Editorial

«A generalidade dos média afinou pelo diapasão aznariano»

MENTIRA E MANIPULAÇÃO

Os acontecimentos ocorridos em Espanha na semana passada, são férteis em ensinamentos e lições. Eles põem a nu quer a natureza do capitalismo hoje dominante, o conceito de democracia nele prevalecente, os meios a que não hesita em recorrer para alcançar os fins que persegue, quer a força da intervenção popular lúcida, inteligente e determinada.
O rebentamento das bombas terroristas em Madrid e o início da operação conduzida por Aznar visando colher dividendos do horror, foram dois actos quase simultâneos – e ambos, naturalmente, de origem criminosa. Nessa operação Aznar agiu com a frieza reveladora de uma perversidade sinistra. Face a um acto bárbaro, a uma acção terrorista que roubou a vida a duas centenas de pessoas e feriu mais de um milhar, a primeira preocupação de Aznar foi a de utilizar a dor e o sofrimento, em favor do seu partido, do seu governo e da política que há oito anos vinha a praticar.
Atribuindo o atentado terrorista à ETA – e fazendo-o com o tom arrogante de caudilho e com o ar peremptório de quem está recheado de provas do que diz - Aznar tentou matar vários coelhos com uma só cajadada: por um lado, procurava ganhos eleitorais que assegurassem a continuação do PP no governo, se possível com a maioria absoluta; por outro lado, não só sacudia a água do capote em relação às suas responsabilidades na criminosa invasão e ocupação do Iraque, como ficava com luz verde para prosseguir e reforçar a sua aliança com os chefes do terrorismo de Estado à escala planetária; em terceiro lugar, abria o caminho para assegurar a continuidade à ofensiva contra a democracia que tem vindo a levar a cabo no seu país.
Para alcançar esses objectivos não hesitou em exibir uma brutal falta de respeito pelas vítimas e pela dor das suas famílias, uma absoluta ausência de escrúpulos, uma insensibilidade terrorista.

As manifestações de sábado, em protesto contra a mentira e a manipulação, constituem um acontecimento de enorme relevância. Independentemente do carácter mais ou menos expontâneo de que se revestiram, elas expressam como que uma tomada de consciência colectiva nascida da percepção clara do embuste em curso. Os milhares de cidadãos que saíram à rua em várias cidades do país vizinho manifestando uma indignação sentida face à utilização despudorada da tragédia como instrumento de caça ao voto, rejeitavam igualmente, de forma iniludível, o alinhamento do governo de Aznar com os invasores e ocupantes do Iraque. Os cartazes empunhados pelos manifestantes e os gritos de protesto, repudiavam de forma inequívoca os crimes praticados no Iraque sob a batuta do país que é o maior centro de terrorismo do mundo. A fotografia de Bush, Blair, Aznar e Barroso, nas Lajes, ostentada pelos manifestantes, assinalava a cimeira da guerra que antecedeu a invasão e ocupação do Iraque – com os quatro culpados exibindo os sorrisos anunciadores da iminente destruição do país e do massacre de milhares de vítimas inocentes.
Os resultados eleitorais – na sequência destas manifestações – constituíram uma clara oposição à ocupação do Iraque e à aliança de Aznar com o terrorismo imperialista. A retirada das tropas espanholas do Iraque, já anunciada por Zapatero, é uma primeira e positiva resposta à vontade expressa pelo eleitorado espanhol, que se espera que tenha continuidade. E que sirva de exemplo ao governo de Durão Barroso – que, abusivamente, desejou a vitória do PP «em nome de Portugal» e que, criminosamente, envolveu o nosso País num guerra terrorista, ao serviço dos interesses dos EUA.

Em todo este processo, a generalidade dos média – portugueses e espanhóis – afinou pelo diapasão aznariano, assim dando continuidade plena à sua prática de propagandistas da nova ordem imperialista. Acompanhar os caminhos percorridos pelo discurso mediático, primeiro entre quinta-feira e sábado, depois, no decorrer do dia e da noite das eleições, constituiria um exercício luminar sobre o conceito de informar típico da nova ordem comunicacional. Os habituais comentadores de serviço, instalados nos estúdios e nas redacções, começaram por papaguear o discurso do caudilho, garantindo, em prosa inflamada, que o atentado terrorista fora obra da ETA; depois, quando a patranha se tornou insustentável, em visível desnorte mas sem ponta de vergonha, cumpriram a tarefa de informar que se tratava de uma operação conjunta ETA/Al-Qaeda; e foi já em desespero de causa, mas sempre sem vergonha, que acabaram por se quedar na conclusão de que era indiferente ter sido uma ou outra daquelas organizações...
Na noite de domingo, à medida que os resultados eleitorais iam sendo conhecidos, o discurso vertido pelos comentadores de serviço e pela generalidade dos enviados especiais, foi sendo submetido aos acertos e arranjos necessários até ser encontrada a fórmula comum que resumiu tudo à «péssima gestão dos acontecimentos pelo PP»...
Mentir e manipular foi, assim, a função destinada aos média e por eles cumprida com a eficácia só possível a quem possui uma vasta experiência acumulada. Em Espanha, a operação atingiu proporções de muito maior gravidade. O facto de as televisões terem ocultado as manifestações de protesto contra a mentira na noite de sábado e os telefonemas feitos pelo caudilho, ele próprio, para os directores dos principais órgãos de informação, são exemplos disso.
Felizmente, desta vez houve excepções. O protesto da comissão de trabalhadores da Agência EFE contra as «censuras e manipulações» praticadas nesses dias constitui um exemplo positivo e promissor.


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