Editorial

«A postura dos partidos do governo é elucidativa do vale-tudo que norteia a sua prática política»

COESÃO PARA A INSTABILIDADE

A opinião dos governantes e da generalidade dos média sobre Portugal e os portugueses é, certamente, muito negativa. Só assim se explica o espanto embasbacado com que olharam para coisas tão naturais como, por exemplo, a feitura, em tempo útil, de dez bonitos estádios de futebol ou, outro exemplo, a boa organização do Euro-2004. E é digna de realce – e só tem paralelo no que em tempos passados se passava - a bacoquice pseudo patriótica que levou esses embasbacados a apresentarem essas duas façanhas como feitos memoráveis que teriam transportado a nossa auto-estima e o orgulho nacional, a alturas nunca antes alcançadas. Na verdade, construir dez estádios (mais quatro do que os que eram necessários, sublinhe-se) dispondo para isso de muitas centenas de milhões de contos distribuídos por dez generosíssimos orçamentos (e, sublinhe-se ainda: beneficiando de derrapagens orçamentais na casa das várias dezenas de milhões de contos), não se afigura tarefa por aí além difícil nem digna de tamanhos espantos. São igualmente surpreendentes os espantos de bocas abertas perante a boa organização do Euro-2004 (que de facto o foi e que a UEFA sublinhou). Mas então o que esperavam os governantes e os média?: que a organização fosse uma desorganização?, que reinasse a bagunçada?, que tudo falhasse e a Europa e o Mundo ficassem a rir de Portugal e dos portugueses? - se assim era, há que sublinhar, pelo menos e para já, a enorme irresponsabilidade de quem, pensando tal, assim jogou à sorte, aí sim, a honra e o brio nacionais...
Expressemos, então, o justíssimo apreço à notável prestação da selecção nacional que, fazendo o melhor que podia e sabia fez o que dela se esperava, com isso proporcionando momentos de imensa alegria a milhões de portugueses e portuguesas – alegria mais do que merecida, em especial para aquela maioria que, no seu dia a dia, depara com razões muitas para muitas tristezas e maiores preocupações.

Nessa visão negativa dos trabalhadores e do País – traduzida diariamente por um total desrespeito pelos interesses e direitos da imensa maioria dos portugueses - estão as raízes essenciais do conteúdo anti-popular da política que sucessivos governos têm vindo a aplicar, bem como dos métodos adoptados na sua aplicação. Um breve olhar para as consequências da política do actual Governo, para as práticas a que recorre e para o palavreado demagógico que utiliza, é suficiente para nos dar a real dimensão desse desrespeito (e explica o frenesim doentio, o despudor, com que o primeiro-ministro demissionário, engravatado de ridículo, procurou aproveitar em seu favor o êxito da selecção nacional). Da mesma forma, a postura dos partidos do Governo face à situação gerada pelo abandono de funções de Durão Barroso é por de mais elucidativa do vale-tudo que norteia a sua prática política. Na verdade, só uma total ausência de respeito pela inteligência dos portugueses e portuguesas permite que os executores de uma política geradora de permanente instabilidade política e social utilizem a pretensa preocupação de estabilidade como argumento maior da sua tese. Como se a «coesão» assegurada que proclamam não fosse, por si só, o mais evidente sinal de instabilidade. Acresce que, à instabilidade decorrente da política praticada pelo Governo, vem juntar-se a que resulta da demissão do Primeiro-Ministro e das pressões no sentido da sua substituição por um qualquer gémeo seu. E se o facto de Barroso ter sido chamado a desempenhar o cargo de Presidente da Comissão Europeia, é questão que diz respeito aos donos desta UE – tal como o é, pelo seu significado em matéria de conceito de democracia, o facto de essa chamada ter ocorrido na sequência da maior derrota eleitoral de sempre do partido do ex-primeiro-ministro – já a resolução do problema provocado pelo seu abandono de funções diz respeito, e de que maneira, aos portugueses – que, por isso mesmo, têm o direito de se pronunciar sobre o seu futuro imediato.

A pressão nos últimos dias exercida sobre o Presidente da República pelos partidos da coligação governamental - curiosamente defendendo, hoje, exactamente o contrário do que, há dois anos, defendiam - ultrapassa, pela forma de que se reveste, os limites do admissível, e é, ela própria, um poderoso factor de instabilidade. Exemplos disso são as declarações de Durão Barroso após a apresentação da sua demissão e a entrevista de Santana Lopes à RTP – num programa que, fugindo ao seu figurino tradicional, foi puxado para a hora de maior audiência...
Ora, como o PCP tem vindo a sublinhar, é incontestável que a substituição de Durão Barroso por qualquer outra personalidade indicada pelo PSD, seria uma saída artificial, falsa e frágil, sem autoridade nem credibilidade no actual quadro político e nas actuais circunstâncias. É igualmente óbvio que tal caminho - porque gerador de maior instabilidade nos planos social, económico, político e institucional - conduziria a uma situação agravada e com crescentes prejuízos para o País e para o povo. Pelo que, assim sendo, a realização de eleições antecipadas apresenta-se não só como a solução democrática que se impõe mas também como a única portadora dos necessários elementos de estabilidade que a situação exige.
Foi isso que milhares de trabalhadores – em iniciativas promovidas pela CGTP-IN em diversas cidades – vieram à rua exigir. Com a consciência de que a luta por esse objectivo é, na situação actual, parte integrante da luta pela defesa dos seus interesses e direitos e contra a política de direita.


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