• Vitor Dias
    Membro da Comissão Política do PCP

«As verdadeiras feridas de que importa falar são as da política deste governo»
Feridas e «golpe de Estado»
Não sabemos se por mera dedução jornalística ou por «sopro» de fontes governamentais, a verdade é que, no «Público» de 15/4, a um vasto programa político-demagógico do Primeiro-Ministro era atribuído o propósito de contribuir para «cicatrizar as feridas da Revolução». Daí, talvez valha a pena meditar um pouco na ideia.
Comecemos desde logo por registar que, como sabemos de uma longa experiência, mais uma vez se confirma que, segundo os padrões do discurso dominante, fala-se sempre muitíssimo mais das «feridas» abertas ou deixadas pelas revoluções do que das «feridas» abertas ou deixadas pelas ditaduras que historicamente as antecederam ou pelas contra-revoluções que se lhe seguiram, ou ainda pelas ditas «normalizações» em que desembocaram.
E também é longamente sabido que faz parte dos critérios dominantes associar preferencialmente às revoluções não apenas a ideia das «feridas» mas também as ideias ou imagens de «convulsões», «instabilidade», «bagunça», «agitação» e «confrontações».
Como se calculará, não nos passa pela cabeça contestar que, normalmente, há de tudo isso (e às vezes com aspectos bem mais dramáticos e até sangrentos) nas revoluções.
Acontece apenas que jamais aceitaremos o truque dos que tentam fazer crer que as revoluções são apenas isso e, no caso concreto da nossa revolução de Abril, jamais deixaremos de travar o combate para, em nome da memória e da verdade, recuperar a força histórica, a beleza humana e a grandeza democrática de centenas e centenas de actos, decisões, momentos, atitudes e realizações que fazem a identidade principal da revolução portuguesa. E, naturalmente, a anos-luz dos clichés redutores e preconceituosos sistematicamente difundidos e zelosamente acarinhados.
De qualquer forma, vinda das bandas de Durão Barroso, do PSD ou do CDS-PP, a ideia de «feridas da Revolução», no essencial, só pode significar mais exactamente as concepções e os interesses que efectivamente foram atingidos, durante os anos de 1974 e de 1975, pelo curso libertador e emancipador no plano económico, social e político da revolução democrática.
E, deste ponto de vista, não há assim tanta razão para Durão Barroso se inquietar com esta versão classista das «feridas da Revolução» porque a acção de sucessivos governos, no quadro da tão gabada «evolução», já tratou de boa parte desse caderno de encargos, designadamente ao liquidar as transformações económicas e ao golpear transformações sociais que mais doeram a quem sempre julgou que não haveria nenhum «dia das surpresas».

Impedir novos retrocessos

Mas também se pode considerar que da parte sobrante desse caderno de encargos está determinadamente tratando o actual Governo PSD-CDS, investindo agressivamente contra o património (ainda valioso e significativo) de mudanças, avanços e conquistas sociais resultantes do processo da Revolução de Abril.
E é assim que chegamos às únicas verdadeiras «feridas» de que hoje importa falar e que importa conter, sarar e cicatrizar: as feridas provocadas no tecido social e nos direitos e condições de vida dos portugueses pela política deste governo; as feridas provocadas pela sua política de privatização aos sistemas públicos de saúde, de segurança social e de ensino; as feridas da sua política de guerra aberta ao mundo do trabalho, à sua dignidade e aos seus direitos; as feridas da entrega dos sectores essenciais da economia ao capital estrangeiro, como consequência inevitável de uma política de privatizações que, no fim do filme, deixará Portugal com um sector público mais pequeno do que no tempo de Salazar.
E é para sarar estas e outras feridas, leia-se anular malfeitorias sem conta e inadmissíveis retrocessos, e impedir mais dois anos delas, que é inteiramente justa a aspiração e a luta para que se criem condições para que este Governo se vá embora tão cedo quanto possível, uma e outra simbolizadas pela ideia do voto na CDU como «cartão vermelho» já nas eleições de 13 de Junho.
É certo que o novo líder parlamentar do PS, António José Seguro, acha espantosamente (ou talvez não) que a interrupção do mandato deste governo pelos mecanismos e recursos rigorosamente previstos na Constituição (e cuja utilização o PSD já reclamou no passado e, graças a eles, também já chegou ao Governo) «seria fazer uma espécie de golpe de Estado» («DN» de 19/4).
Mas, quanto a isto, porque estamos à beira do 25 de Abril, sejamos generosos e delicados e digamos apenas que das duas uma: ou A.J. Seguro julgou que o Governo actual ainda era do PS ou julgou que tinha acabado de ser eleito líder parlamentar do PSD!


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