• Pedro Campos

O esquadrão da morte está claramente identificado
A «segunda via» venezuelana
Os crimes de Altamira
A democracia venezuelana tem sido capaz de sobreviver às ameaças golpistas, mas as forças da reacção não desarmam e o perigo da ditadura é real.
Dezembro de 2002. Gorado o golpe de Estado de 11 de Abril. Posta em cena – e ridiculizada no tempo – a tomada da Praça de Altamira por parte dos militares golpistas que chefiaram impunemente o assalto ao poder.
Iniciada uma greve geral patronal que conseguiu um enorme sucesso mediático, mas que não era geral e começava perder força, a oposição golpista precisava de um segundo ar. Contra a corrente dos acontecimentos, declara o carácter indefinido da greve – «até ao derrubamento do tirano Chávez», disseram – e foi então quando entrou em acção o emigrante João Gouveia. De forma aparentemente inexplicável, aparece no palco da Praça Altamira e faz o seu papel. Com uma Glock 0.40 na mão, dispara indiscriminadamente. Três mortos e vários feridos. Tudo isto ao vivo pela televisão e ideal para culpar Hugo Chávez de uma agressão brutal contra os seus opositores. Gouveia nem sequer tenta fugir e é apanhado de imediato por populares, militares golpistas e polícias da zona, todos ligados à oposição.
A «façanha» de João Gouveia é um achado para os meios de comunicação. Uma mina de ouro para a campanha mediática contra o governo. Que recebe tratamento especial na prisão. Que se mexe com total liberdade. Que vai ser posto em liberdade. Tudo mentira: o autor material dos crimes é condenado a 29 anos e 11 meses de prisão. Contudo, o caso está longe de encerrado. Os autores intelectuais continuam em liberdade…
Dezembro de 2003. Após um ano de investigações e de vários outros actos terroristas – atentados bombistas contra as sedes diplomáticas de Colômbia e Espanha, entre outros – começam a aparecer algumas verdades.
Numa conferência de imprensa recente, a que os grandes meios de comunicação, por razoes óbvias, não deram relevo, o responsável da polícia do Estado, Miguel Rodríguez Torres, adiantou algumas informações preliminares e perguntas inquietantes sobre os crimes (vários) de Altamira e os atentados terroristas.

Os crimes de Dezembro de 2002

Enquanto todos na praça se deitaram no chão para se defenderem das balas assassinas, porque é que os militares estavam tranquilamente de pé e armados?
Porque é que havendo na praça tantos militares, polícias e três grupos de segurança operacionais – cada um de 50 membros – nenhum deste golpistas disparou contra o assassino?
Porque é que no dia dos assassinatos, o tenente Germán Varela (um dos procurados pelos atentados bombistas) disse a um dos habituais da praça que não fosse lá nesse dia?
A quem é que pertencia a arma que disparou as balas calibre 3.8 – que provocaram Sabendo-se que João Gouveia não tinha recursos para viajar da Madeira a Caracas, onde é que conseguiu o dinheiro para isso, para adquirir a Glock e para que, no dia dos assassinatos, tivesse ainda 800 euros nas algibeiras?

Os crimes de 19 de Fevereiro de 2003

Neste dia foram assassinadas várias pessoas mais, igualmente relacionadas com Altamira. No dia seguinte, o governo é acusado dos crimes. Não são necessárias nem investigações nem provas. Os mortos, abandonados numa zona próxima da capital, são três soldados e uma jovem. Está longe de ser o crime perfeito. Uma segunda jovem, Roxana Rivero, é dada como morta mas consegue sobreviver a graves ferimentos e reconhece os assassinos. São operacionais da segurança de Altamira e cometeram os crimes por ordem do general golpista Felipe Rodríguez, que considera que as vítimas são infiltrados do governo, e teria encomendado as execuções ao coronel Piliery. O esquadrão da morte está claramente identificado: tenentes Colina e Valera, cabo Sifontes, o ex-polícia Chacín e vários mais, entre eles Tayro Aristiguieta, conhecido como o «homem da etiqueta», responsável de outros massacres durante o governo anterior e irmão do chefe de segurança do partido Acção Democrática. Alguns estão presos, outros a monte. Do cabo Sifontes, o mais «falador» de todos, sabe-se que confessou à juíza, Nieves Bastidas, que o general Rodríguez e o coronel Piliery tinham dado a ordem para matar os três soldados e as duas jovens. O mesmo Sifontes admite
que disparou contra um dos soldados, Félix Pinto, e contra a mulher que resultou morta, e que Chacín foi quem atirou sobre a jovem que sobreviveu. Uma vez consumados os crimes, Piliery ligou para o seu superior, na presença de Sifontes, e deu parte do resultado: A encomenda está pronta e foi entregue…

Militares e empresários unidos no terror

Os já citados coronel Piliery e o ex-polícia Chacín, assim como o general Rodríguez, voltam a aparecer no caso das bombas colocadas nas embaixadas da Colômbia e Espanha. Segundo o director da polícia, uma ligação de telemóvel entre os dois primeiros foi a pista inicial para esclarecer estes casos, ocorridos igualmente em Fevereiro passado, já que, na chamada, o ex-polícia foi localizado na mesma célula telefónica onde se verificaram as explosões (as embaixadas ficam na mesma zona). Os bombistas compraram juntos os telemóveis poucos dias antes dos actos terroristas e os cartões telefónicos têm a numeração em série…
As declarações do cabo Sifontes foram preciosas para a investigação policial, e as autoridades sabem praticamente todos os pormenores destes casos e de vários outros, alguns abortados oportunamente, outros conseguidos como o da bomba lançada contra o prédio de Conatel (Comissão Nacional de Telecomunicações).
Começando pela ponta deste fio, as autoridades estão a desenrolar um novelo que vai dos militares golpistas a empresários metidos igualmente a conspiradores.
Sabe-se, por exemplo, que os explosivos C-4 chegaram a Altamira a bordo de uma moto conduzida por um tal Lovera, escolta de Gianni Gineli, dono de Duncan Venezuela, um empresa de acumuladores. Noutro caso de lançamento de bomba contra uma instalação militar próxima do palácio presidencial, a qual – a ter atingido a estacão de combustível do palácio – teria feito centenas de mortos, aparece a filha de um ex-locutor de televisão e o proprietário de uma importante tipografia. Misturados com estes golpistas ao melhor estilo pinochetistas estão igualmente envolvidos grupos da extrema-esquerda como Bandeira Vermelha, que rivalizam entre si para demonstrar, se possível com factos, o seu ódio ao processo iniciado há cinco anos por Hugo Chávez.
A democracia venezuelana tem sido capaz de sobreviver a estas ameaças golpistas. Umas vezes por mérito das forças progressistas e pelo amplo apoio das massas populares; outras pelos erros dos sectores mais irracionais da oposição, o que lhe tem feito perder muitos aderentes, que já chegaram à conclusão de que estavam a ser manipulados, muitas vezes contra os seus próprios interesses. No entanto, a reacção, que dificilmente conseguirá vencer dentro das regras democráticas, continua a ter muita força ao nível dos média, do poder económico e de fortes apoios em certos meios internacionais que tradicionalmente se opõem aos governos progressistas e não têm qualquer tipo de escrúpulos na hora de embarcarem numa aventura golpista. É a famosa «segunda via», e uma conversa telefónica recente entre o líder da confederação operária entreguista (agora no exílio) e o seu sucessor (ainda no país) fala-se muito
claramente na necessidade de Chávez sair mesmo que isso signifique uma ditadura de duzentos anos. Ninguém põe em dúvida a sinceridade dessas palavras.


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