A ocupação continua, a pretexto de combater a violência
Cerimónia secreta por receio de atentados
EUA entregam pasta do Iraque aos seus agentes em Bagdad
O Iraque conta desde 28 de Junho com um governo interino, teoricamente soberano. Bremer voltou aos EUA, mas as tropas norte-americanas permanecem no país.
As imagens dando conta da «transferência de poder» para o governo interino iraquiano, traduzida na passagem simbólica de uma pasta das mãos de Paul Bremer para as do primeiro-ministro Iyad Allawi, estão longe de ilustrar qualquer sucesso da administração Bush.
Efectuada em segredo, dois dias antes do prazo previsto, a iraquianização do domínio americano em Bagdad traduz uma realidade que nenhum discurso pode disfarçar: todas as semanas morre no Iraque cerca de uma centena de pessoas e os mais de 160 000 soldados norte-americanos estacionados no país não estão de malas aviadas para o regresso a casa.
A ocupação continua, a pretexto de combater a violência que os EUA já demonstraram ser incapazes de deter, sem que as «autoridades» iraquianas tenham qualquer intervenção na respectiva actividade.
A apressada saída de Bremer, que não esperou pela chegada do seu substituto, o embaixador John Negroponte, também não enganou ninguém. Tratou-se simplesmente de evitar a passagem do testemunho, como se isso bastasse para iludir a efectiva «solução» de continuidade encontrada pela Casa Branca para refrescar a imagem de Bush a escassos meses das eleições presidenciais.
No próprio dia da pretensa transferência de soberania, uma sondagem do instituto Oxford dava conta de que, para 76 por cento dos iraquianos, a situação no país só poderá melhorar quando houver um governo democraticamente eleito.

Soberania confiscada

Nada do que é essencial estará sob a alçada do governo iraquiano interino. Como escrevia a 13 de Maio o Wall Street Journal, «Bremer e os outros oficiais americanos instalaram discretamente instituições que fornecerão aos EUA poderosos mecanismos para permitir influenciar de perto todas as decisões importantes que o governo interino tomar».
O jornal norte-americano precisava que «o novo governo iraquiano terá um escasso controlo sobre as suas forças armadas, não terá poder para fazer ou modificar leis e não terá possibilidade de adoptar decisões importantes nos diferentes ministérios sem a aprovação dos EUA».
Nestas limitações inclui-se, por exemplo, a impossibilidade de revogar a famosa ordem 39 que privatizou toda a economia iraquiana, ou de contrariar a instalação das 14 bases norte-americanas previstas para o país.
Com um agente da CIA à frente do governo, em cujo currículo nem sequer faltam uns quantos atentados levados a cabo nos anos 90 contra a população civil, para desestabilizar o regime, como lembrou a 9 de Junho o New York Times, percebe-se bem o que levou Bremer a afirmar, na hora da partida, que deixa o Iraque «confiante no futuro e na habilidade do governo para enfrentar os desafios que o esperam».
As eleições gerais estão previstas para Janeiro de 2005, mas Iyad Allawi já fez questão de dizer que a falta de segurança no país pode comprometer esse prazo.


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