• Eugénio Rosa

Falta de competitividade não é devida aos salários
Produtividade do trabalho aumenta mais que a do capital <br><font size=-1>(conclusão do texto publicado no nº anterior - em TEMAS, 22 Julho)
O custo do chamado factor trabalho representa nas empresas não financeiras portuguesas cerca de 27%, representando o custo dos outros factores 73% dos custos totais das empresas. Ao contrário do que sucede com o factor Trabalho, na utilização dos outros factores está-se a registar um decréscimo da produtividade, ou mesmo crescimentos negativos da produtividade como dizem os economistas.
Isto significa que para obter uma unidade de produto consome-se (gasta-se) mais de outros factores, que representam já cerca de 73% dos custos totais das empresas não financeiras portuguesas. É este um dos maiores problemas da nossa Economia, contribuindo fortemente para a sua reduzida competitividade que as entidades oficiais, incluindo o Banco de Portugal, e os órgãos de comunicação social não falam, ocultando-o e contribuindo assim para a sua perpetuação.
Entre os «outros factores», portanto já sem entrar com o factor Trabalho, o Capital (investimento) ocupa um lugar muito importante.
Dados publicados também pelo INE, mas já desagregados por sectores de actividade económica, confirmam que a produtividade do capital tem diminuído em Portugal, sendo esse facto um dos principais problemas com que se debate a economia portuguesa.
O Quadro I ( omisso nesta edição online ), construído com dados do INE, mostra isso.
A primeira conclusão que se tira dos dados do Quadro I é que o investimento em Capital Fixo cresceu em média nas empresas portuguesas, entre 1997 e 2000, +27,4% ( última linha da coluna 6ª a contar da esquerda).
Mas existem sectores onde o crescimento foi muito maior, a saber: Indústria de Madeira e Cortiça: + 39,4%; Artigos de borracha e de plástico: + 46,4%; Indústrias Transformadoras n.e.: + 57,7%; Comércio:+62%; Transportes, Armazenamento, Comunicações + 62%.
No entanto, no mesmo período, a produtividade do capital fixo, medida em VAB (riqueza criada pelas empresas) obtido por cada euro investido em capital fixo, teve uma quebra importante de -6% medida a preços correntes (última linha da última coluna à direita), porque se fosse a preços reais, isto é descontando o efeito da inflação, a diminuição ainda seria maior.
Em valor, a produtividade do Capital Fixo passou, entre 1997 e 2000, de 28 cêntimos de VAB obtido por cada euro investido para apenas 26 cêntimos.

E tenha-se presente que a produtividade do capital fixo foi calculada da mesma forma que faz o Instituto Nacional de Estatística e que consta da sua publicação «Sistema de Contas Integradas das Empresas 1999-2000, págs. 27 e 29, INE, Edição 2003», ou seja, dividindo o valor do VAB (Valor acrescentado Bruto), que dá o valor da riqueza criada pelas empresas em cada ano, pelo chamado «Imobilizado Corpóreo e Incorpóreo Bruto», ou seja, pelo valor dos equipamentos, instalações, meios de transportes, etc., utilizados na produção. E o valor que se obteve, que consta das colunas 7ª e 8ª a contar da esquerda, dá o valor em cêntimos de VAB obtido por cada euro investido em Capital Fixo (entre 1997 e 2000, passou de 28 para 26 cêntimos).

Grandes diferenças por sectores

Por sectores as diferenças são muito acentuadas, verificando-se em muitos deles uma diminuição da produtividade do capital significativa.
Assim, entre 1997 e 2000, a diminuição a preços correntes (porque a preços reais é maior) da produtividade do capital foi de -21,6% nas indústrias extractivas; de -10,1% nos têxteis, de -23,7% na indústria de calçado; de -21% na indústria do Coque, Produtos Petrolíferos e Fibras; de -17,4% na Metalúrgica de base; de -15,1% na Fabricação de material de Transporte; de -21,3% no Comercio de Grosso e de retalho; e de -18,9% nos Transportes, Armazenamento e Comunicações.
Os sectores em que a produtividade do capital aumentou foram «Alimentação, Bebidas e Tabacos» (+ 7,3%), «Pasta de Papel, Papel e Cartão» (+25,8%), «Alojamento e Restauração» (+17%), e num sector atípico que é «Actividades Imobiliárias, Aluguer e Serviços às Empresas» (+109%).
Resumindo, as conclusões que se tiram são as seguintes: o aumento do investimento em Capital Fixo verificado entre 1997 e 2000 não teve, em muitos sectores, igual correspondência a nível do aumento da produtividade do capital, tendo-se verificado mesmo em muitos deles que o aumento do investimento em capital fixo foi acompanhado, não por um aumento da produtividade, mas sim por uma diminuição da produtividade do capital. São exemplos disso o que se verificou na Indústria de Madeira e Cortiça, em que o investimento cresceu +39,4% e a produtividade do capital desceu -13,6%; na Indústria de Couro e Produtos de Couro, em que o investimento aumentou +20% e a produtividade do capital desceu -23,7%; na Construção, onde o investimento aumentou +36,5% e a produtividade do capital desceu -8,9%; no Comércio por grosso e retalho, em que o investimento de capital aumentou +62,1% e a produtividade do capital desceu -21,3%; nos Transportes, Armazenagem e Comunicações, em que o investimento cresceu +56,1% e a produtividade do capital desceu – 18,9%.
Estes números, que devem ser interpretados como indicadores de alerta, revelam deficiências importantes a nível de gestão e de organização e administração da produção em muitas empresas a funcionar em Portugal que têm sido mantidos ocultos, e que certamente constituem causas importantes da baixa produtividade e competitividade das empresas e da economia portuguesa, que urge divulgar para serem enfrentadas e resolvidas sem o qual também o nosso País não sairá do estado de atraso em que se encontra.


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