• Gustavo Carneiro

O desemprego em Setúbal é estrutural e o dobro da média nacional.
Desempregados de Setúbal são qualificados
Tanto saber desperdiçado
Em Setúbal, apenas 16 por cento dos mais de 40 mil desempregados não tem qualificação profissional. Desperdiça-se assim a maior riqueza da região: uma mão-de-obra qualificada, experiente e com tradição.
Em pouco mais de um ano, os desempregados inscritos nos centros de emprego da região de Setúbal passaram de 32 500, em Março de 2002, para 41 800, em Abril deste ano. Fazendo as contas, chega-se a uma assustadora conclusão: cerca de 715 pessoas ficam, por mês, sem emprego. Por dia, esse número é de 23,8.
Rui Paixão, coordenador da União dos Sindicatos de Setúbal, da CGTP, lembra que se está em presença dos números oficiais e não do desemprego real, que é superior mas bastante difícil de quantificar: um trabalhador que esteja a frequentar cursos de formação, por exemplo, deixa de ser considerado desempregado. Mas a gravidade da situação fica patente «apenas» com os números oficiais. O dirigente sindical propõe um exercício: partindo do princípio de que cada desempregado tem 3 ou 3,5 pessoas à sua volta, pode dizer-se, afirma, que o desemprego no distrito afecta directamente perto de 150 mil pessoas, ou seja, o semelhante a toda a população do concelho do Seixal, o segundo mais populoso da região.
Segundo Rui Paixão, e os dados oficiais confirmam-no, o distrito tem, estruturalmente, um desemprego muito superior ao verificado no País, normalmente o dobro. Se em 2001 a taxa nacional se situava na casa dos quatro por cento, no distrito rondava os 10 pontos percentuais. Actualmente, o desemprego no distrito ultrapassa os 11 por cento, enquanto que o total nacional atinge mais de 6 desempregados por cada cem trabalhadores.
Para além do elevado número de desempregados e do acelerado ritmo do seu crescimento, o que choca na situação do distrito, avança Rui Paixão, é a elevada qualificação destes trabalhadores desocupados: 68,4 por cento são trabalhadores qualificados e 15 por cento são quadros médios e superiores. Os trabalhadores não qualificados acabam por ser uma pequena percentagem do total, apenas 16,7 por cento.
O dirigente sindical alerta para o facto de, num momento em tanto que se fala do atraso do País e da necessidade do crescimento económico, se estar efectivamente a «desperdiçar conhecimentos e saberes que poderiam e deveriam ser aproveitados para o desenvolvimento da região e do próprio País». Se falar em desenvolvimento é falar de produção de riqueza, Rui Paixão lembra que só com a destruição (praticamente total) do sector do vestuário no distrito se perderam 80 milhões de euros de produto.

Indústria é alvo principal

Para o coordenador da USS, a situação explica-se pela elevada concentração de indústria na região. «Cada vez que se produz um ataque ao aparelho produtivo, este distrito é especialmente afectado», garante Rui Paixão. «Não é de agora, é constante», recorda. De facto, o violento ataque ao aparelho produtivo, nomeadamente das grandes indústrias nacionais, começou a esboçar-se com os governos do PSD dirigidos por Cavaco Silva, mas foi prosseguido pelos mandatos PS e pela actual maioria. As grandes empresas nacionais dos sectores da metalurgia e da química pesadas, bem como da construção naval e siderurgia foram privatizadas. A sua destruição, total ou parcial, foi o passo seguinte.
Ao contrário do que pode parecer – vendo, ouvindo ou lendo a generalidade da imprensa portuguesa –, o desemprego em Setúbal, tal como noutras regiões do País, não se deve fundamentalmente aos encerramentos e deslocalizações de empresas. Descontando um conjunto de encerramentos de empresas, sobretudo no sector das confecções em finais do ano passado, não tem havido despedimentos colectivos. As reais razões, bem menos mediáticas, são outras, bem diferentes: «o aumento do desemprego deve-se às chamadas “rescisões por mútuo acordo”», declara Rui Paixão. Para o dirigente sindical, o patronato «tem vindo a cavalgar por cima das posições do Governo e a criar nas empresas climas de medo e repressão, que levam os trabalhadores a aceitar as rescisões».


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