete a uma dessas baixas provocações pidescas do Jardim), ele e o seu comparsa Ramos encenaram a habitual representação separatista: o hino separatista «Madeira és livre» - a que Jardim chama o hino da Madeira – foi cantado no meio de profissões de fé, género: «Vamos continuar a lutar para a Madeira ser livre e independente» e «para deixar de ser colónia», «A Madeira é a nossa pátria», «exigimos a libertação da Madeira», «a autonomia total».
Que o Primeiro Ministro não faça nada em relação a tais desmandos anticonstitucionais, não admira: ele próprio, há dois ou três anos, participou activamente naquela manifestação separatista e, como é óbvio, isto anda tudo ligado. Mas não há mais ninguém com a tarefa de «fazer cumprir a Constituição»?


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