“Estou orgulhoso do que fizemos”, disse Blair à BBC
Em defesa da paz
Manifestações contra ocupação do Iraque
Manifestações em todo o mundo contra a ocupação do Iraque e contestação interna às políticas de Bush e Blair preparam jornada pela paz a 25 de Outubro.
Milhares de pessoas manifestaram-se no fim-de-semana nas principais cidades europeias, norte-americanas e asiáticas, contra a ocupação do Iraque.
«George Bush, Tio Sam, o Iraque vai ser um Vietname», foi uma das muitas palavras de ordem gritadas em Hollywood, no domingo, pelas cerca de 10 000 pessoas que saíram à rua a exigir a retirada imediata das forças a anglo-americanas do Iraque. Protestos idênticos ocorreram no mesmo dia em Boston e São Francisco, tal como sucedeu no sábado em diversas cidades europeias e asiáticas.
Gritando «soldados fora do Iraque, e Blair fora do número 10» (referência ao número 10 da Downing Street, residência oficial do primeiro-ministro britânico), mais de 100 000 manifestantes tomaram as ruas de Londres, no sábado, para protestar contra o envolvimento militar da Grã-Bretanha no Iraque. A iniciativa coincidiu com o início da conferência anual do Partido Trabalhista, marcada por forte contestação a Blair.
Cada vez mais isolado, o primeiro-ministro britânico defende-se das críticas afirmando não ter dúvidas de que o ex-presidente iraquiano, Saddam Hussein, era «uma séria ameaça à sua região e ao mundo».
«Não peço desculpas pelo Iraque. Estou orgulhoso do que fizemos», disse Blair em entrevista à BBC, no domingo. «Acho que fizemos a coisa certa ao afastar Saddam Hussein. Acho que o mundo é um lugar mais seguro», repetiu, insistindo na argumentação dos EUA para tentar justificar a criminosa invasão do Iraque.
O primeiro-ministro britânico pediu ainda à população para esperar pela divulgação de um relatório interino, esta semana, sobre a investigação dos EUA sobre as armas iraquianas, aparentemente convencido de que as conclusões poderão fundamentar as suas teses. O que já se conhece do documento (ver peça em separado) está longe, no entanto, de poder vir a apaziguar os ânimos tanto em Washington como em Londres.
Também Paris se mobilizou no sábado em protesto contra a ocupação do Iraque e pela paz no Médio Oriente. Houve ainda manifestações em Atenas, Madrid, Barcelona, Sevilha, Málaga, Ilhas Canárias, Seul, Cairo, Beirute, Ancara, Istambul, Varsóvia, Bruxelas, Detroit, Calcutá, Padova (Itália), Montevideo, Helsínquia, Copenhaga, Berlim, Bona, Heidelberg, Dublin e numerosas outras cidades.

Jornada mundial a 25 de Outubro

Um ano depois das grandiosas manifestações mundiais contra a guerra, que assinalaram a emergência de um novo movimento global pela paz, o mundo volta a mobilizar-se.
A 25 de Outubro, respondendo ao apelo da coligação A.N.S.W.E.R., centenas de milhar de pessoas vão encher de novo as ruas de Washington e das capitais de todo o mundo exigindo o «Fim da ocupação do Iraque».
De acordo com a coligação norte-americana contra a guerra e o racismo, a Marcha de Washington fará ouvir o grito «Tragam as tropas para casa, Agora!», e «nenhum político ou órgão de comunicação social poderá negar que o sentimento anti-guerra neste país não só “não morreu” como aumenta a cada dia que passa».
O protesto de 25 de Outubro, coincidindo com a passagem do segundo aniversário do chamado «Patriot Act», será igualmente uma manifestação de repúdio contra «o assalto da administração Bush contra os direitos e as liberdades dos cidadãos», garante a A.N.S.W.E.R.
«Na primeira linha da manifestação de 25 de Outubro - afirmam os organizadores - estarão veteranos, militares, familiares e amigos dos soldados no Iraque», caminhando lado a lado com todos os que exigem o «fim imediato e incondicional da criminosa ocupação do Iraque».

Congresso dos EUA questiona trabalho da CIA

Os responsáveis da Comissão de Inteligência do Congresso norte-americano criticaram severamente a CIA, acusando-a de ter usado dados de 1998 para concluir que o Iraque possuía armas de destruição maciça e ligações à Al’Qaeda.
Afirmando que a capacidade da CIA para recolher novas informações revelou «graves deficiências» e que os dados apresentados eram «desactualizados, circunstanciais e fragmentados», a Comissão acusa a agência de ter apresentado como provas o que não passava de suspeitas.
«A falta de provas de que armas químicas e biológicas e respectivos programas de pesquisa tinham sido destruídos foram consideradas provas de que continuavam a existir», afirmam os líderes da comissão em carta ao director da CIA, George Tenet.
O facto de as forças americanas e britânicas não descobrirem o arsenal químico e nuclear que Bush garantia existir no Iraque fez aumentar a controvérsia sobre as justificações da guerra. O assunto continua na ordem do dia, e esta semana ganha novo destaque com a esperada apresentação do relatório do principal inspector dos EUA, David Kay, sobre o trabalho de sua equipe, de 1400 homens.
O relatório vai confirmar que tais armas não foram encontradas.

A polémica está instalada

As críticas da Comissão são tanto mais relevantes quanto se sabe que ela é controlada pelos republicanos e que o respectivo presidente, Porter Goss, é um ex-agente da CIA e um defensor de longa data do controverso George Tenet. A carta é assinada por Goss e pela democrata Jane Harman.
«A falta de informação específica sobre os planos e intenções do regime (de Bagdade), as armas de destruição maciça e o apoio do Iraque a grupos terroristas parecem ter obstado à capacidade (da CIA) de fornecer aos responsáveis políticos dados melhores sobre o período de 1998/2003», refere a carta. A conclusão resulta da análise de 19 volumes de material secreto usado pela CIA para elaborar um relatório confidencial sobre o Iraque, que serviu depois à administração Bush para justificar a invasão daquele país.
Entretanto, a Casa Branca tenta salvar a face. Na segunda-feira, a conselheira presidencial para assuntos de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, foi à televisão defender o ataque ao Iraque sem o aval da ONU. «O presidente acredita que tinha um bom serviço de informação quando optou pela guerra. Houve um enriquecimento dos dados recolhidos desde 1998. E nada apontava para um recuo nos esforços de Saddam Hussein para adquirir armas de destruição em massa. Era claro que isso tinha continuado e que era um perigo crescente», afirmou Rice.
Também a CIA defendeu seu relatório, garantindo, através do seu porta-voz, Bill Harlow, que «no período pós 1998, a agência fez um esforço persistente» para aumentar a compreensão sobre o Iraque e os seus programas de armas de extermínio em massa. Foram obtidos «importantes progressos», disse Harlow, considerando que a Comissão do Congresso «ainda precisa de tempo para avaliar plenamente como o relatório foi construído e como, e em que se basearam os agentes e analistas para chegarem aos seus julgamentos e conclusões».

Parlamento Europeu pede entrega do poder aos iraquianos...

O Parlamento europeu aprovou, na sexta-feira, por maioria, uma recomendação pedindo a rápida transferência do poder político e económico no Iraque para o povo iraquiano e seus representantes, através de uma nova resolução das Nações Unidas que contemple a eleição de uma assembleia constituinte até ao final de 2003.
A resolução defende ainda que a segurança do Iraque deve ser garantida por uma força militar e uma força de polícia mandatadas pela ONU, e que conte com a cooperação da NATO. O texto defende igualmente a transferência da administração das vendas de petróleo iraquiano para a ONU, como depositária, a fim de financiar a reconstrução do país, através de um fundo internacional previsto num mandato das Nações Unidas.
O PE pede, por outro lado, que sejam tomadas medidas para julgar os responsáveis por violações dos direitos humanos no país, através de um tribunal internacional ad hoc para o Iraque, caso o TPI não tenha mandato para tal.

... mas recusa condenar ocupação

A deputada do PCP, Ilda Figueiredo, votou contra esta resolução, considerando ser «incompreensível» que o PE, na sua «primeira posição na sequência da agressão dos EUA e seus aliados ao Iraque», se recuse a relembrar «que a situação de instabilidade actual, que constitui um perigo para o povo iraquiano e para a comunidade internacional, é a consequência do ataque injusto, ilegítimo e ilegal lançado pelos governos dos EUA, do Reino Unido e de outros países em 20 de Março de 2003».
A referência constava da proposta do Grupo da Esquerda Unitária, que foi rejeitada. O texto, que o PE recusou subscrever, exigia «o regresso à legalidade internacional, com a retirada imediata das tropas de ocupação estrangeiras e a assunção pela ONU das suas responsabilidades nos termos da Carta das Nações Unidas, a fim de instaurar sem demora o poder de instituições verdadeiramente representativas, legítimas e democráticas, através da realização de eleições que garantam o restabelecimento da soberania do povo iraquiano».
Para a deputada Ilda Figueiredo, também não faz sentido que o PE se congratule com o que considera ser «a mudança de atitude da administração Bush, aceitando um papel mais activo da comunidade internacional», quando o que está em causa, na sua opinião, é, sobretudo, «a partilha dos custos da ocupação e a resistência do povo iraquiano à ocupação».


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