• Anabela Fino

Tortura no Iraque não é caso isolado
O pior ainda está por revelar
Os EUA são «um país dedicado que acredita na liberdade, que se preocupa com todos os indivíduos e que enviou tropas para o Iraque para promover a liberdade». As palavras são do presidente norte-americano, George W. Bush, que assim procurou responder à indignação suscitada nos EUA e no mundo pela denúncia das bestialidades cometidas contra prisioneiros iraquianos. Pouco habituado a pedir desculpas, Bush garantiu que considera tais práticas «condenáveis», mas não se coibiu de tentar dourar a pílula afirmando que «os iraquianos devem compreender que numa democracia nem tudo é perfeito e que se cometem erros», mas que descansassem as ignaras criaturas do vasto mundo pois «numa democracia os erros são alvo de investigação e os seus autores levados perante a justiça».
O discurso de Bush, de tão oco e tardio, revelou-se insuficiente para pôr água na fervura no caldeirão do escândalo. Caída a máscara dos «libertadores» e rebentado o dique do silêncio conivente nos meios de comunicação social, as denúncias sucedem-se em catadupa, mostrando de forma inequívoca que o ocorrido na prisão de Abu Ghraib, em Bagdad, não é um fenómeno isolado, antes retrata com toda a crueza o carácter da intervenção dos EUA no mundo.
Ao contrário do que a Casa Branca procurou fazer crer ao manifestar o seu «choque» perante as atrocidades cometidas no Iraque, o sucedido era do conhecimento das altas patentes militares há vários meses, de tal forma que foi mesmo ordenado um inquérito cujas conclusões foram entregues ao Pentágono e ao secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, em Janeiro.
Da autoria do Major General Antonio M. Taguba, o relatório – que pode ser agora consultado em www.msnbc.msn.com – documenta numerosos casos de «abusos obviamente criminosos e sádicos» em várias prisões a cargo das forças norte-americanas, evidenciando uma prática generalizada e não um caso isolado de abusos.
Segundo a investigação, efectuada em segredo, soldados norte-americanos, seguranças privados e agentes da CIA levaram a cabo, de forma sistemática, «actos atrozes e violações do direito internacional», como parte de uma política perfeitamente planificada, e que no caso do Afeganistão tem início nos finais de 2001.
O Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) confirmou esta realidade ao revelar que sabe há muito que «coisas piores do que aquelas mostradas nas fotos» têm ocorrido no presídio de Abu Ghraib.
«Nós não precisamos das fotos para saber o que está a ocorrer e para saber que não é aceitável», afirmou a semana passada em Genebra a porta-voz do CICV, Antonella Notari, sublinhando que o CICV enviou vários relatórios às autoridades americanas e britânicas no Iraque, bem como aos seus superiores em Washington e Londres.
«As fotos divulgadas são certamente chocantes, mas os nossos relatórios descrevem coisas piores», afirmou Notari, que no entanto recusa divulgar pormenores pois esse é «o preço a pagar» para poder efectuar visitas «inesperadas e regulares» à prisão de Abu Ghraib a cada cinco ou seis semanas.
A tradicional discrição do CICV foi parcialmente quebrada no caso dos presos da base naval de Guantanamo, onde a persistente recusa dos EUA em respeitar as Convenções de Genebra sobre prisioneiros de guerra levou a Cruz Vermelha, pela primeira vez, a condenar publicamente a «ilegalidade» da detenção arbitrária dos 600 prisioneiros ali retidos.

Tortura e mentira

Parte do que se pode classificar de «pior» veio a ser revelado pelo general Donald Ryder, responsável pela aplicação de penas do sistema penitenciário, que reconheceu a morte de 25 presos na sequência de abusos. Segundo Ryder, as mortes foram conhecidas na sequência da investigação de 35 casos em prisões no Afeganistão e no Iraque, e incluem dois assassinatos – um cometido por um soldado norte-americano e outro por um «civil» ao serviço da CIA –, um preso abatido por tentar fugir, 10 casos ainda sob investigação e 12 mortes por causa não determinada.
Também a especialista para o Iraque da Amnistia Internacional/EUA, Beth Ann Toupin, confirmou em entrevista ao jornal La Jornada que houve «desde o início da guerra um fluxo contínuo de informações sobre os maus tratos e torturas infligidos pelas (forças) dos EUA e do Reino Unido».
Embora não afirmando que a tortura é parte integrante da política norte-americana no Iraque, Toupin não hesita em declarar que «este abuso sistemático dos presos foi realizado intencionalmente por vários membros da força da guarda da polícia militar», garantindo que «as acusações de abuso foram sustentadas com declarações detalhadas de testemunhas e pela descoberta de provas fotográficas».
A organização Human Rights Watch (HRW), por seu turno, faz notar que as imagens revelam que «os soldados sentiam que não tinham nada a esconder aos seus superiores», e admite mesmo que as forças norte-americanos no Iraque tenham cometido «crimes de guerra».
Em carta enviada à administração Bush, o director executivo da HRW, Kenneth Roth, afirma que o comportamento despudorado dos soldados em Abu Gharib, aliado com informações de outros abusos cometidos por militares dos EUA no Afeganistão, «sugere um problema muita mais amplo que deve ser abordado».
A HRW lembra ainda que, até agora, o Pentágono ignorou as suas denúncias de abusos cometidos no Afeganistão, entre os quais se contam a tortura do sono, espancamentos, exposição a temperaturas extremas e pelo menos duas mortes sob custódia.
A verdade é que a Casa Branca fez o possível para evitar que a denúncia das torturas chegasse ao conhecimento público. O próprio general Richard Myers reconheceu a semana passada que tentou convencer a estação televisiva CBS a não divulgar as imagens da vergonha que deram a volta ao mundo, a pretexto de que fariam aumentar a tensão no Iraque, enquanto o general Mark Kimmit, um dos comandantes norte-americanos no Iraque, recomendava que a tónica deveria ser posta na «conduta individual» dos implicados nos abusos.
Nesta como noutras matérias, o candidato democrata à Casa Branca, John Kerrey, deixou claro que a distância que o separa de Bush não é tanta como pretende fazer crer. Confrontado com o escândalo que envergonha os EUA, Kerrey exprimiu o seu «mal estar pelo tratamento vergonhoso dos prisioneiros iraquianos», mas sublinhou que os norte-americanos não podem permitir «que as acções de uns poucos ensombrem o tremendo e bom trabalho que milhares de soldados estão a fazer no Iraque e em outros lugares do mundo».

O bom trabalho dos bons rapazes

Em meados da semana passada, a televisão francesa Canal Plus, na emissão «Merçi pour l’info» (Obrigado pela informação), revelou um vídeo onde se vê três civis iraquianos a serem assassinados por um helicóptero norte-americano. Uma vítimas não morre de imediato, mas os «bons rapazes» estão atentos.
«Está ferido», avisa um dos soldados ao oficial. «Dispara. Dispara ao camião e a ele», responde o superior.
A gravação tem três minutos e meio e, segundo os responsáveis do programa, foi obtido «através de pessoal europeu contratado pelo Exército dos EUA». A gravação tem a data de 1 de Dezembro de 2003.
Mas isto não é tudo. Ainda na semana passada, novos dados vindos a público revelavam a dimensão da tragédia que está a acontecer no Iraque. Um relatório do próprio Ministério da Saúde iraquiano, divulgado pela clandestina Voz do Iraque Livre, reconhece que cerca de 5000 iraquianos ficaram feridos nas operações de punição levadas a cabo durante o mês de Abril por militares norte-americanos e franco-atiradores, apoiados por meios aéreos, designadamente em Fallujah e Najaf.
Quanto ao número de mortos, ultrapassa largamente o milhar: 323 em Al Anbar, cidade próxima de Fallujah; mais de 600 em Fallujah; 43 em Al Qaim, na fronteira com a Síria; 246 em Bagdad; 53 em Najaf; mais de uma centena em Basora; 53 em Nasiriya.
Entretanto, a 5 de Maio, a escassos dois meses da alegada «entrega de poder» aos iraquianos, a administração Bush pediu ao Congresso mais 25 mil milhões de dólares para o esforço de guerra no Iraque (a que já foram atribuídos 120 mil milhões de dólares) e no Afeganistão.

Discurso directo

«Interrogo-me se o aparecimento destas fotos não marcou o fim do jogo para os EUA no Iraque. (...) É realista, depois do sangrento assalto de Fallujah e do levantamento xiita no princípio de Abril, e à luz dessas revelações, pensar que os EUA podem ainda conquistar os corações e as mentes do público árabe iraquiano?» – Juan Cole, da Universidade de Michigan.

«Antes costumávamos chamar a Saddam “o Hitler do Iraque”. Mas não era Hitler um dos “nossos”, um ocidental, um cidadão pertencente à “nossa” cultura? Se pôde matar seis milhões de judeus – o que efectivamente fez –, por que havemos de estranhar que os “nossos” possam tratar os iraquianos como animais? A semana passada chegaram as fotografias para demonstrar que podemos». - Robert Fisk


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