Editorial

«Do governo espera-se que venha a público confessar que mentiu aos portugueses»

SEGUIR OS BONS EXEMPLOS

A deprimente novela sobre a tão desejada existência de armas de destruição maciça no Iraque ultrapassou, já, todos os limites em matéria de desrespeito pela inteligência humana. Dir-se-ia que os cérebros desta mascarada, decerto aplaudida com entusiasmo por Georges W. Bush, medem a inteligência do cidadão normal usando como bitola a do presidente do seu país. Na verdade, fingindo não saberem que tais armas não existiam nem existem, e que a sua inventada existência não passou de um pretexto para a invasão do Iraque, os responsáveis pela invasão e ocupação do país têm vindo a proceder a uma encenação que seria ridícula se não visasse, entre outras coisas, justificar o assassinato de milhares de pessoas inocentes e, assim, esconder por detrás de uma máscara democrática um violento e brutal crime contra a humanidade.
Para a boa execução de tal manobra, o governo dos Estados Unidos da América recorreu à prestimosa CIA a qual, possuidora de uma experiência única no mundo em matéria de práticas terroristas e afins, logo tratou de criar um chamado Grupo de Inspecção e de lhe atribuir a tarefa de – a bem da democracia, da liberdade e dos direitos humanos - encontrar as ditas armas de destruição maciça, custasse o que custasse. Dado que, pelo menos até agora, não tiveram possibilidade de plantar provas no local – expediente a que recorreriam sem qualquer pejo se pudessem fazê-lo em segredo – o Grupo de Inspecção nada encontrou. Mais: há dias, o responsável desse Grupo, David Kay, numa atitude que há-de ter irritado profundamente o governo dos EUA, afirmou que não acredita na existência das armas que levaram os governantes do seu país a invadir e ocupar o Iraque. E, talvez por não estar disposto a prosseguir a farsa encomendada pelos seus superiores, demitiu-se do cargo.

Pensava-se que tal demissão poria termo à mascarada grotesca e que a equipa de criativos ao serviço do Império mudaria a agulha para outras e menos escandalosas justificações. Não foi isso que aconteceu, todavia. De imediato, o director da CIA tratou de substituir David Kay e informou que o substituto, Charles Duelfer, «aproveitará o trabalho do seu antecessor» para encontrar as provas necessárias – isto, mesmo sabendo que Duelfer ainda recentemente, comentando de forma valorativa o trabalho da equipa de Kay, afirmou que «a razão por que não encontraram as armas de destruição maciça é porque, provavelmente, elas não estão lá».
Entretanto, em Davos, na Suiça, no decorrer do Fórum Económico Mundial, o vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, proferia um discurso exemplar dos objectivos do imperialismo norte-americano e do vale-tudo a que está disposto a recorrer para os alcançar. Esclarecendo mais uma vez o pensamento do seu governo no que toca à cooperação internacional, esse veterano de crimes de guerra que é Cheney, procedeu a uma vibrante exibição do conceito de democracia que povoa as mentes dos governantes do seu país. Assim , garantiu que os EUA não hesitarão «em recorrer ao uso da força, mesmo preventivamente, sempre que se sintam ameaçados» e, didáctico, explicou que «quando a democracia fracassa, devemos recorrer à força, se necessário». Ao que parece, nenhum dos participantes no Fórum ousou dar-lhe a resposta merecida, ninguém ousou qualificar adequadamente tais afirmações – facto que Cheney muito há-de ter apreciado e que lhe proporcionou proclamar, de certo em tom heróico, que «os homens violentos devem ser dominados pela força». E como não houvesse qualquer indício de as forças da ordem entrarem na sala e o dominarem pela força, Cheney, na passada, achou por bem decretar que «a guerra contra o Iraque foi uma boa ideia e um sucesso».

No discurso do vice-presidente dos EUA não faltou, obviamente, o tradicional apelo «aos países europeus» para se juntarem ao seu país naquilo que, recorrendo ao também tradicional eufemismo, designou por «a luta contra o terrorismo e a transição para a democracia no Iraque». Sabendo-se que, para Cheney, «terroristas» são todos os que contestam e combatem o imperialismo norte-americano, é fácil deduzir o significado do apelo. E não há melhor exemplo do entendimento que os EUA fazem da expressão «democracia no Iraque» do que a recente criação de uma «Comissão de Redacção da Constituição do Iraque», composta por uma dúzia de lamegos representando todos os países ocupantes – e, segundo se diz, pagos a peso de ouro... iraquiano.
É claro que Cheney, no seu apelo de Davos, dirigia-se apenas a alguns países europeus: precisamente aos que, embora titubeantes, não adoptaram desta vez a postura de total servilismo adoptada pelos governos de Blair, Aznar, Berlusconi, Barroso e vários outros cúmplices no crime contra a humanidade praticado no Iraque.
Na verdade, estes dispensam apelos: são criados para todo o serviço em escala permanente, obedecer de cara alegre é tudo o que lhes é exigido e que eles cumprem sem hesitações, com os sorrisos rastejantes de quem é, sabe que é e quer ser pau para toda o obra.
No que diz respeito ao Governo português, espera-se que siga o exemplo de David Kay, ou seja, que venha finalmente a público confessar que mentiu aos portugueses; que, na base dessa mentira, envolveu Portugal numa guerra injusta; que esse envolvimento é um insulto à soberania nacional e ao regime nascido do 25 de Abril; que, nessa guerra injusta, é co-responsável pela morte de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes; e que, por tudo isso, se demite.
Os bons exemplos devem ser seguidos.


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