• Isabel Araújo Branco

Encontro Internacional de Juventudes Comunistas
Na vanguarda das lutas
«Soberania, Democracia e Direitos da Juventude» foi o tema de um Encontro Internacional de Juventudes Comunistas que se realizou, em Cacilhas, este fim-de-semana. Temas como a Constituição Europeia, o desemprego, a contestação à guerra no Iraque, as eleições para o Parlamento Europeu e o 25 de Abril foram debatidos pelos participantes.
A União Europeia não se pode sobrepor à soberania dos Estados que a integram. Esta foi uma das conclusões dos participantes do Encontro Internacional de Juventudes Comunistas, vindos de dez países: Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia, Alemanha, Suécia, Noruega, Dinamarca, República Checa e Turquia. A iniciativa contou ainda com a presença de representantes da Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD).
«Os países são diferentes, por isso as lutas têm de ser diferentes. As situações nacionais específicas têm de condicionar as diferentes políticas e as respostas ao imperialismo. É claro que não se exclui a cooperação e o diálogo internacional», afirmou Jens Andersen, membro da Juventude Comunista da Dinamarca, na manhã de sexta-feira, no primeiro dia do encontro.
«A Constituição Europeia terá um impacto significativo em todos os países ao estabelecer bases legislativas comuns e passando por cima de todas as constituições nacionais. A União Europeia não se tornou liberal agora, sempre o foi. Com a Constituição, esta ideologia ganha um estatuto de protecção constitucional. Esta lei reflecte os interesses do capital e priva os povos da liberdade de decidir o que quer fazer nos seus próprios países», acrescentou Jens Andersen.
Nos países nórdicos, os partidos comunistas mantêm uma luta comum contra a política liberal europeia e a Constituição Europeia, defendendo nuns países a realização de referendo e, onde este já está assegurado, apoiando o «não». Porque o não à Constituição Europeia significa o sim às constituições nacionais.

Proteger a burguesia

As diferentes organizações têm diferentes perspectivas sobre a União Europeia. A Juventude Comunista da Grécia, por exemplo, defende que o seu país abandone a União. «A desobediência, a ruptura e a saída da UE são a única forma de defender os nossos direitos e lutar contra estas política. Só assim podemos caminhar para uma nova Europa, de igualdade, paz e segurança, uma Europa sem exércitos e sem repressão», afirmou Kyrillos Papastaurou.
Os cidadãos gregos nunca foram consultados sobre as diversas fases de adesão à UE, desde o Tratado de Maastricht à introdução do euro. «As acções de propaganda da moeda única prometiam o aumento dos salários, mas os problemas multiplicaram-se. Os dois anos que passaram são suficientes para desacreditar falsas esperanças. Os artigos de primeira necessidade sofreram grandes aumentos e há quem tenha de pagar a alimentação a crédito», contou Papastaurou.
«Esta política serve para proteger a burguesia dos movimentos populares. Nas próximas eleições, temos de votar contra a política da UE, contra as forças do capitalismo europeu e desmistificar a União. Os jovens têm de acreditar na sua força e inspirar-se numa política completamente diferente. Não é fácil, isso exige a intensificação da luta e o reforço das nossas propostas políticas, indo ao encontro das necessidades dos jovens e da luta de classes», referiu.
O poder da União Europeia é tão grande que interferem noutros Estados. É o caso da Turquia, onde a legislação está a ser alterada para que o país integre a UE. Também à população turca interessa o resultado do escrutínio para o Parlamento Europeu.
«As próximas eleições são muito importantes para estabelecer novas políticas. A classe operária é muito explorada e o desemprego e a pobreza aumentam, graças à política europeia de desigualdades», afirmou Ozgur Genc, da Juventude Comunista da Turquia.
Para este jovem, o exército europeu funcionará como mediador político e militar e servirá para reforças as praças fortes da Nato: «Terá, sem dúvida, um cariz policial contra as lutas sociais de outros países e irá contra a sua independência. Temos de lutar para reforçar a alternativa socialista em todos os países.»

Na vanguarda

Os jovens comunistas de todo o mundo são muito importantes na luta pelas democracias. «Estamos um passo à frente, porque estudamos Marx e Lenine e vemos as relações entre as causas e os efeitos. Isso aterroriza quem está no poder, também porque propomos uma alternativa», considera Jennie Larsson.
A representante da Juventude Comunista da Suécia referiu a necessidade de tornar reais para todos os europeus direitos como a educação. «Temos direito a trabalhar na cidade da nossa residência, a rendas de habitação baixas, a tempo livre para usufruir a cultura e a paz», declarou, acrescentando que a guerra pode pôr em causa todos os direitos conquistados.
A juventude tem sempre um papel de vanguarda. Por isso, Miriam Moralez, dirigente da Federação Mundial da Juventude Democrática, defendeu a mobilização de todas as juventudes comunistas e de esquerda para um bloco que faça frente ao novo cenário internacional. «O 25 de Abril é um exemplo do que acontece quando os jovens se juntam e lutam», concluiu.

Terrorismo e liberdades

As acções terroristas e as suas consequências constituem um dos grandes temas da actualidade e não podiam ficar de fora do debate. Vesselina Vateva, representante da União das Juventudes Comunistas de Espanha, sabe o que é viver num país atacado e onde o medo é utilizado pelos partidos do poder em seu benefício.
«Depois dos atentados de 11 de Março, o governo usou a justificação da segurança rigorosa para restringir direitos e liberdades. Vivia-se um ambiente de terror e uma sociedade de medo abdica de tudo em favor da segurança», salientou.
A luta é mais necessária do que nunca para pôr fim «à espiral de barbárie que pretende destruir as conquistas sociais mais elementares. Só falamos de consumismo e depressão, o sentimento é de derrota. Há que construir instrumentos para os projectos alternativos a esta sociedade. O socialismo é a única forma de fugir à barbárie», defendeu.
Björn, da Juventude Comunista da Alemanha, lembrou que a União Europeia e os Estados Unidos têm interesses comuns, como controlar as lutas contra o imperialismo. «Os EUA querem a supremacia e agridem constantemente outros Estados, enquanto a UE quer transformar-se em potência militarista», analisou.
O jovem alemão lembrou que recentemente Javier Solana, alto representante da UE para a Segurança, anunciou que a guerra preventiva é o cerne da estratégia militar da Europa. «Os países que não seguem o imperialismo são considerados inimigos e os países da União são obrigados a seguir este plano», precisou.
Nos últimos dois anos, em quase todos os países as liberdades foram restringidas sob o pretexto da segurança. A Dinamarca não foi excepção. «A nova legislação amarra-nos as mãos nas greves, nas manifestações e no trabalho de solidariedade internacional. As FARC (Colômbia) e a Frente de Libertação da Palestina foram consideradas terroristas pelos EUA. Certamente que hoje os movimentos revolucionários portugueses de 1974 também seria classificados como terroristas», afirmou Jens Andersen, da Juventude Comunista da Dinamarca.
Também em Portugal os ataques terroristas serviram de pretexto para a escalada de violência e a retirada de direitos. «Verifica-se a tentativa de criminalizar os que têm posturas anti-imperialistas, incluindo organizações progressistas e democráticas», sustentou Vasco Cardoso, dirigente da JCP, que referiu a retirada de material da organização e a intimidação pelas forças de segurança aos jovens comunistas que participam na distribuição de documentos à porta de escolas e empresas. Este ano, vários militantes foram ilegalmente levados para esquadras por pintarem murais da JCP.
«O Governo passa a ideia da existência de um inimigo interno e a necessidade do Estado se precaver, num processo com traços de descaracterização do regime democrático. Os media aumentam a paranóia securitária e empolam o grande inimigo para legitimar as participações criminosas do Estado português na ocupação do Iraque», acrescentou Vasco Cardoso.

Crise perigosa

«A crise que a humanidade enfrenta é mais complexa, profunda e perigosa do que qualquer das anteriores. Um sistema com ambição planetária ameaça a sua sobrevivência», considerou o jornalista Miguel Urbano Rodrigues, no sábado, acrescentando que «a grande maioria da humanidade rejeita o projecto de sociedade que pretendem impor-lhe».
«A tarefa prioritária, inadiável, consiste em somar o máximo de forças para combater o inimigo, sem lhe dar descanso. Na impossibilidade de um plano mundial de luta, as forças progressistas em cada continente, em cada país, sempre que possível, golpearão tanto mais profundamente o sistema de poder aí dominante quanto maior for a sua capacidade para articular e executar acções concretas, de âmbito nacional ou internacional, que contribuam para lhe inviabilizar ou dificultar os seus planos», sustentou.
Admitindo que a frente prioritária do capitalismo é a Ásia, Miguel Urbano Rodrigues considera que é fundamental as forças progressistas dinamizarem a luta contra a guerra. «O momento é muito favorável. A insurreição do povo iraquiano desorientou Washington, que perdeu a iniciativa, passando à defensiva no terreno político, sofrendo rudes golpes no militar», sublinhou.

Falar sobre o 25 de Abril é tarefa prioritária

Transmitir o que foi o 25 de Abril faz com que as novas gerações saibam que também elas podem construir uma nova sociedade e implementar novos direitos, afirmou Miriam Moralez, representante da Federação Mundial da Juventude Democrática. «Os jovens hoje não são iguais aos jovens de há 30 anos, mas existem outros aspectos reivindicativos por que podem lutar», referiu.
No entanto, esclarecer os jovens sobre a Revolução dos Cravos não é uma tarefa fácil, devido às tentativas de branquear a ditadura e de escamotear os avanços do 25 de Abril, como afirmou Vasco Cardoso, da JCP.
«As actuais leis e ideologias são uma forma de atacar a revolução. Uns poucos grupos económicos detêm a maioria dos media e a sua ideologia está presente em todos os programas escolares. O Governo até chama evolução e não revolução ao 25 de Abril», explicou.
Maria da Piedade Morgadinho, membro da Comissão Central de Controlo do PCP, falou sobre a tentativa de falsificar o papel dos vários partidos e organizações no período revolucionário: «Procura-se justificar a política actual do Governo de direita como se fosse o curso normal e inevitável da nossa história. Daí ser muito importante explicar o que foi a ditadura e a revolução.»
Um dos elementos que prejudicou fortemente a revolução foi o anti-comunismo, promovido pela direita, pelos esquerdistas e pelo PS, considerou Piedade Morgadinho. «Se houvesse união no seio do MFA, o PS não colaborasse com os sectores reaccionários e o imperialismo não tivesse interferido, teríamos consolidado a revolução. O 25 de Abril foi uma revolução inacabada. Algumas conquistas foram destruídas, outras permanecem e influenciam a vida democrática», afirmou a dirigente do PCP.
A revolução criou raízes na sociedade portuguesa que «se projectam na esperança de uma transformação social. A nossa luta não se detém, tem altos e baixos, mas não pára», garantiu.

Reforço nacional dos partidos tem a primazia

«Um Partido da Esquerda Europeu não reconhece as dialécticas e idiossincrasias de cada organização e de cada país. Além disso, não reconhece o processo de mudança em cada Estado e aceita a actual base europeia. São necessários os partidos nacionais, organizações que emanam a classe operária e têm por base a ideologia marxista-leninista», defendeu Jens Andersen, da Juventude Comunista da Dinamarca.
José Casanova, membro da Comissão Política do PCP, considerou que tudo o que fosse feito para atenuar a força nacional dos partidos comunistas seria muito negativo. O dirigente comunista declarou que não há alternativa aos partidos comunistas para a classe operária e que as estruturas devem ultrapassar as dificuldades no plano nacional.
«A ideia de que a resposta à globalização deve ser dada pela globalização é fascinante mas perigosa, porque pode desviar a responsabilidade dos partidos de serem a vanguarda na luta de cada país. A prioridade deve ser o reforço dos partidos comunistas no plano nacional e de planos comuns, bem como o alargamento do esforço de convergência a todos os sectores possíveis, sem esquecer que os partidos comunistas são diferentes de todas as outras organizações», sublinhou.
José Casanova disse que os comunistas têm pela frente um tempo de lutas complexas e difíceis, mas «quem quer transformar o mundo não pode contar com facilidades. Se o objectivo fosse fácil, já o teríamos alcançado. Não podemos ceder à impaciência. As derrotas são inevitáveis numa luta com a dimensão da nossa, mas a verdadeira derrota seria desistirmos.»




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