«Tinha de ser a ETA, mesmo que tudo indicasse que não era»
Aznar vencido nas ruas e nas urnas
Atentados de Madrid desmentem tese do «mundo mais seguro»
A exemplo das armas de destruição maciça no Iraque, as certezas sobre a responsabilidade da ETA nos atentados de Madrid revelaram-se um colossal embuste.
Os atentados terroristas de 11 de Março em Madrid, que provocaram 2001 mortos e cerca de 1500 feridos, trouxeram de novo para primeiro plano a questão da manipulação da opinião pública ao serviço de interesses políticos.
Em vésperas de eleições gerais em Espanha, o PP de José Maria Aznar não hesitou em explorar o sangue das vítimas para tentar recolher dividendos políticos. A responsabilidade da tragédia tinha de ser atribuída à ETA, custasse o que custasse, para que os eleitores não fossem levados a questionar a política oficial de apoio incondicional aos EUA no pretenso combate ao terrorismo que levou à invasão e ocupação do Iraque.
No «mundo mais seguro» que a estratégia de Bush estaria a construir, o terrorismo internacional não podia chegar a terras de Espanha. Tinha de ser a ETA, mesmo que tudo indicasse que não tinha sido a ETA, tal como o Iraque de Saddam Hussein tinha de ter armas de destruição maciça, mesmo que delas não houvesse vestígio.
O povo espanhol não se deixou enganar. À gigantesca manifestação de protesto contra o terrorismo, que a 12 de Março levou a Madrid cerca de dois milhões de pessoas, logo outras se sucederam por todo o país exigindo que o governo dissesse a verdade. O executivo continuou a insistir na acusação à ETA e desencadeou uma despudorada campanha de ingerência nos órgãos de comunicação social para fazer vingar a sua tese, mas sem sucesso.
Se desta vez a estratégia da mentira não funcionou não foi por falta de empenhamento do governo de Aznar nem de apoio internacional.

Conselho de Segurança com Aznar

Poucas horas depois dos atentados, e contrariando a sua prática habitual, o Conselho de Segurança da ONU condenava por unanimidade a ETA, fiando-se apenas nas declarações de Madrid.
Normalmente, o que sucede é o Conselho de Segurança aprovar resoluções condenando actos terroristas, sem nomear uma organização ou indivíduos até que tenha sido conduzido um longo inquérito para confirmar a sua responsabilidade.
Este procedimento de elementar cautela foi dispensado desta vez., não só devido às «certezas» da Espanha como também devido ao facto de o embaixador norte-americano na ONU, John Negroponte, ter afastado a hipótese de a Al-Qaeda poder ser responsável pelos atentados, devido ao apoio espanhol à guerra norte-americana no Iraque.
Os dois desmentidos da ETA foram ignorados, mas no sábado tornou-se impossível esconder que a matança era reivindicada num vídeo «em nome do porta-voz militar da Al-Qaida na Europa, Abu Dukhan Al Afgani».
Perdidas as eleições, o governo de Madrid enviou segunda-feira uma carta ao Conselho de Segurança explicando que antes tinha «a firme convicção» de que a ETA era responsável pelos atentados, mas que agora novos elementos levam a admitir novas hipóteses, e que manterá o Conselho informado dos resultados das investigações.
As autoridades espanholas identificaram entretanto seis marroquinos como sendo os autores materiais dos atentados, cinco dos quais estão em fuga. O sexto, Jamal Zougam, faz parte de um grupo de cinco suspeitos detidos sábado.
Os investigadores, segundo o diário «El Pais», acreditam que a cassete de vídeo encontrada sábado «é autêntica», e admitem que outras pessoas, de diferentes nacionalidades, possam estar implicadas nos atentados de 11 de Março.

Preocupação em Washington

Nos EUA, a generalidade da imprensa considera os resultados das eleições espanholas uma derrota para a política de Bush no Iraque e a sua alegada cruzada contra o terrorismo.
Para alguns analistas, o fracasso da estratégia de Aznar é ainda considerado uma vitória dos fundamentalistas islâmicos, que teriam conseguido alterar o resultado das eleições.
«A derrota do Partido Popular retira à administração Bush um dos seus mais
sólidos aliados na Europa», escreveu o correspondente do «Washington Post», Keith
Richburg, citado pela Lusa. A reportagem, datada de Madrid, tinha o significativo título «Socialistas espanhóis derrotam partido aliado da guerra dos Estados Unidos».
Na mesma linha, o «Wall Street Journal», em reportagem de primeira página, classificava a vitória do PSOE «como uma dura derrota para as políticas do presidente Bush de combate ao terrorismo islâmico e para reconstruir o Médio Oriente», enquanto o «Journal» - o diário de maior circulação dos EUA - sublinhava a promessa do PSOE de afastar a Espanha «da política dos Estados Unidos» e alertava para as possíveis consequências do atentado de Madrid.
«A nível global, se a destruição em Madrid se provar ter sido obra de terroristas
muçulmanos, isso poderá significar que radicais islamitas afectaram o resultado de
eleições numa das grandes democracias ocidentais», escreve o «Journal» na peça assinada pelos seus correspondentes em Londres, Madrid, Berlim e Washington, intitulada «Consequências políticas das bombas atingem EUA e Europa».

O exemplo

No circunspecto «New York Times», o analista David Senger, lembra que Bush apontou várias vezes Aznar como «o exemplo corajoso de um líder que ignorava sondagens - 90 por cento dos espanhóis opuseram-se à guerra - e que
actuava de acordo com os melhores interesses da Espanha».
Segundo Senger, «a administração Bush tem agora de combater a percepção, correcta ou não, de que actos de terror contra os aliados da América podem levar essas nações a repensar se é sensato serem vistos demasiado próximos de Bush».
Sintomaticamente, o facto de o governo espanhol ter mentido ao eleitorado quanto aos responsáveis pelos atentados e ter usado toda a sua influência para manipular a informação não parece justificar quaisquer reflexões.
Entretanto, o presidente norte-americano, George W. Bush, apressou-se a felicitar o dirigente do partido socialista espanhol, José Luis Rodriguez Zapatero, pela sua vitória eleitoral. Segundo o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, Bush e Zapatero «manifestaram vontade em trabalhar juntos, particularmente na luta contra o terrorismo», apesar deste último ter prometido retirar do Iraque os cerca de 1300 soldados espanhóis ali estacionados, após a transferência de poder para os iraquianos, prevista para 30 de Junho.

Censura e desinformação para esconder a verdade

A Comissão de Trabalhadores (CT) da agência noticiosa espanhola EFE decidiu no início da semana, por unanimidade, exigir a demissão do director de informação, Miguel Platon, «devido ao regime de censura e manipulação impostos depois dos atentados» de 11 de Março em Madrid.
Segundo um comunicado divulgado pela CT, Platon impôs «um regime de manipulação e de censura prévia na empresa, visando favorecer o Partido Popular (PP) nas eleições» de domingo último.
O documento garante que «a partir dos atentados, o presidente da EFE, Miguel Angel Gonzalo, e o director de informação ordenaram a censura prévia a tudo o relacionado com a investigação policial» em curso, tendo proibido «a divulgação de informações obtidas através de fontes próprias dos redactores e que apontassem para terrorismo radical islâmico».
A CT da EFE considera que Platon, em funções desde 1997, «deve abandonar imediatamente a empresa pública, antes de ser substituído por outro director de informação nomeado pelo novo governo saído das eleições», sublinhando que «depois de tantas vilanias, a sua presença na empresa é um insulto aos empregados, aos milhares de clientes, e aos cidadãos, com direito à verdade, segundo a Constituição».
Platon rejeita as acusações, garantindo que as alegações da CT «não correspondem à realidade». Por seu turno, a porta-voz da empresa, Ana de Osma, limitou-se a declarar que «a informação divulgada pela agência veio sempre de fontes oficiais».
Também o director de informação da RTVE, Alfredo Urdaci, foi acusado por cerca de 60 trabalhadores de «manipulação informativa». Os profissionais da televisão pública espanhola exigem a demissão de Urdaci para que a empresa possa recuperar a credibilidade.
O escândalo da censura e manipulação da imprensa ganhou novo impacto com a confirmação feita na terça-feira pelo director do diário «El Periodico», Antonio Franco, de que Aznar telefonou pessoalmente a vários directores de órgãos de informação de Madrid e Barcelona, incluindo ele próprio, a garantir que a autoria dos atentados era «sem dúvida» da ETA.


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