• Jorge Cadima

Hoje já poucos duvidam que os dirigentes do imperialismo mentiam
Eleições
Fez neste fim-de-semana um ano que milhões de pessoas desceram às ruas nos cinco continentes para dizer não à guerra que o imperialismo norte-americano se preparava para desencadear contra o martirizado povo do Iraque. Doze meses volvidos, a notável e heróica resistência do povo iraquiano – em todas as suas formas – está a atolar os senhores da guerra no pântano. Janeiro foi o segundo mês com maior número de baixas militares dos EUA no pós-guerra iraquiano – apesar da tão propagandeada captura de Saddam Hussein. E os ataques da passada semana na cidade de Faluja revelam que a opção de recuar as tropas norte-americanas para dentro dos quartéis (abandonando as mal-equipadas forças iraquianas na linha da frente dos ataques da resistência) não só não diminui as baixas norte-americanas, como se arrisca a provocar derrotas humilhantes para as forças ocupantes.

Se a situação do ocupante é má do ponto de vista militar, não é melhor do ponto de vista político. Hoje já poucos duvidam que os dirigentes do imperialismo mentiam quando falavam em armas de destruição massiva. É o próprio chefe da equipa encarregue por Bush de as descobrir, David Kay, que afirmou ao demitir-se: «não penso que tenham existido». Mas também a outra desculpa com que os criminosos de Washington (e seus serventuários de Londres, Madrid, Lisboa) procuraram enganar os povos – a da democracia no Iraque – mete hoje água aos olhos do mundo inteiro. Os planos imperiais para o chamado «processo de transição de poderes» são tão flagrantemente anti-democráticos, que apenas encontramos os pormenores na imprensa anti-imperialista. Assim, a pseudo-«Assembleia Nacional» que deverá entrar em funções em finais de Junho não resultaria de eleições gerais, mas sim da «formação de comissões coordenadoras em cada uma das 18 províncias; essas comissões seriam compostas por 15 iraquianos – cinco nomeados pelo Conselho de Governação [órgão escolhido pelos ocupantes], outros cinco por conselhos provinciais [idem] e um representante de cada uma das cinco maiores cidades da província. Estas 15 pessoas nomeariam alguns “notáveis” e elegeriam de entre eles os membros de um colégio de eleitores. Cada eleito terá de receber pelo menos 11 votos, o que na prática atribui ao Conselho de Governação o direito de veto sobre os membros do colégio. Os 18 colégios assim criados escolheriam então os deputados à Assembleia Nacional» (Workers’ World, 5.2.04). É contra esta farsa que milhares de iraquianos se manifestam nas ruas. É para a impor que os ocupantes procuram agora recrutar os serviços da ONU.

Para o grande capital, os mecanismos formalmente democráticos servem apenas como formas de legitimação do seu domínio de classe, a nível nacional e internacional. Se entrarem em contradição com essa dominação, o imperialismo não hesita em liquidá-los. Foi assim há 30 anos, no Chile, como agora se comprova na documentação oficial que vai sendo publicada. Nessa altura, os círculos governantes dos EUA decidiram que havia que pôr termo ao governo democraticamente eleito da Unidad Popular, pois como explicava o então responsável pela política externa dos EUA, Kissinger: «o exemplo bem sucedido de um governo Marxista eleito no Chile teria seguramente um impacto – e serviria até de precedente – para outras partes do globo, especialmente Itália; o efeito de imitação de fenómenos desse tipo teria, por sua vez, um efeito significativo sobre o equilíbrio mundial e a nossa posição no seu seio» (actas de um encontro Kissinger-Nixon, publicadas no National Security Archive, em www.gwu.edu/~nsarchiv). E assim surgiu Pinochet e se pôs termo à democracia burguesa chilena. Também para que servisse de lição. Esta é, e sempre foi, parte integrante da natureza das «democracias ocidentais». O resto são cantos de sereia.


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