• Miguel Inácio

«Onde estão as provas irrefutáveis das bombas no Iraque?»
Manifestações contra a ocupação do Iraque
«Pela paz, contra a guerra!»
De ambos os lados do Atlântico, nos cinco continentes, erguem-se de novo as vozes que exigem a paz e a justiça. Em Portugal, milhares de pessoas participaram, no sábado, em manifestações contra a guerra e o terrorismo e pela paz, um ano após o início da intervenção militar no Iraque.
No dia 15 de Fevereiro de 2003 realizou-se a primeira manifestação mundial contra a desumana ocupação dos EUA, e seus aliados, ao Iraque. Hoje, a solidariedade internacional é essencial para parar a guerra, exigir a retirada das tropas ocupantes e a devolução da soberania ao povo iraquiano.
Entretanto, recusando-se a aceitar a vontade imperial e a mentira amplificada, mais de dez mil pessoas, convocadas por organizações sociais, sindicais e partidos políticos, entre os quais o PCP, manifestaram-se, em Lisboa, no dia 20 de Março, entre o Largo de Camões e a Praça do Município.
Os defensores da paz contaram desta vez com um insólito e polémico episódio. O Governador Civil de Lisboa, entidade que durante o protesto foi duramente criticado, notificou, dois dias antes, os organizadores de que a manifestação teria de se afastar cem metros do edifício do Tribunal da Relação.
Porque não se alterou o trajecto, a PSP multou os promotores da iniciativa por «desobediência». Curiosamente, este «enredo», não demoveu, antes incentivou, os manifestantes, que se juntaram em mais uma jornada de luta pela paz.
Quando o jornalista do Avante! chegou ao local, e muito ainda faltava para o início da mobilização, centenas de pessoas chegavam ao Largo de Camões. Vindos de vários pontos do distrito de Lisboa e Setúbal, de metro, de autocarro, de bicicleta ou mesmo a pé, outros tantos encaminhavam-se, a cada minuto que passava. Tudo levava a crer, que esta iria ser, e foi, uma grande manifestação.

«Iraque para o povo»

Pouco passavam das três horas da tarde, já a praça, a que Luís de Camões dá nome, estava repleta. Era hora de começar o desfile. À frente da manifestação, os TOCANDAR, grupo de percussão, marcava compasso e encantava os demais até à Praça do Município. Logo atrás de si, algumas dezenas de crianças, da escola da Voz do Operário, seguravam uma faixa onde se podia ler: «Pela paz, contra a guerra!».
Em palavras de ordem musicadas ou em cartazes, esmagadoramente do PCP, as diversas organizações, anunciavam sem preconceitos os seus pontos de vista: «Durão, onde estão as provas irrefutáveis das bombas no Iraque?»; «Chega de guerra e mentiras»; «Não à ocupação do Iraque»; «Paz entre os povos, guerra ao capital»; «Iraque para o povo, fim da ocupação».
«Aznar já lá vai, outros têm d’ir, paz na terra, pôr o mundo a sorrir», foi, desta vez, o slogan mais cantado pelos manifestantes, uma clara mensagem que outra política é precisa em Portugal.
Para além dos lenços e das bandeiras palestinianas, a manifestação contou este ano com a participação da Associação de Solidariedade com Euskal Herria (País Basco). Curioso foi também o apoio dos trabalhadores, quase todos imigrantes, que laboravam na recuperação dos velhos imóveis, junto à Rua do Alecrim. Sob o olhar atento do patronato, um operário segurava um cartaz que dizia: «Paz e Trabalho».
Indiscutivelmente, o PCP e a JCP foram as força políticas mais representativas na manifestação. Carlos Carvalhas, secretário-geral, Ilda Figueiredo, deputada e cabeça de lista da CDU ao Parlamento Europeu, Bernardino Soares, presidente do Grupo Parlamentar, Albano Nunes e Rui Fernandes, membros do Secretariado do PCP, manifestaram a sua solidariedade com as vítimas da guerra.

«Fascismo, nunca mais»

No ponto de chegada da manifestação, no Largo do Município, cercado por dezenas de agentes da PSP, que anotavam tudo o que por lá passava e se passava, foram proferidos dois discursos, o primeiro pela actriz Maria do Céu Guerra, o segundo pelo dirigente da CGTP Carlos Carvalho.
Maria do Céu Guerra acusou o primeiro-ministro de Portugal de ter «atrelado» o país a uma «guerra ilegal e injusta», merecendo palmas quando definiu como «mentirosos» Durão Barroso, José Maria Aznar e George W. Bush. A actriz dedicou também algumas palavras à situação do Médio Oriente, dizendo que Israel está a praticar «terrorismo de Estado».
Carlos Carvalho deu um cunho mais político ao momento. O dirigente da CGTP insurgiu-se contra o Governo Civil de Lisboa, acusando esta instituição de tentar condicionar a manifestação. «Esta manifestação mostrou que a liberdade foi conquistada há 30 anos e está bem sólida, e que o povo de Lisboa tem apego à paz», declarou o sindicalista, ouvindo depois da assistência a palavra de ordem: «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais».

Norte e Sul também protestam

No Porto, mais de duas mil pessoas manifestaram-se contra a intervenção militar no Iraque, exigindo a retirada da GNR deste país. «Durão está na hora, Aznar já foi embora» foi a palavra de ordem mais ouvida na manifestação, que começou na Praça da Batalha com pouco mais de cem pessoas, mas que rapidamente aumentou de dimensão na descida da Rua Passos Manuel até à Avenida dos Aliados, onde terminou uma hora depois.
Os manifestantes exigiram também o fim da ocupação do Iraque e o abandono da Base das Lajes, Açores, pelas tropas norte-americanas. A manifestação foi organizada pelo Movimento pela Paz.
Em Beja, os protestos foram ensombrados por outro incidente. Aquando da inauguração da Ovibeja, que contou com a presença do ministro da Agricultura, e decorria a sessão de abertura, um grupo de pessoas, membros do Núcleo do CPPC, ostentou umas folhas onde estava escrito «GNR fora do Iraque», seguido das palavras de ordem «Paz sim, guerra não!». De imediato entraram agentes da polícia, à paisana, que retiraram as folhas e levaram os manifestantes para fora do auditório.

Inadmissível oposição

Na sexta-feira, o Governo Civil de Lisboa quis impedir a passagem da manifestação a menos de 100 metros do Tribunal da Relação de Lisboa. Tomando conhecimento de tal atitude, o PCP considerou inadmissível a oposição e os obstáculos levantados por parte do Governo Civil de Lisboa à realização da manifestação contra a guerra, pela paz, pela retirada das forças portuguesas no Iraque.
«O PCP considera que esta atitude do Governo Civil é atentatória dos direitos, liberdades e garantias fundamentais, consignadas na Constituição da República e se insere numa deriva secundária, que a pretexto de acontecimentos recentes, que todos condenamos, visa restringir direitos há 30 anos conquistados», lê-se, numa nota do PCP.
Também a JCP repudiou a intenção do Governo Civil de Lisboa criar obstáculos à realização do protesto pacifista. «Esta postura não é inédita, sendo que desde há um ano e meio, o Governo Civil de Lisboa tem, sucessivamente, tomado posições semelhantes, com a proibição da realização de várias manifestações, nomeadamente dos estudantes do ensino superior e do ensino secundário», acusam os jovens comunistas, que não abdicam dos seus direitos «e a melhor forma de os defender, é exercendo-os».
Por seu lado, o Conselho Português para a Paz e Cooperação, que condenou desde o primeiro instante tal medida, referiu que o argumento invocado «tresanda aos tempos do Salazar e Caetano».


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