• Francisco Silva

Na sombra das paixões
Detidos para averiguações – em dias a antecederem o EURO 2004 – alguns dos expoentes máximos do «nosso» futebol (não, não falo dos «artistas» da bola, nem sequer dos seus treinadores). Vários deles também ligados à política, em particular enquanto autarcas (mas não apenas em quanto tal). Estimulou-me tal notícia a abordar um assunto relacionado com a temática das comunicações ou, se quiserem entender assim, com a temática da Comunicação. E fique bem claro: faço-o não com a intenção de aproveitar a ocasião para ajudar à festa da suspeita de culpabilidades ou para contribuir para qualquer processo de desonra. Aliás, não é matéria, a das culpas e das crucificações, que me interesse, ao contrário do que parece dar-se com tantos dos meus conterrâneos, até porque creio tal só servir – só ser eficaz – como instrumento de obnubilação de paisagens. Antes, bem pelo contrário, é aquilo para que pretendo contribuir. Serei capaz!?
Contudo, devo aclarar desde já. Chamou-me a atenção, esta questão, também pela negativa. Pela negativa daquilo que, sem mais, pensaria não ser acertar na mouche do alvo, no cerne da questão. Pelo menos como ponto de partida. E, como candeia que vai à frente, alumia duas vezes… Com efeito, eu todo virado para a questão do valor económico – do valor de troca –, dos conteúdos e da Comunicação, mais o papel do futebol nisto tudo, e aparece-nos «apenas» uma questão de arbitragens e clubes que não terão muito a ver com a área “profissional” pura e crua, com a área dos artistas consumados. Sei. Detiveram agora dois presidentes, um de organismo associativo nacional de clubes, também presidente do executivo da autarquia de um clube da segunda divisão B que «estaria» no centro disto tudo, Além disso, prenderam o presidente dos árbitros mais a maioria do seu conselho de topo. Mas… ya, meu, também detiveram árbitros que nem são daqueles que a gente vê actuar na televisão aos fins-de-semana. Daqueles – ironizo, «mas não só», não é? - que vivem tão mal que não teriam mais que aceitar uns cobres para a sua sobrevivência ou um passseiozito ou a prestação de um carrito. Sei lá. É fraca a carne do povo e alguns bairristas com responsabilidades não resistiriam a aproveitar-se de tal facto. Pois, é o diz-se diz-se que por aí vai.
Então isto poderia nem sequer ter a ver com o «sistema» de que se fala. Tanto barulho, para quase nada, apetece dizer. Algumas citações nos documentos. Mas ali acima, no mundo das SADs, das empresas, da economia, em todos os casos que contam para o que queria analisar - exagero, claro, mas apenas para efeitos de exposição -, as coisas ocorrerão de outra maneira. Ou, pelo menos, não será por aqui que se chegará lá. O que parecerá estranho, estando já incluídas no lote o grosso das autoridades máximas que têm a ver com a área profissional do futebol caseiro.
De qualquer forma, por outra razão, o reflexo condicionado chamou-me a uma questão de interesse. Até porque nos últimos tempos se fala tanto de arbitragem - arbitragem sobretudo das paixões? -, mas parece que não se fala tanto da «carne» do novo sector económico que, desde há algum tempo, vem a ser referido. Bastaria, para tal ter em mente, relembrar algumas declarações sobre esta matéria feitas pelo Presidente da Liga de «clubes» de futebol. Ou, indo mais ao «detalhe», relembrar-se-á que, até agora, os casos judiciais que já levaram a detenções de figuras de proa do sector - (ex)presidentes de SADs da Superliga - terão tido, antes de tudo, a ver com irregularidades praticadas no mercado dos artistas - artistas cujo trabalho é dos principais criadores de valor no futebol.
Disseram nos media ser o que se está a ver apenas uma ponta do iceberg. Contudo não me parece ser a natureza do iceberg outra da que está a ser investigada. Isto é, parece tratar-se sobretudo de negócios - os deste processo - que têm a ver com betão, terrenos, obras, construção civil e não tanto com a transacção de capitais humanos. Aliás, como tem sido sugerido a nível dos diversos poderes, o portuguesíssimo modelo económico está demasiado dependente da construção civil e, parece, urgiria transitar para um modelo mais produtivo (de mais valia), mais competitivo, no qual faria figura principal o futebol. Este processo seria ainda um reflexo de uma fase em perda de importância - uma fase que teria atingido o apogeu com a construção dos «estádios» para o EURO 2004.
Quanto à presença dos árbitros - e a possível manipulação do seu papel -, tal teria a ver com a sua parte na gestão de um nível adequado de paixão, necessário à garantia de procura…


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