• Francisco Mota

Na terra dos Miau
Há poucos meses tive a sorte de visitar a terra dos Miau na província de Guizhou, no sul da China. Para quem não saiba, devo informar que 97% dos 1300 milhões de chineses são «han» e que o resto se distribui por 56 nacionalidades distintas. Os Miau são cerca de 8 milhões e têm, como as outras minorias nacionais, autonomia e direitos especiais. Têm língua própria, apenas oral, porque nunca teve forma escrita. Muitas pessoas com mais de cinquenta anos, só falam miau e não entendem chinês
Da capital da região autónoma, Kaili, subimos por estradas, ao longo de rios de águas muito limpas, até algumas aldeias deitadas nas encostas de montanhas cheias de árvores. Todo o espaço está cultivado, toda a terra aproveitada, tudo muito arrumadinho, o que transforma a paisagem numa espécie de jardim de produção de alimentos.
Numa das aldeias, ao chegar, ouvi uma música profunda que vinha de oito flautas de bambu, cujos tamanhos iam dos vinte centímetros até aos dez metros. Música que os classificadores de coisas, chamariam minimalista, e que fazia vibrar recordações nunca ouvidas, mas que me pareceram que já conhecia de antes. Como a voz de um amigo que nunca vimos, mas sabemos que existe.
Ao subir à aldeia, a cada vinte metros duas mulheres colocadas estrategicamente ao longo da suave calçada em degraus, cantavam uma pequena canção - «uma ave voa no ceu» - e ofereciam ao visitante uma pequena malga com aguardente de arroz feita em casa «miixio» (não confundir com as famosas e caras aguardentes também de arroz, que se chamam «baixio», cuja marca suprema é a Moutai e que identifica nos restaurantes de Pequim ou Shanghai os novos ricos chineses).
A cada vinte metros, miixio, no almoço cada três minutos, miixio, sempre com a «ave a voar no céu» antes de cada malguinha. Com este panorama, amigos, a hospitalidade, transforma-se rapidamente em amizade eterna e etílica. É preciso tomar medidas restritivas, convencer os amigos Miau que queremos provar a sua comida em condições subjectivas aceitáveis. Assim fiz. E ainda bem, porque ainda sinto o sabor de sopa ácida de peixe: coze-se o arroz e depois espera-se que a água resultante fermente levemente. Nessa água coze-se peixe do rio e tudo isto se coloca sobre um pequeno fogareiro que está no centro da mesa e que mantém o caldo sempre em ebulição. Vão-se deitando punhados de folhas de rabanetes ou espinafres que se juntam nas tigelas de cada pessoa ao caldo e ao peixe, depois de ferverem não mais de cinco ou dez segundos.
Alguns dos meus amigos Miau já tinham estado em Portugal e numa das refeições apareceu na mesa um pratinho de rodelas de salpicão. Explicaram-me que «para me honrar» tinham guardado um para me oferecer e assim recordar o nosso encontro por terras de Trás-os-Montes. Provei e, «à fé de quem sou!», teria declarado que era um salpicão legítimo. As caras de gozo dos meus anfitriões evitaram-me a vergonha. Era realmente um enchido de porco, em que a carne fica a marinar em aguardente de arroz, ervas e especiarias locais. Depois de fumado produz um «salpicão» que não é imitação de nada. É um produto que pessoas separadas por milhares de quilómetros, usando também o porco, mas com condimentos totalmente diferentes, chegam a sabores muito parecidos.
Também comi um peixe do tamanho de uma sardinha, muito saboroso e com poucas espinhas. Perguntei se era de rio e disseram-me que era criado nos tanques onde cresce o arroz, que sempre estão cheios de água. Quando o arroz é colhido os tanques deixam de ter água, o peixe é adulto, as crias são colocadas em poços durante seis meses e, quando se volta a plantar o arroz, introduzem os jovens peixes nos tanques e repete-se o ciclo vital. Ao ouvir isto emocionei-me porque me lembrei que no início de Reforma Agrária em Portugal, o grande visionário Júlio Martins propôs que se fizesse isto nos vales do Sado e do Sorraia e toda a gente que o ouvia, eu incluído, lhe parecia uma ideia estrambótica, no mínimo. Já nos deixas-te há muitos anos, mas nunca é tarde para dizer-te, amigo, que tinhas razão, e esses peixes existem e são bons. Os meus amigos Miau perceberam essa emoção, respeitaram-na e não me perguntaram nada.
Ao voltar à cidade, depois de ver uma luta de búfalos (animal sagrado, porque companheiro de trabalho fundamental) muito parecida as chegas de bois do Barroso, ao voltar à cidade, dizia, deixando para trás aquela paz tão grande, aquela água tão limpa, aquela gente tão unida, aquela terra tão prenhe de vida, aquele lindo tão verde, pensei, não sei por quê, que o egoísmo acaba sempre na solidão e na tristeza e a amizade, na união e no amor.
Que terão todas estas coisas a ver umas com as outras? Vou beber um miixio e pensar.


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