Editorial

«As causas dessa pobreza radicam na política de direita praticada há 28 anos»

UMA DEMOCRACIA POBRE

Os números vindos a público sobre a pobreza em Portugal, falam por si: há dois milhões de pessoas vivendo abaixo do limiar da pobreza, metade das quais sofrendo graves carências alimentares – e pelo menos duzentas mil destas passando fome. A divulgação destes dados – brutais mas infelizmente ainda aquém da realidade – parece ter provocado uma onda de surpresa. Ao que parece, os discursos da bem-aventurança, comuns a todos os governantes dos sucessivos governos dos últimos 28 anos, lograram ocultar a trágica realidade. E, ocultando-a, ocultaram simultaneamente as causas dessa pobreza, que radicam, como amiúde temos sublinhado, na política de direita praticada em alternância pelo PS e pelo PSD – ora sozinhos, ora acasalados, ora com o CDS/PP atrelado. De tal forma que, como com frequência temos lembrado, pode dizer-se que, nas questões estruturantes e mais essenciais, o Primeiro Ministro Durão Barroso tem muita razão quando atribui as culpas do mau estado do País ao governo anterior, liderado por António Guterres e tanta é a sua razão quanto o era a de António Guterres quando, ao tomar posse, atribuía as culpas do mau estado do País ao governo anterior, chefiado por Cavaco Silva, o qual, por sua vez e igualmente cheio de razão, remetia as culpas desse mesmo mau estado do País para o governo antecedente... Na verdade, foram eles, e só eles, quem governou o País nos últimos 28 anos, e são eles, e só eles, os responsáveis pela situação existente – o que coloca aos portugueses e portuguesas a premência de uma reflexão sobre esta matéria, especialmente agora que, com a aproximação de mais um acto eleitoral, voltam a chover as promessas desses partidos alternantes a troco de um falso voto útil, voltam a repetir-se os apelos para que o sentido do voto do eleitorado permita que tudo fique na mesma fingindo que tudo muda.

A existência de meio milhão de desempregados; a precariedade do emprego atingindo cerca de um milhão de trabalhadores; os baixos salários agravados com brutais aumentos de preços dos bens essenciais; o constante apertar do cinto de quem trabalha e vive do seu trabalho; a acentuação da exploração; as leis laborais roubando cada vez mais direitos aos trabalhadores; a exiguidade das reformas e pensões; as contra-reformas do ensino, da saúde e da segurança social e, em consequência de tudo isto, o agravamento das condições de trabalho e de vida da imensa maioria dos portugueses; a pobreza e a fome crescentes; as desigualdades cada vez maiores; a marginalização de milhões de cidadãos humilhados e ofendidos, desprovidos de direitos que nada nem ninguém tem o direito de lhes roubar: eis o retrato do conteúdo social da democracia vigente trinta anos depois do 25 de Abril.
No extremo oposto desta trágica realidade, a outra face da mesma moeda: uma democracia económica cada vez menos democracia porque cada vez mais cheia de desigualdades, com os lucros fabulosos – e sempre a crescer - dos grandes grupos económicos e financeiros, com a subordinação do poder político ao poder económico.
E, como sempre acontece nestas situações, multiplicam-se as machadadas no conteúdo político da democracia, limitando-o, empobrecendo-o, nalguns casos recorrendo a práticas, métodos e caminhos tirados do velho baú do antigamente. E sempre, sempre, ofendendo a inteligência e a sensibilidade dos cidadãos, empurrando-os para a categoria de seres amorfos, de espectadores passivos da realidade, transformando-os em objectos votantes devidamente programados ao sabor dos interesses do sistema, fechando as portas à participação assumida e consciente sem a qual a democracia não passa de uma mascarada. E sempre, sempre, levando por diante uma política externa servil, rastejante, seja cumprindo os ditames dos grandes e dos poderosos da União Europeia, seja servindo os interesses expansionistas e hegemónicos do imperialismo norte-americano.

São muitas e complexas e difíceis, as tarefas que esta situação coloca aos comunistas, bem como a todos os homens, mulheres e jovens de esquerda e aos que, sendo vítimas das consequências da política de direita, anseiam por lhe pôr termo. A luta contra essa política e por uma mudança efectiva de política, obriga à mobilização de todas as forças e esforços, à convocação de todas as energias, capacidades e disponibilidades. Para os militantes comunistas, trata-se de, simultaneamente com a implementação das medidas visando o reforço do Partido, dinamizar e ampliar a luta contra a política do Governo e travar, com energia, confiança e determinação, a importante batalha eleitoral de 13 de Junho. A campanha de contactos em curso – através da qual, contactando todos os inscritos no Partido, ficaremos a saber, com rigor, quantos somos, quem somos, onde estamos, quais as disponibilidades militantes de cada um – reveste-se de importância maior e, levada a cabo, traduzir-se-á num significativo passo em frente no que respeita ao reforço da organização partidária, da intervenção do Partido junto dos trabalhadores e das populações e, em resultado disso, da sua influência na sociedade. As características específicas e o tempo de concretização desta campanha – com a jornada nacional de 29 de Março a 4 de Abril - fazem dela, complementarmente, uma importante forma de intervenção na batalha eleitoral para o Parlamento Europeu, que pode vir a revelar-se decisiva quanto aos resultados dessas eleições e ao reforço da expressão eleitoral da CDU.


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