• José Casanova

Santíssima trindade
Saddam Hussein foi preso e sujeito a severa humilhação, divulgada e redivulgada por todo o Planeta. A seguir, sofrerá os interrogatórios da praxe e, quando mais convier ao Império, será submetido a um julgamento que o condenará à pena que ao Império mais convier. Assim, em meia dúzia de palavras, se diria o que sobre o assunto há a dizer. Sobre o assunto principal – a libertação do Iraque da ocupação imperialista – muito mais há, naturalmente, a dizer.
Acontece que a turba canora que, diligente, papagueia o discurso do Império, tem vindo a entornar-se em autênticas manifestações de regozijo e de desagravo, expontâneas todas, como mandam as regras do antigamente, e que outra coisa não visam que não seja, transformar a prisão de Saddam na legitimação da ocupação do Iraque. Ora, se é verdade que a prisão de um facínora é, em princípio, um acto de justiça (digo em princípio porque o acto de justiça passa a ser uma outra coisa se o facínora é preso às ordens de outro facínora), neste caso concreto a prisão do criminoso Saddam – responsável directo pela morte de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes - não limpa minimamente o registo criminal de Bush, Blair &Cia. – responsáveis directos pela morte de milhares de homens, mulheres e crianças cujo único crime foi... terem nascido num país com muito petróleo. O facto de os crimes deste bando serem apresentados em nome da liberdade e da democracia apenas realça a hipocrisia dos criminosos – sabendo-se, como se sabe, que as suas preocupações democráticas se situam exclusivamente nas áreas do domínio do Mundo e dos negócios.
Por falar em negócios: disse Bush que só tem direito a prémio quem participou na invasão e ocupação do Iraque. Mais ou menos assim: o governo do teu país integrou as forças da coligação, isto é, aceitou colocar-se incondicionalmente sob as ordens do exército imperial e destruir cidades e vilas e matar milhares de homens, mulheres e crianças? Se assim foi, viva a democracia e toma lá negócio. Caso contrário, desiste da ideia.
Em 1991, quando os EUA, a Grã-Bretanha e a França libertaram o Kuweit – bombardeando exaustivamente o país – o negócio foi feito antes mesmo de se iniciar a destruição e nos seguintes termos: cada país teria negócios de reconstrução na proporção directa do que destruísse. Critérios diferentes, contudo mantendo sempre o essencial: a santíssima trindade do crime, do negócio e da democraCIA.


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