Editorial

«Dizem todos que é necessário manter uma política de contenção salarial»

OS CRONISTAS DA ABASTANÇA

A pretexto dos aumentos dos preços, um mar de comentadores, analistas e economistas desaguou nos diversos órgãos de comunicação social. Na verdade, quase não abordaram o tema. Percebe-se: para todos eles - figuras marcantes do comentário elevado, da análise profunda e da alta economia – as subidas dos preços dos bens e serviços essenciais, não passam de miudezas, de ninharias que tratam com um desdém enjoado. Informa um, entretanto, pela enésima vez, que o desemprego está em vias de estagnar, se é que não estagnou, já - pelo que, não tarda nada está, outra vez..., o problema resolvido; lembra outro que, há um ano, ninguém acreditava (excepto ele, como faz questão de sublinhar) que, por esta altura, as coisas estariam tão boas como estão - e garante-nos um futuro de abastanças e, acrescenta, de paz; um terceiro, conclui que, tal como previra, valeu a pena fazer sacrifícios, apertar o cinto: agora tudo está bem e em 2006, ano de eleições, a situação ainda será melhor – e explica que, assim sendo, o PSD pode, até, se preparar uns rebuçados para essa altura, obter, sozinho, a maioria absoluta; três gajeiros, veteranos no anúncio da boa-nova, gritam, do cimo do mastro real, que a retoma está à vista; e dizem todos, com ar sério, severo e em coro síncrono, que é necessário manter uma política de contenção salarial, com salários baixos (de preferência baixinhos) e com aumentos salariais a condizer - a começar pela Administração Pública, para dar o exemplo, para que os restantes trabalhadores não fiquem a pensar em cavalarias altas. A bem da Nação, é claro, já que a contenção salarial é a menina dos olhos da economia nacional: é condição indispensável, como todos eles nos vêm dizendo há dezenas de anos, para a erradicação do desemprego, para o desenvolvimento da economia do País e para que Portugal ocupe o pelotão da frente da União Europeia – o tal pelotão que, como o sapiente Professor Cavaco não se cansou de nos ensinar, já encabeçamos desde a década de 80.

Com comentadores, analistas e economistas deste quilate, podem dormir descansados, felizes e cheios de bons sonhos, todos os portugueses e portuguesas que não precisam, nem nunca precisaram, nem precisarão de trabalhar para viver, ou seja: todos e todas que não vivem dos salários que ganham em troca da força de trabalho que despendem; todos e todas que não vivem das reformas devidas a quem trabalhou; todos e todas que não precisam de se preocupar em estudar pensando no futuro, porque, como o Primeiro-Ministro lhes garantiu «são, já hoje, a garantia do Portugal moderno que todos ambicionamos». É possível que estes todos e todas, de facto beneficiários e beneficiárias de um paraíso terráqueo concreto, sejam em número elevado. É possível. Mas uma coisa é certa: os portugueses e portuguesas que sobram – que serão para aí... apenas uns nove milhões e tal – esses estão condenados ao inferno.
Anote-se, no entanto, que, ao contrário do que parece, a inteligenciação desses comentadores, analistas e economistas, é luminar e direita como um fuso. E tem destinatários precisos: quando dizem, satisfeitos, que o desemprego estagnou, não é deles próprios nem do seu grupo de amigos que estão a falar; quando lembram, triunfantes, que há um ano previam toda a bem-aventurança actual, é neles próprios e no seu grupo de amigos que estão a pensar; quando concluem, impantes, que valeu a pena fazer sacrifícios, estão a falar dos nove milhões e tal que têm por missão apertar os cintos para que eles próprios e o seu grupo de amigos possam, perante as câmaras das televisões, coçar as prósperas barrigas. E quando, no meio de todos estes dizeres, lembranças e conclusões, soltam uma referência fugidia aos irritantes direitos humanos – o direito ao trabalho, a um salário e reformas dignas, à saúde, ao ensino, à paz... – fazem-no como quem acende as iluminações do Natal ou o fogo de artifício da passagem do ano.

Daí as melífluas profissões de fé patriótica que, na oratória e na prosa dos ditos escribas, embalam e enfeitam a sombria realidade: o necessário pacote laboral - castrador de direitos que baste para que o grande capital aumente muito e sem sobressaltos sociais; o incontornável desemprego e o indispensável trabalho precário - espelhos da precariedade da democracia em que vivemos; os inevitáveis salários baixos - expressão clássica da desenfreada exploração capitalista; os insubstituíveis aumentos dos bens e serviços essenciais - fazendo pagar as custas de todo o processo aos nove milhões e tal, em benefício da pequena minoria de exploradores (e, é claro, dos seus cronistas privativos, aos quais é concedido o privilégio de apanhar as migalhas, ainda assim substanciais, de debaixo das mesas).
Quer isto dizer que, para a imensa maioria de portugueses e portuguesas – trabalhadores, desempregados, reformados, jovens, mulheres, deficientes, micro, pequenos e médios empresários – continua a colocar-se, objectivamente, como questão essencial, a necessidade imperiosa de lutar pela defesa dos seus direitos, de intensificar e ampliar a luta visando derrotar o Governo PSD/CDS-PP e a sua política, de incorporar nos objectivos dessa luta a implementação de uma política de esquerda que tenha em conta, prioritariamente, a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País – pondo termo, nomeadamente com a arma do voto, quando chegar o seu tempo, aos jogos de alternâncias, mascarados de alternativas, que têm constituído o alimento das crescentes injustiças e desigualdades reinantes


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