Aumentos nos bens essenciais afectam as famílias de menores recursos
PCP contesta subida dos preços
Aumentos agravam desigualdades
Os aumentos dos preços dos bens essenciais inserem-se na política do Governo, que se traduz no empobrecimento de amplas camadas, acusou anteontem o PCP.
Os bens e serviços essenciais estão mais caros. O preço da alimentação, habitação, ensino, taxas moderadoras e medicamentos, energia comunicações, transportes e água estão a crescer. Para o PCP, que realizou uma conferência de imprensa sobre o assunto na terça-feira, «estes aumentos são particularmente chocantes pois são os que maior peso têm nos orçamentos familiares mais modestos». Segundo Fernanda Mateus, membro da Comissão Política, «quanto menor é o rendimento familiar maior é a percentagem dos gastos com bens de primeira necessidade».
O pão foi o primeiro aumento referido pela dirigente comunista. O seu significativo aumento – algures entre os 10 e os 30 por cento – é inaceitável, sobretudo num momento em que este produto volta a assumir-se, em muitas situações, como o «último recurso alimentar para muitos idosos e famílias que se encontram numa situação de pobreza ou de drástica redução de capacidade de aquisição de importantes bens alimentares».
Fernanda Mateus desmentiu ainda o argumento dos industriais do sector, que justificam o aumento com uma alegada subida similar do preço dos cereais. A dirigente comunista recorda ainda outra mentira, segundo a qual as sucessivas reformas da PAC se destinariam a aliviar os custos dos consumidores em bens alimentares, em particular do pão. O Governo não ficou livre de críticas. Segundo a dirigente do PCP, nada foi feito para evitar os aumentos e só recentemente se dirigiu à Autoridade da Concorrência.
Outro dos preços que sofrerá um significativo aumento é o dos combustíveis. Anunciados no primeiro dia de liberalização dos combustíveis, estes aumentos foram antecedidos por um outro: o das portagens, na ordem dos 2,8 por cento. Os preços dos seguros automóveis (entre os 5 e os 7 por cento) e dos táxis (na ordem dos 5 por cento) também sofrem alterações.

Tudo a aumentar

Também as rendas de casa aumentam 3,7 por cento, ou seja, acima da inflação prevista pelo Governo (ver caixa). Nas rendas anteriores a 1970 e entre 1970 e 1972, e fora dos municípios de Lisboa e do Porto, os aumentos atingem os 5,5 por cento. Esta medida, denuncia Fernanda Mateus, é da exclusiva responsabilidade do Governo, que assim o estabeleceu em Portaria.
A energia também aumenta. Com os preços da electricidade a crescer 2,1 por cento, os consumidores portugueses assumem-se cada vez mais como os que mais pagam por electricidade na Europa.
Com estes aumentos, muito acima dos aumentos salariais (o Governo anunciou que o salário mínimo crescerá 2,5 por cento), o Governo prossegue a sua aposta numa «verdadeira cruzada contra as condições de vida da grande maioria da população portuguesa», em contraste com a conquista de privilégios e benesses por parte de uma minoria, que se vai apropriando da riqueza produzida.
Estes aumentos constituem, para a dirigente comunista, um «chocante contraste com os discursos de “sol e mel” que animaram as mensagens governamentais de final de ano». Com a degradação do nível de vida dos trabalhadores sofrem também as pequenas e médias empresas e o comércio a retalho, alertou.

Previsões fraudulentas

«Se a mentira pagasse imposto os problemas financeiros do País ficariam resolvidos», ironizou Fernanda Mateus, que considera a previsão da inflação uma «enorme fraude política» do Governo. As previsões do Governo – entre 1,5 e 2,5 por cento – servem de base aos aumentos salariais, mas o crescimento dos preços dos bens e serviços essenciais ultrapassam em muito essa previsão. As previsões, devidamente fundamentadas «em função da pseudo e mistificada “objectividade dos números” e dos “cálculos da ciência económica”», têm-se revelado erradas ao longo dos anos, e não por pouco.
Denuncia a dirigente do PCP a diferença entre a previsão da inflação e a inflação efectivamente verificada. Em 2000, a previsão foi de 2 por cento, mas na realidade foi de 2,9 por cento. Em 2001, para uma previsão de 2,8 por cento, a inflação saldou-se em 4,4 por cento. O mesmo em 2002, quando se anunciou uma inflação de 2,75 por cento e esta foi de 3,6 por cento. Em 2003, aponta-se para um valor que não terá ficado longe dos 3,4 por cento. A previsão foi de 2,5.



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