Avanteatro
Sala cheia pela noite dentro
Enquanto lá dentro se faziam os últimos acertos na montagem, cá fora, apesar do adiantado da hora, centenas de pessoas, de várias idades, aguardavam calma e ordeiramente em fila a abertura das portas. No Avanteatro, foi assim todas as noites.
E todos os anos o êxito repete-se. Durante três dias, milhares de espectadores passam por este espaço de cultura. Uns fazem questão de aproveitar ao máximo um programa que sabem ser de qualidade, outros, movidos pela simples curiosidade de quem passa, rendem-se à magia do palco, ao cromatismo e dinâmica dos cenários e da iluminação, à proximidade física dos actores que o povoam, ao seu poder de comunicação, ao ambiente íntimo em que se trocam sentimentos e emoções.
Várias foram as propostas que este ano despertaram especial interesse. A sexta-feira começou, calma e suave, com um recital de canto e piano, com belas árias de compositores portugueses como Fernando Lopes Graça e Luís Freitas Branco, ou dos espanhóis, Gironimo Gimenez ou Xavier Montsalvatge, não esquecendo as interpretações líricas dos temas populares «Menina Estás à Janela» e «Senhora do Almortão». Visivelmente agradado, talvez mesmo surpreendido com a acessibilidade do espectáculo, normalmente reservado a salas mais elitistas, o público foi aplaudindo o virtuosismo do pianista e a expressividade da cantora que, sem amplificação sonora, durante quase uma hora, souberam impor-se ao normal ruído de fundo da festa.
Depois da leitura encenada de «O Rei Lear», a obra de Shakespeare na tradução de Álvaro Cunhal (espectáculo que foi acompanhado por várias centenas de pessoas e que terminou para lá da meia-noite), o multidão que se mantinha nas redondezas do Avanteatro era sinal de que a noite estava longe do fim. E valeu a pena esperar, madrugada dentro, para assistir ao monólogo da actriz brasileira, Gina Tocchetto, que deu corpo às tragédias e peripécias amorosas de diferentes personagens femininas saídas do livro de Dorothy Parker «Big Loira e Outras Histórias de Nova Iorque». No final desta intensa representação, no foyer, a música dos «Oquestrada» convidava a um momento de descontracção antes do merecido repouso.


Divertimento para todos

O encontro com os palhaços deu-se no sábado e voltou a repetir-se no domingo. Os mais pequenos divertiram-se e os adultos não disfarçaram o seu agrado com as fantasias circenses
da Associação Cultural Criadores de Imagens que circularam pelas ruas da festa. Também no exterior, junto ao Avanteatro, recriando um ambiente de espectáculo de feira, o grupo Teatro ao Largo montou um pequeno palco, onde por duas vezes representou a «Fortuna» de Aristófanes. Trata-se de uma comédia divertida, em que não faltaram momentos de contacto com o público, música e movimento, tendo por base um texto que, como explica a companhia, «foi transportado da Grécia antiga para o Cercal do Alentejo nos anos 60», tratando temas com a corrupção, a desigualdade na distribuição da riqueza e a pobreza.
No sábado, pelo palco passou ainda a peça «Netzarim, Palestina» (ver caixa) e a dança contemporânea de Peter Michael Dietz. À saída, no bar, os ritmos do mundo inspiraram o espectáculo musical «Da cor da Madeira», do percursionista Kiné.
A programação deste ano fechou no domingo com mais uma grande enchente de público. Esgotadas as bancadas, as pessoas sentaram-se no chão, defronte ao palco, muitas outras ficaram de pé junto à entrada de onde seguiram o espectáculo de música e poesia de Maria do Céu Guerra e Amélia Muge, duas figuras de topo do meio artístico nacional, que apresentaram um projecto simples e consistente, trabalhando a poesia de Grabato Dias, que denominaram «António, o dos Quadros».

Netzarim -
Uma crónica do horror

«A todos os habitantes da cidade velha de Nablus – vocês estão cercados por terra e ar. Rendam-se imediatamente ou dinamitamos as vossas casas. Os homens devem sair com os braços no ar e com o tronco nu para mostrar que não carregam qualquer arma. Último aviso a todos os habitantes da cidade velha de Nablus – vocês estão cercados por terra e por ar. Rendam-se imediatamente ou dinamitamos as vossas casas. As mulheres e as crianças devem sair juntas antes dos homens. Todos de mãos no ar».
Com estas palavras, ditas através de um megafone, fomos transportados para a realidade de uma das mais prolongadas e injustas guerras de ocupação dos nossos tempos. Na sala, todos sabiam que o que a crueza do cenário, a violência das cenas não eram ficção mas um relato, sempre incompleto, do sofrimento do povo palestiniano.
Ainda recentemente, os jornais davam a notícia de um prédio de apartamentos na faixa de Gaza que tinha sido demolido pelas tropas israelitas. Razão: um alegado terrorista que se encontrava no interior recusava-se a sair. Aquela foi a forma de o eliminar. Muitas famílias ficaram sem tecto.
Foi com base em muitas crónicas, reportagens e notícias deste quotidiano de horror, que os grupos Teatro Art’Imagem e Teatro do Morcego, construíram e levaram à cena a peça «Netzarim, Palestina» - um grito contra uma guerra de genocídio que prossegue sob o olhar complacente e hipócrita das democracias ocidentais. Um apelo à solidariedade para com a justa luta de um povo que apenas sonha com um futuro de liberdade e de paz.


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