• Gustavo Carneiro

«É preciso castigar o Governo e a sua política votando na CDU»
A Festa voltou a Beja
Alma alentejana
A vida, as lutas, os sons e os sabores do Alentejo estiveram em destaque na Festa Alentejana, que o PCP realizou no passado fim-de-semana em Beja. Milhares de pessoas estiveram presentes e mostraram-se decididas a prosseguir a luta pelo Pão e pela Justiça, a mesma luta por que morreu há cinquenta anos, à frente das suas companheiras, a operária baleizoeira Catarina Eufémia.
«Catarina Eufémia morreu como deve morrer um comunista, à frente da luta de classes», declarou António Vitória, membro da Direcção da Organização Regional de Beja, no comício de encerramento da Festa Alentejana, que se realizou no fim-de-semana no magnífico espaço do Parque de Feiras e Exposições de Beja. Os cinquenta anos do assassinato pela GNR da operária agrícola de Baleizão, que dirigia um protesto das trabalhadoras, mereceu um especial destaque na Festa dos comunistas, que não esquecem os seus mártires. Por todo o recinto, imagens da camponesa acompanhavam frases, que anunciavam que a luta de Catarina prossegue hoje, cinquenta anos depois.
Para além de Catarina Eufémia, as exposições patentes na Festa recordavam outros momentos e personagens fulcrais da história alentejana. A conquista da jornada de oito horas nos campos do sul, em 1962, por mais de 200 mil operários agrícolas gozava também de merecido destaque. A exposição baseava-se num conjunto de imagens e publicações que explicavam o alcance da conquista. A acompanhar, um trabalho fotográfico de Pedro Soares, que captou as expressões de alguns dos intervenientes dessa histórica conquista do proletariado português. Um outro painel dava um breve apontamento sobre a história do movimento operário no distrito de Beja.
Uma outra exposição, acompanhada de um filme, homenageava o poeta José Carlos Ary dos Santos, desaparecido há 20 anos. Um poeta que assumiu até ao fim a sua condição de comunista e que, não sendo natural do Alentejo, era de todo o povo, e que cantou as mais belas conquistas do povo, entre as quais a muito portuguesa Reforma Agrária. Outra Reforma Agrária, diferente e ainda por cumprir, surgia noutro local do espaço dedicado às exposições: a brasileira, captada na câmara de Sebastião Salgado.

Viver o Alentejo

Quase tudo no Parque de Feiras e Exposições tinha sabor alentejano. Exceptuando a participação solidária de diversas organizações regionais, concelhias e de freguesia, tudo soava, cheirava e sabia a Alentejo. Em vários restaurantes e tasquinhas, a carne de porco alentejana e o ensopado de borrego faziam as delícias de muitos que, acompanhados pelos característicos pão e vinho do Alentejo, por ali ficavam entre uma e outra cantoria.
Um pouco por todo o recinto, os grupos de cantares faziam a todos impressionavam, e emocionavam alguns até às lágrimas. De singular beleza foi o desfile de grupos, por entre um corredor formado por todos quantos quiseram assistir de perto. Com o seu passo lento e cadenciado, os cantores entoaram letras de trabalho duro, nos campos ou nas minas, mas também versos de amor, luta e esperança. E muitos dos que assistiam acompanhavam, fazendo daquelas modas lentas património de todos.
Mas outras músicas estiveram presentes na Festa Alentejana. O rock poético de Jorge Palma encantou os presentes no sábado, e Janita Salomé (com Vitorino, Paulo Ribeiro e a surpreendente e não anunciada participação de Jorge Palma), continuou a desbravar novos caminhos para a música popular portuguesa. Antes de iniciar o espectáculo, Janita Salomé (que participa nas listas da CDU para as eleições de 13 de Junho) alertou para os perigos da uniformização cultural, considerando o combate a esta uniformização uma causa que a esquerda terá de continuar a abraçar.
Durante toda a Festa, a juventude marcou forte presença. Quer nas suas realizações próprias, no espaço da JCP, quer pela entrega e energia que depositaram nas mais variadas iniciativas, com destaque para o comício (onde participaram Carlos Carvalhas e Ilda Figueiredo, cujas intervenções mencionamos na página 5). A juventude que ali estava, comunista na maioria, é a juventude que luta, com a «espinha dorsal sempre direita», como referiu Márcio Guerra, dirigente da JCP.
Finda a Festa, ficou uma promessa: Para o ano há mais.

Catarina Eufémia morreu há 50 anos
A busca da justiça continua

Milhares de pessoas participaram, no passado domingo, naquela que foi a maior homenagem a Catarina Eufémia realizada nos últimos anos. O tradicional desfile de Baleizão englobava-se este ano no programa da Festa Alentejana, que regressou a Beja, após mais de uma década de interregno.
O desfile reuniu gente de vários locais e origens. Companheiros nas lutas em Baleizão, camaradas que anualmente marcam presença junto ao local onde a comunista tombou e muitos que pela primeira vez homenagearam a mártir alentejana. Grande parte dos manifestantes não eram sequer nascidos quando Catarina caiu varada pelas balas assassinas do sargento Carrajola, da GNR, grávida e com um filho nos braços. Mas nem por isso deixaram de comparecer para homenagear quem combateu, antes de si, as lutas que hoje prosseguem.
Após encherem por completo o cemitério de Baleizão, para depositarem ramos de cravos na campa de Catarina Eufémia, os manifestantes desfilaram para o local onde a comunista foi assassinada, e que se encontra assinalado por um monumento. Aqui ouviram Carlos Carvalhas homenagear Catarina Eufémia e, através dela, todas as mulheres e homens do Alentejo, que continuam hoje a luta pelo pão e pela liberdade. Catarina não morreu sozinha, tal como não está ainda sozinha. Como escreveu num poema Francisco Miguel, dirigente comunista já desaparecido, «A brisa não se levantava./ Ias armada apenas de razão./ Contigo os milhões que têm fome/ Contigo o povo que não come/ E que ali cultiva o nosso pão.» Ainda hoje assim é.

Comício em Beja reafirma necessidade do voto na CDU
O voto que mais dói à direita

No encerramento da Festa Alentejana, Carlos Carvalhas reafirmou que o voto na CDU é o que mais eficazmente combate a política do Governo, que apelida de «governo de mentirosos».

No comício de encerramento da Festa Alentejana, realizado no domingo em Beja, Carlos Carvalhas não poupou críticas ao Governo e à sua política. Apelidando o executivo de «governo de mentirosos», o secretário-geral do PCP lembrou as promessas não cumpridas. «Prometeram que Portugal ia crescer dois pontos acima da média europeia, e estamos em recessão. Prometeram que os portugueses iam ter um nível de vida semelhante ao dos restantes europeus, e é o que se vê, com os salários a diminuírem em termos reais e o desemprego a aumentar», destacou o dirigente comunista. Carlos Carvalhas recordou ainda as promessas feitas aos reformados, de aproximação das pensões mínimas ao salário mínimo. «Agora, é o que se vê.»
Carvalhas chamou ainda a atenção para o aumento de dois pontos percentuais nas reformas que o Governo se prepara para dar, a apenas duas semanas das eleições europeias. Aos reformados, o dirigente do PCP apelou para que fiquem com esse «rebuçado», mas que, no dia 13, votem na CDU.
Durão Barroso, destaca Carlos Carvalhas, disse que os sacrifícios eram para todos. Mas não. «Não são para os 5656 boys já nomeados, dos quais 1095 são membros dos gabinetes dos ministros, alguns a ganhar mais do que o presidente da República.» Tal como não são para a banca, que obteve, no primeiro trimestre do ano, lucros 15 por cento superiores aos obtidos em igual período do ano passado. E pagando de IRC taxas de 5, 15 ou 20 por cento, muito inferiores às pagas por qualquer pequeno ou médio empresário ou pelos trabalhadores. «Por isso dizemos que o primeiro-ministro está a mentir ao povo português e está a levar a cabo uma política de concentração da riqueza», acusou Carlos Carvalhas.
O secretário-geral do PCP lembrou ainda que o Governo, bem como o PS, apoiou a Política Agrícola Comum, que desliga as ajudas da produção. «Aqui no Alentejo, por exemplo, uma exploração com 900 hectares onde se faça uma dragagem anual recebe mensalmente 14 mil euros», acusou Carlos Carvalhas. Ou seja, um latifundiário que faça apenas uma dragagem no campo recebe 14 mil euros «sem que tenha que semear um bago de trigo», denunciou. É esta política que tem que ser condenada no dia 13 de Junho, destacou Carvalhas. E é o voto na CDU, e não no PS ou no Bloco de Esquerda, o que mais dói ao Governo.

O voto que conta

Antes de Carlos Carvalhas, já Ilda Figueiredo tinha avançado com razões mais do que suficientes para justificar o voto na CDU. Para a candidata comunista, o Governo usa frequentemente o argumento do Pacto de Estabilidade «para dizer que tem que cortar no Orçamento de Estado», em áreas como a educação, a saúde ou o emprego. Mas o executivo esquece-se de referir, denuncia a deputada do PCP, que os comunistas foram os únicos deputados portugueses a lutar contra o Pacto de Estabilidade, com o qual todos os outros estiveram de acordo.
A primeira candidata da lista da CDU considera também o voto na CDU como o voto contra a guerra. E lembrou que foram os comunistas portugueses a participar nas delegações ao Iraque, em solidariedade, antes do início da guerra. Os eurodeputados do PCP estiveram também presentes nas delegações do Parlamento Europeu que viajaram aos Estados Unidos para diversos encontros com senadores democratas, com o objectivo de travar a guerra. «Também contra a guerra é preciso votar na CDU», destacou. «Porque eles mentem, mas o povo é que perde.» Vê-se, lembrou, como o petróleo continua a subir e como afinal esta guerra «contribuiu para agravar toda a situação e não para melhorar nada».
Ilda Figueiredo repudiou ainda a revisão constitucional – cozinhada por PSD, PS e PP –, que permite a transposição directa do texto, qualquer que ele seja, da dita constituição europeia, mesmo antes de esta ser aprovada. «Isto é inadmissível», considera a candidata da CDU.

Carvalhas responde a Durão Barroso
O Governo que cumpra as promessas!

Realizado no último dia do Congresso do PSD, o comício de Beja do PCP ficou marcado pelas declarações de Durão Barroso relativas aos comunistas. Mas pouco depois de o primeiro-ministro ter responsabilizado o PCP por qualquer instabilidade que ocorra no País durante o Euro 2004, fruto dos protestos das forças de segurança, já Carlos Carvalhas considerava essas declarações dignas de um qualquer ministro do Interior «do 24 de Abril».
Após afirmar que Durão Barroso não mete medo aos comunistas, o secretário-geral do PCP devolveu as responsabilidades ao Governo, afirmando que este deveria ter cumprido as promessas feitas às forças de segurança, nomeadamente quanto aos horários e ao subsídio de risco. «Lembram-se daquele ministro que falava dos velhinhos, das reformas e que andava todos os dias a visitar as esquadras?», perguntou aos presentes Carlos Carvalhas. «Pois bem, fartou-se de fazer promessas. Então que as cumpra, ele e o primeiro-ministro, que são os verdadeiros responsáveis pela luta social e pelo agravamento da situação.» Quanto ao PCP, limita-se a dar força «àqueles que lutam por justas reivindicações», afirmou.
Para Carlos Carvalhas, o que Durão Barroso devia ter dito no congresso é que ia «resolver o problema da Bombardier, que ia arranjar solução para os trabalhadores, que ia combater o desemprego». Carvalhas acusou ainda o Governo de fechar as portas ao futuro, quando apenas tem a oferecer a milhares de jovens o desemprego, o emprego precário ou a emigração.




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