• Anabela Fino

Os americanos estão a lançar bombas e tudo o que têm sobre eles
Espectro do Vietname ensombra a Casa Branca
A revolta iraquiana
«As cidades iraquianas de Sadr, Adamiya, Kufa, Falija, Shula e outras foram encerradas e estão a ser bombardeadas por mísseis e tanques das forças de ocupação norte-americanas e dos seus aliados. A população civil está a ser assassinada. A estrada de Fallujah foi fechada e as notícias que chegam do interior desta cidade indicam que nas ruas jazem corpos sem vida de muitas pessoas. Não há ambulâncias, nem água, nem electricidade. Os jornalistas estão proibidos de circular e muitas das suas câmaras foram destruídas. Tudo indica que esta situação vai manter-se nos próximos dias. Por favor, ajudem.» As palavras são de Iman Khamas, directora do Centro do Observatório da Ocupação em Bagdad, e datam de 6 de Abril. Um ano depois da invasão do Iraque, estas palavras são um retrato eloquente da «libertação» fabricada nos EUA.
O Iraque continua a ferro e fogo uma semana depois do apelo dramático de Iman Khamas.
Estima-se que o número de iraquianos mortos só em Fallujah ascenda aos 600, na maioria mulheres e crianças, enquanto as forças ocupantes terão sofrido dezenas de baixas. O número de feridos, essencialmente civis, ultrapassa o milhar. Os corpos estão a ser enterrados no estádio da cidade, nos jardins das casas, onde quer que seja, dada a impossibilidade de chegar aos cemitérios que ficam na periferia, sob ameaça dos marines norte-americanos.
Segundo testemunhas citadas pela AFP, no domingo, há ainda «dezenas de corpos que permanecem abandonados nas ruas e nas casas» porque «ninguém pode ir buscá-los devido aos atiradores americanos emboscados». As mesmas fontes classificam os ataques como «uma selvajaria nunca vista e que não poupou nem mulheres, nem velhos, nem crianças».
O tenente-coronel Brennan Byrne, da Marinha dos EUA, nega as acusações, garantindo que segundo as suas estimativas cerca de 95 por cento dos mortos eram combatentes. Diferente é a opinião de activistas das organizações humanitárias, cujos impressionantes relatos põem em causa as palavras de Bryne. A italiana Paola Gaspiroli, do Occupation Watch, citada no diário brasileiro «Vermelho» afirmou: «Estamos a ver com os nossos próprios olhos: disseram às pessoas para deixar Fallujah e agora há milhares presas no deserto. Há um longo comboio com 13 km de comprimento de pessoas que tentam chegar a Bagdad. Os americanos estão a lançar bombas e tudo o que têm sobre eles. Eles estão a disparar sobre famílias! São todos crianças, velhos e mulheres no deserto. Outros iraquianos estão a tentar ajudá-los».
Ainda no domingo, apesar do cessar-fogo anunciado pelas forças norte-americanas, o correspondente da Al Jazira na cidade reportou a ocorrência de mais 11 mortos e cerca de 50 feridos pelo fogo dos marines.

A versão americana de soberania

Os EUA responsabilizam pela violência os seguidores de Al-Sadr, jovem dirigente xiita que ao contrário do líder religioso da comunidade, Ali Sistani, não reconhece a Autoridade Provisória da Coligação (APC). Mas o facto é que foram os norte-americanos a acender o rastilho da revolta, emitindo um mandato de captura para Al-Sadr e encerrando o jornal que lhe é afecto, na tentativa de calar uma voz incómoda para os objectivos de Washington.
Na verdade, à medida que se vem aproximando a data de 30 de Junho, momento da alegada «entrega de poder» aos iraquianos, o superintendente dos EUA em Bagdad, Paul Bremer, tem intensificado a sua acção para garantir que tudo não passará de uma manobra de cosmética e que o verdadeiro poder continuará nas mãos dos americanos.
Em finais de Março, Bremer aprovou uma lei abrindo ainda mais a economia do Iraque ao capital estrangeiro, que nos termos na constituição interina o próximo governo não poderá alterar. Bremer anunciou igualmente o estabelecimento de vários mecanismos reguladores que reduzirão drasticamente o poder dos ministérios do governo iraquiano. A este respeito, «The Financial Times», citado por Naomí Klein em «La Jornada», afirmou que «os funcionários da Autoridade Provisória da Coligação disseram que o sistema regulador impediria que o ministro das Comunicações, Haider al-Abadi, um espinho cravado no pé da coligação, levasse a cabo a sua ameaça de cancelar as licenças outorgadas pela coligação aos consórcios administrados por estrangeiros para operar nas três redes de rádio móvel e da emissora nacional».
Nos EUA, a medida da «soberania» foi dada por Nathan Brown, professor de ciência política e assuntos internacionais da Universidade George Washington - citado por Robert Fisk, igualmente em «La Jornada» -, ao afirmar que a chamada APC emitiu «ordens» irrevogáveis sobre assuntos de grande transcendência que afectam o governo e o Poder Judicial.
A título de exemplo, referiu que os militares iraquianos ficarão sob as ordens do exército norte-americano até que entre em vigor uma Constituição definitiva.
O próprio Paul Bremer anunciou que o comando das novas forças armadas iraquianas ficará a cargo do tenente general Ricardo Sánchez, comandante dos EUA no Iraque. A medida foi tomada ao abrigo da resolução 1511 da ONU, que confere aos EUA a responsabilidade pela segurança no Iraque e permite a manutenção das suas forças no terreno até que «se complete o processo político» de democratização no país. Na prática, isso significa a eternização da presença norte-americana no Iraque, como confirma de resto o facto de estarem já em construção as 14 «bases duradouras» dos EUA em território iraquiano, com capacidade para albergar mais de 100 mil soldados. Embora as bases estejam a ser construídas sem mandato do governo iraquiano, o general Mark Kimmitt, director adjunto de operações militares no Iraque, refere-se à iniciativa como «um plano de como poderíamos operar no Médio Oriente».
Mas não é tudo. A APC anunciou ainda que será designado um assessor em segurança nacional - uma versão iraquiana de Condoleezza Rice -, com um mandato de cinco anos. A escolha cabe, obviamente, aos EUA, e o mandato vai muito para além do previsto para a formação de um governo democraticamente eleito.

O presente de Washington

O novo «governo interino» - não eleito - também não terá poder sobre os tribunais especiais, a cargo de quem está o julgamento dos antigos membros do partido Baas.
Acresce que os norte-americanos controlam o banco central e as normas sobre empresas, e criaram mecanismos para controlar a imprensa e a televisão, entre os quais uma Comissão de Comunicações e Meios, que será a «única responsável por outorgar licenças e regulamentar as telecomunicações, a informação e outros meios no Iraque». Ou seja, tornar-se-ão «centros duradouros» de influência norte-americana.
A APC confirmou igualmente que, depois de 30 de Junho, os 18,4 mil milhões de dólares que os EUA estão a gastar na reconstrução do Iraque serão administrados pela embaixada norte-americana no país. A verba será aplicada ao longo de cinco anos e no essencial será destinada a redesenhar a maior parte da infraestrutura básica do Iraque, incluindo os sectores chave do país, como a rede eléctrica, a distribuição de água potável, o petróleo, as comunicações, os tribunais e a polícia. Os futuros governos do Iraque, como está bom de ver, não poderão intervir nos sectores básicos da sociedade iraquiana.
Vale ainda a pena referir que, segundo o almirante na reforma David Nash, responsável pelo Gabinete de Gestão de Programas que administra os fundos, os 18,4 mil milhões de dólares são «um presente do povo norte-americano ao povo iraquiano».
A «generosidade» dos EUA vai ainda mais longe. Confirmando que na óptima de Washington nem tudo era mau na ditadura de Saddam Hussein, os novos senhores de Bagdad decidiram manter em vigor uma lei aprovada em 1987 que proíbe os funcionários públicos iraquianos de se sindicalizarem. A sindicalização é considerada ilegal e os dirigentes sindicais podem ser presos.
Aparentemente, a revolta iraquiana rebentou. Nos EUA já se fala do atoleiro de Bush e o espectro do Vietname voltou a ensombrar a Casa Branca.


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