• Henrique Custódio

«Pessoa do Ano»
A revista norte-americana Time saiu-se com (mais) uma originalidade: na semana passada, elegeu o soldado norte-americano como «Pessoa do Ano 2003».
Para que não restassem dúvidas, encheu toda a capa com uma única foto de três militares dos EUA devidamente fardados (um deles preto, como convém ao «politicamente correcto» que a publicação pratica diligentemente, mas em segundo plano, porque a publicação não embarca em exageros, pelo menos dentro de casa) e dois títulos esmagadores (e em inglês, obviamente): ao cimo, «Pessoa do Ano», em baixo, «o soldado americano». Sem equívocos ou subtilezas, mesmo gráficas, como aliás é apanágio da publicação.
É evidente que a Time é a mesma revista que, há apenas escassos meses, atroava também na primeira página que a portuguesa cidade de Bragança era uma espécie de prostíbulo da Europa (e quiçá do mundo), imbecilidade e descabelamento fundamentados numa gorda reportagem de várias páginas suscitada pelas autoproclamadas e façanhudas «mães de Bragança», umas tais que vieram a público, mas anonimamente, para se queixar que os maridos lhes fugiam para bares de alterne da cidade.
A credibilidade da Time está a este nível.
O que não anula ou obsta o facto de ser uma publicação com muitos milhões de exemplares, concretizando uma penetração tão avassaladora nos EUA, como significativa na Europa e no chamado «mundo ocidental» em geral.
Pelo que, apesar de manifestamente inconsistente, tal não transforma a Time irrelevante.
Anotemos, entretanto, que a revista não descortinou, nos EUA ou no mundo, outra profissão ou actividade que melhor simbolizasse a «Pessoa do Ano 2003», fale-se de investigadores ou cientistas, investidores ou artistas, criativos ou construtores e etc. por aí fora.
Segundo a Time, no ano que agora acaba, qualquer das centenas de profissões ou actividades que fizeram andar o mundo dos homens em 2003 não se compara, em importância e consequência, à actividade do «soldado americano».
Soldado que, como todos (e apesar da sua extraordinária qualidade de «americano») tem por função essencial matar e destruir, sendo para isso mesmo treinado e instruído.
Mas não é isso que interessa à revista. Segundo explica a chefe de redacção da Time, a escolha do «soldado americano» para «Pessoa do Ano» foi feita «atendendo às capacidades fora do comum e aos serviços prestados», à «defesa das nossas liberdades e daquelas que surgem agora do outro lado do mundo».
Portanto, ainda por cima, a presença do grande «soldado americano» no Iraque é que está por trás da escolha da Time.
Já agora, há por aqui alguns pormenores onde a revista se revela mal informada.
Por exemplo, serão as tais «capacidades fora do comum», reconhecidas pela Time no «soldado americano» em expedição no Iraque, que estão a fazer com que o número de mortos e suicídios registados entre as forças militares dos EUA no Iraque já ultrapassem o mesmo tipo de baixas nos piores anos da guerra do Vietname?
Mas a revista também se revela mal avisada.
Em 1951, já distinguira igualmente o soldado americano com esta honra – foi durante a guerra da Coreia, uns tempos antes de os EUA serem de lá corridos


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