• Gustavo Carneiro

Organizações regionais
A miniatura sonhada do País que queremos
Reunido na Atalaia esteve todo um país. Partindo da realidade do Portugal real – que se estende para lá das redes que delimita o terreno onde se realiza a Festa do Avante! –, na Atalaia ergue-se um outro, com uma geografia muito própria. Aqui não há centros nem periferias, litorais e interiores: com dimensões diferentes, todas as regiões são iguais.
Neste miniatura de Portugal – o nome verdadeiro é Festa do Avante! – misturam-se tradições e cores, paladares e odores. Talvez por isso sejam as «regiões» da Atalaia os locais de pouso preferidos pelos visitantes da Festa. Pelo menos, a julgar pela elevada afluência, a todas as horas e por motivos diversos. Se uns optam preferencialmente por ficar «em casa», na sua região, outros procuram noutras «regiões» amigos e camaradas que normalmente estão longe e com os quais marcam encontro em todos os primeiros fins de semana de Setembro. Ainda há os que, movidos pela curiosidade ou pela saudade de tempos idos, frequentam os espaços de certas organizações regionais para aí encontrarem o tal prato, acompanhado daquele outro vinho e do som característico da zona. E do tão agradável convívio, que a Festa garante como nenhum outro evento.
Para além de permitir conhecer, ou reconhecer, as tradições das várias regiões portuguesas – ou prová-las e saboreá-las, pois a gastronomia é parte integrantes delas – percorrer o país da Atalaia garante uma maior apreensão da dimensão dos obstáculos que se colocam ao desenvolvimento do outro País, o Portugal que começa fora do limite do terreno que alberga anualmente a Festa do Avante!. Foi sobretudo esse Portugal, o que diariamente se debate com as terríveis consequências da política de direita e contra ela luta, propondo novos caminhos e soluções, que esteve representado na Quinta da Atalaia no passado fim-de-semana.

O coração do País

No país da Atalaia, as maiores regiões são Lisboa, Setúbal, Alentejo e Porto, verdadeiro coração do Portugal comunista. Em Lisboa, à entrada, várias imagens representavam a multiplicidade de lutas que ocorreram na capital – agora já não deste país, mas do real. Lutas de trabalhadores despedidos, de outros que resistem às injustiças e arbitrariedades patronais e governamentais, de todos contra a guerra e pela Paz. Lá dentro, é a variedade quem mais ordena. Na marisqueira reafirma-se que os proletários de todos os países se devem unir, ao lado dos perfis de Marx, Engels e Lenine. Na Amadora, os heróis eram outros: Obélix, Lucky Luke e Corto Maltese que, ironizando com o encerramento, por parte da Câmara Municipal, do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora iam deixando críticas à situação nacional. Obélix acha mesmo que os 110 milhões que o Governo ofereceu ao grupo Mello é «muito javali para tão pouco porco». O restaurante da Lezíria recordava as greves ocorridas em Maio de 1943 na região. Os protagonistas aqui foram outros, anónimos, essa massa de gente trabalhadora que ousou desafiar a ditadura, representada pelos «desenhos da prisão» e por artigos do Avante! da época. Ao lado, a Feira da Ladra esteve repleta durante todas as horas que durou a Festa.
No espaço de Setúbal, valorizou-se as potencialidades – desperdiçadas, na sua maioria – da região. Para os comunistas de Setúbal, a localização, as acessibilidades e a mão-de-obra qualificada são as maiores riquezas regionais que, se bem aproveitadas, poderiam tirar a Península da situação em que se encontra: com uma taxa de desemprego que é o dobro da média nacional, apesar da sua elevada produtividade. Enquadrados por uma «avenida» central, em que a exposição política dominava, os restaurantes e bares do espaço de Setúbal facultavam um grande – e apetitoso! – conjunto de pratos típicos. As enguias e o choco frito eram reis das preferências, mas o moscatel teve também grande saída. Com estes e outros pratos e aperitivos, e entre boas conversas, foram muitos os que por lá ficaram e puderam gozar da excelente programação do palco de Setúbal, para onde as esplanadas convergiam. Poesia, saxofones e gaitas de foles, música tradicional portuguesa, rock e DJ’s preencheram o programa do espaço, para além dos debates sobre questões como o desenvolvimento da região, emprego e pacote laboral e luta dos trabalhadores e das populações.
Em frente a Setúbal, tal como no País, surgia o espaço do Alentejo. Sempre muito concorrido e animado, dividia-se pelas quatro organizações que o compõem: Évora, Beja, Litoral e Portalegre. Em todos eles, um verdadeiro festival de sabores. Ensopado de borrego, cozido de grão, carne de porco à alentejana ou caldeirada à moda de Sines eram as preferências. Tudo isto ao som das canções de trabalho dos diversos coros alentejanos que ali actuavam. Com a decoração a representar a casa típica alentejana, com uma faixa amarela torrada junto ao solo e em torno de portas e janelas, o espaço do Alentejo dava especial destaque às propostas dos comunistas para a região, com uma convicção: com estas propostas, o Alentejo tem futuro.
Já o Porto, situado junto ao Palco 25 de Abril, destacava a importância do Partido na sociedade portuguesa. Lembrando que o PCP está «sempre presente!», seja junto dos trabalhadores e das populações quer na Assembleia da República e no Parlamento Europeu, os comunistas do Porto utilizaram como base de decoração a reprodução de um painel alusivo à luta do Partido, criado na década de 80. Enquanto que as célebres francesinhas faziam as delícias de quem por lá parava, a organização do Vale do Sousa e Baixo Tâmega apelava à contribuição dos visitantes. A aquisição de um Centro de Trabalho é o objectivo.


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