• Hugo Janeiro

• «Verão quente» de 1975
Das provocações à lei da bomba
O período do «Verão quente» de 1975 foi o mais conturbado da breve mas fascinante história da Revolução de Abril. Derrotadas três tentativas golpistas cujo fim era impedir a concretização do Programa do MFA, travar a aplicação concreta das conquistas revolucionárias e aplicar um novo regime ditatorial de cariz fascizante, a reacção põe em marcha uma espécie de «solução final».
Os actores voltaram a ser, no fundamental, os mesmos, com as mesmas cumplicidades e apoios semelhantes.
A metodologia da acção é que se tornou mais violenta, tanto no campo das provocações políticas como no das organizações terroristas que julgaram poder derrotar a Revolução à lei da bomba e, sobretudo, os trabalhadores e o seu Partido.
Os comunistas foram, assim como alguns dos seus aliados políticos, os principais alvos da acção dos bombistas que, até ao desfecho do 25 de Novembro, tudo fizeram para se vingarem dos mais coerentes revolucionários de Abril.

O PS abre o confronto

Ainda mal refeito das derrotas dos golpes anteriores, nos quais foi indisfarsavelmente cúmplice, mas revigorado por uma vitória nas eleições para a Assembleia Constituinte, o PS atira-se com unhas e dentes à Revolução.
Na semana seguinte ao primeiro sufrágio em liberdade, a 25 de Abril de 1975, Mário Soares e os seus amigos resolveram entrar em confronto aberto, se possível físico, com o PCP, o movimento sindical unitário e o primeiro-ministro, Vasco Gonçalves.
Aproveitando o comício de comemoração do Dia Internacional dos Trabalhadores, organizado pela Intersindical, Soares deslocou-se juntamente com a sua segurança fandanga ao Estádio 1.º de Maio e procurou irromper pelo evento à estalada e ao pontapé em clara provocação aos trabalhadores e a Vasco Gonçalves, que se preparava para intervir.
A intenção era anunciar a saída do IV Governo - previamente congeminada com o PPD que também pertencia ao executivo - e acirrar com um mediatismo incomparável os ódios mais primários contra os comunistas e os «gonçalvistas».
Depois desta, muitas outras iniciativas do género se sucederam, como o «caso do jornal República», dominado pelos socialistas, e o apedrejamento do Patriarcado, em Lisboa, levado a cabo por grupos esquerdistas. Estas iniciativas foram mentirosamente atribuídas ao PCP, claro está, principal alvo da reacção com a qual Soares estava amplamente comprometido.
O percurso estava já traçado e Soares, ministro dos Negócios Estrangeiro, aprofunda os laços de amizade com Frank Carlucci, embaixador dos EUA em Portugal, e com os sectores mais reaccionários da direita.
No início do mês de Julho, PS e PPD abandonam o IV Governo Provisório e, dois dias depois da renúncia dos seus ministros, é destruído o centro de Trabalho do PCP em Rio Maior, incidente que se veria repetido diversas vezes.
Fruto de oportunismo de direita e de «esquerda», os militares progressistas apresentam-se fragmentados.
No MFA forma-se um «triunvirato» com Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho, o qual, após ter declarado o seu apoio ao V Governo, que toma posse a 8 de Agosto, dá o dito pelo não dito e afasta-se dos sectores revolucionários.
O pronunciamento de Tancos, a 2 de Setembro, dá a estocada final nos Governos de Vasco Gonçalves e deixa a porta aberta ao avanço do 25 de Novembro.

O terrorismo bombista

Mesmo exilado em consequência do golpe de 11 de Março, Spínola e os fascistas que o acompanham não desistem de tentar cobrir Portugal sob o manto negro de uma nova ditadura.
Contando com fortes apoios no seio do franquismo e apoiados pelos serviços secretos ocidentais, os spinolistas criam o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), responsável directo pelos assaltos, incêndios e pilhagens contra muitos Centros de Trabalho do PCP.
Após o abandono do IV Governo por parte dos ministros do PS e do PPD, em Julho, o clima político está no ponto para uma ofensiva bombista em larga escala.
Só nesse mês são realizados 86 actos terroristas, entre os quais se contam mais de trinta assaltos contra sedes do Partido, para além de uma vintena de ataques rechaçados pelos militantes.
No mês seguinte, sucedendo à tomada de posse do V Governo Provisório, amplamente contestado por PS, PSD e CDS, são assaltados e destruídos 55 Centros de Trabalho do PCP, 25 do MDP-CDE e dezenas de incêndios e atentados à bomba.
Irmanado ao MDLP e às bases locais do CDS, PS e PPD, surge no norte do País o Movimento da Maria da Fonte, animado por Paradela de Abreu e pelo Cónego Melo, operacional especialmente destacado pelo arcebispado de Braga para a missão.
Os dois instigam activamente as acções bombistas, as vandalizações e os assaltos, contando para tal com a preciosa mobilização paroquial de alguma igreja católica nortenha que leva os fiéis a aplaudir tão tristes acontecimentos.
Após o 25 de Novembro as actividades bombistas não cessaram, registando-se ainda mais seis dezenas de atentados em 1976 e o assassinato do padre Max em Abril desse ano, quando a Revolução completava dois anos.

A CIA sempre presente

Com a Revolução de Abril em marcha, os EUA entenderam ser necessário fazer deslocar para Portugal um treinado agente dos seus serviços secretos por forma a defender os interesses do capitalismo.
Frank Carlucci, com tarimba na matéria e provas dadas em África, nos anos 60, é o operacional escolhido pelos norte-americanos para a missão, tendo sido nomeado embaixador daquele país em Lisboa. A avaliação do seu sucesso mede-se pelo facto de, posteriormente, ter sido nomeado subdirector da CIA.
São conhecidas as ligações estreitas de Carlucci com vários elementos da contra-revolução, com destaque para Mário Soares que, por diversas ocasiões, durante o período do PREC, se deslocou à representação diplomática americana em Portugal para acertar agulhas em relação ao combate ao PCP e ao processo de transformação social revolucionário.
A CIA manteve laços com todos os intervenientes na contra-revolução. Desde o PPD ao CDS, dos spinolistas às «redes bombistas», todos mereceram da parte de Carlucci o especial carinho logístico e financeiro, apoiando os golpes de 28 de Setembro, 11 de Março e 25 de Novembro.
Porém, sabendo que nenhum dos partidos e movimentos assumidamente de direita estavam em condições de travar politicamente a marcha da Revolução, Carlucci entendeu que Soares e o PS eram os que mais habilmente se apresentavam como estando ao lado do povo, mas nas costas deste, em conspirações e alianças com a direita fascizante, podiam minar o movimento popular e sindical e travar as conquistas revolucionárias animadas, sobretudo, pelos comunistas.
A relação entre Soares e Carlucci durou até aos dias de hoje e, há oito anos, num espectáculo de entretenimento promovido por um canal de televisão privado português, Soares foi agraciado com o prémio «carreira». Na entrega, o ex-Presidente da República mereceu rasgados elogios de Carlucci, que lhe entregou em mão a coroa e o abraçou longamente.


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