(Textos da Redacção, de Aurélio Santos e de Manuel Jorge Veloso.
Foto de Guta de Carvalho)
Morreu Carlos Paredes
Um músico comprometido
Morreu Carlos Paredes. Esse Carlos Paredes que, músico de enorme e merecido prestígio, era paralelamente um homem comprometido com o seu povo, com quem nunca deixou de estar, antes e depois da Revolução de Abril.
Como o próprio reconhecia, era para esse povo - motivo maior das suas preocupações enquanto homem e enquanto artista - que ele trabalhava, dele recebendo simultaneamente inspiração.
Na hora da despedida, o Avante! presta a sua homenagem a Carlos Paredes, dando a palavra a quem o conheceu de perto como militante comunista e como músico, e recorda algumas das suas próprias palavras, numa entrevista ao nosso jornal, publicada a 15 de Julho de 1976:
«Já desde muito antes do 25 de Abril me vinha preocupando com a falta das palavras na música que executava. Foi assim que, há alguns anos, publiquei um disco de canções em que a musica era extraída das minhas guitarradas e os poemas da obra de conhecidos poetas antifascistas.
Mais recentemente, fui surpreendido pelo 25 de Abril quando me preparava para gravar um outro disco onde a música da guitarra era associada a uma fábula e diversos desenhos, tudo executado por mim, à semelhança do que sucede com os cantores, autores das suas própria letras e músicas.
Só agora, passados dois anos, me é possível tentar acabar o trabalho. Durante este tempo percorri o País, várias vezes, de Norte a Sul, convivendo com camponeses e operários em pequenas e grandes festas de esclarecimento. Isto permitiu-me conhecer, muito de perto, algumas cooperativas, unidades colectivas de produção, organizações sindicais, comissões de moradores, dialogar sobre as suas realizações, os seus anseios, as suas mais prementes necessidades. Aprendi a conhecer, na prática, o que verdadeiramente deve entender-se por democracia, liberdade, espírito criador colectivo, revolução, socialismo».

Nota do PCP

Em nota divulgada a 23 de Julho, o Secretariado do Comité Central do Partido Comunista Português manifestou o seu profundo pesar pelo falecimento de Carlos Paredes e expressou à sua família as suas sentidas condolências.
A morte de Carlos Paredes, que «como intérprete e compositor deixa uma vasta obra que marca impressivamente a arte e a cultura portuguesa», constitui «uma grande perda para a arte e cultura portuguesa» mas também «para o PCP, do qual era membro desde 1958 e militante generoso até ao fim da sua vida activa», diz o Secretariado.
«A militância de Carlos Paredes no Partido de toda a sua vida foi testemunho da sua grande dimensão humana, do seu imenso talento artístico e da ardente vivência que marcou toda a sua existência», prossegue o Secretariado, lembrando que. Carlos Paredes «foi presença constante» da Festa do Avante e de centenas de outras iniciativas «às quais deu com a sua arte uma maior e mais densa expressão à intervenção do PCP na vida portuguesa».

Biografia

Carlos Paredes nasceu em Coimbra, a 16 de Fevereiro de 1925. Filho do conhecido guitarrista Artur Paredes, aprende a tocar guitarra com apenas 4 anos. Aos nove anos a família muda-se para Lisboa, onde Carlos, depois de concluir a instrução primária, frequenta o Liceu Passos Manuel e posteriormente o Instituto Superior Técnico.
Em 1957 grava o seu primeiro disco, um EP intitulado apenas «Carlos Paredes». É o início de uma longa e brilhante caminhada pelo mundo da música, que viria justamente a reconhecê-lo como o maior entre os virtuosos da guitarra portuguesa.
A sua música começou, em 1960, a ser utilizada por diversos e destacados realizadores portugueses, como Cândido da Costa Pinto, na curta-metragem «Rendas de Metais Preciosos». São dele, entre outras, as bandas sonoras de «Verdes Anos» e «Mudar de Vida», de Paulo Rocha, ou do «Fado Corrido» de Jorge Brun do Canto. Como é sua a música composta para inúmeras curtas-metragens, como «As Pinturas do Meu Irmão Júlio», de Manoel de Oliveira, «A Cidade», de José Fonseca e Costa, ou «Tráfego e Estiva», de Manuel Guimarães.
«Romance N.º2»; «Fantasia»; «Porto Santo»; «Guitarra Portuguesa»; «Meu País»; «Balada de Coimbra»; «Movimento Perpétuo»; «António Marinheiro»; «É Preciso um País»; «Concerto de Frankfurt»; «Intervenções Livres»; «Espelho de Sons»; «Dialogues»; «Asas sobre o Mundo»; «Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes»; «Na Corrente»; «O Melhor de Carlos Paredes – Guitarra» e «Canção Para Titi – Os Inéditos, 1993» são títulos que o impuseram no panorama da música portuguesa. Mas não só. De facto, o seu nome é internacionalmente reconhecido e respeitado.
Em 1993, é-lhe diagnosticada uma mielopatia, que o impede de continuar a tocar. A sua música continua, porém, a ser ouvida cada vez mais. A compilação «Na Corrente» de material inédito, relativo aos anos de 1969, 1971 e 1973, editada pela Valentim de Carvalho, em 1996, atinge rapidamente o top-20 oficial de vendas de álbuns compilados pela AFP.
Morreu na sexta-feira passada, a 23 de Julho, com 79 anos, na Fundação-Lar Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa, onde se encontrava desde 1993. Mas a sua música permanece viva, cada vez mais viva, revelando não apenas o artista mas também o homem. Um homem cuja modéstia e invulgar dimensão humana torna melhor quem o ouve tocar.


«Guitar»

A madrugada estava cheia de nuvens atarracadas num céu cinzento a cair tão pesado que até abafava o primeiro cantar dos pássaros da manhã. Mas era música o que rasava os olhos dos que iam na rua entre aquele intenso cheiro a café e as notas intrusas de uma trova portuguesa a misturar-se ao som de caminhar. E a cada passo uma nota era oferecida pelas rádios a troar, marcando a cadência de duas mãos a dedilhar uma guitarra.
Guitarra é antiquíssima palavra, que em sânscrito, língua amiga mãe do latim, dizia que era «música», «canção».
A música diz. Fala, recorta, modela, traduz. Expressa às vezes, em breves segundos, o que uma frase não consegue fazer. E tem um condão: é volátil. Desfaz-se no ar no momento em que quer pairar. Mas fica. E é repensada em melodia que faz dançar o pensamento. E brilha, brilha, brilha... Até vermos ao longe o encantamento de um pássaro, a voar pensativo às cordas de uma guitarra.
A voz surgiu-lhe. Em duas mãos, na imaginação prodigiosa da entrega.
A maior magia, aquela que despertava gestos generosos e que inspirava sorrisos, apertos de mão, longos abraços, era o calor solidário que detinha aquele grande espaço de alma. Dedicada aos outros, às grandes causas, as que podem abalar o mundo. Talvez não objecto de grandes aplausos em palco. Mas ele retinha milhões de palmas anónimas e só audíveis pelos muitos desconhecidos que compreendem o movimento que passa e perpassa na história dos homens.
Só por estúpida injustiça se poderia chamar-lhe ingénuo. Aquele olhar pensativo reflectia outro pensamento. Inconformado com aquilo que via e vivia. E querendo transformar a música funesta que ressoava à sua volta.
Por isso ele era comunista.
A sua vida é uma canção. Que ele nos deixa como herança.
Disse um dia que a música era tão importante para ele que não queria viver à custa dela. Se não fosse tão discreto de coração, tão honesto de alma, tão bondoso dos braços que abria, tão sincero nas mãos que tocavam o que sentia, tão simples na maneira de dar tudo o que podia, teria arrecadado milhões, mas escolheu apenas ser comunista.
Não lhe cortaram as mãos quando esteve preso. Mas sem guitarra inventou um pente, para tocar nas grades. Não teve fundações nem instituições com o seu nome. Mas deixou-nos a coisa mais importante que achou: a herança do seu caminho.

Aurélio Santos


Uma certa maneira de tocar

Embora se trate de um lugar-comum, permitam-me repeti-lo uma vez mais: não é nada fácil falar sobre Carlos Paredes.
Em primeiro lugar, porque, bem ouvidas as coisas, a sua música não é facilmente enquadrável no âmbito mais geral da música popular. Talvez porque, em determinados aspectos - como, de certo modo, também acontece com a música de António Pinho Vargas, embora noutro domínio musical completamente distinto -, existe na música de Carlos Paredes um tipo de desenvolvimento e trabalho musical que se aproxima do tratamento erudito da música popular.
Em segundo lugar, porque há variadíssimos aspectos na sua arte de tocar e compor que dificilmente são susceptíveis de resumir numa curta intervenção como deve ser esta.
Mas um outro aspecto não negligenciável deve ser tomado em consideração: a própria, desarmante, postura de Carlos Paredes. Arriscando novo lugar-comum (que melhor entenderão aqueles que com ele privam mais de perto), o problema é que o Paredes quase pede desculpa por tocar tão bem... E isto faz parte da sua grande qualidade humana, da sua humildade natural perante a música que cria.
Paredes pertence ao número daqueles artistas e criadores que menos falam de si, que menos aparato criam à sua volta, que menos fazem rodear as suas apresentações públicas de certa postiça encenação tão do gosto dos medíocres. Por isso mesmo, quando se ouve Paredes, seja qual for o ambiente ou a situação, os nossos reflexos não podem deixar de ser condicionados pelo choque das ideias - pretensamente claras mas desarrumadas, pretensamente racionais mas repletas de emoção -, pela estupefacção e perplexidade face à música que este homem, aparentemente tão comum, nos faz viver.
Descendente de várias gerações de grandes guitarristas, como o bisavô, o avô e sobretudo o pai, que não se cansa de exaltar, Carlos Paredes descende, assim, do pondo de vista da estética e da prática musical, de uma das mais importantes escolas da guitarra portuguesa, a guitarra coimbrã, estreitamente ligada às guitarradas e ao fado de Coimbra - sendo a outra escola mais importante a de Lisboa, também ela ligada ao fado lisboeta.
Mas há uma característica na arte de Paredes que me parece de interesse sublinhar: é que as próprias dificuldades expressivas da guitarra (e em particular a circunstância de todas as suas cordas serem de metal, portanto, irremediavelmente agrestes) contribuíram para que Carlos Paredes transcendesse a própria matéria do instrumento, a dominasse, a comandasse, lhe arrancasse qualidades insuspeitadas e acabasse por conduzir a guitarra, da sua condição de instrumento acompanhador, à de instrumento solista, ao mesmo tempo popular e, como atrás adiantei, erudito.
Outra surpreendente novidade prende-se com o imensamente versátil desmultiplicar de sonoridades que Paredes consegue extrair da guitarra, enquanto instrumento solista: ela é, ao mesmo tempo, bandolim, braguesa, piano, alaúde, órgão.
Ouvir Paredes tocar é, ainda, um acto criador, um acto de permanente descoberta. De sons, de ambientes, de imagens, ligadas à música, à vida. Artista profundamente empenhado em narrar musicalmente a realidade que o rodeia, Carlos Paredes consegue, como nenhum outro guitarrista, tirar de um instrumento que se diria, à partida, pobre (porque não completamente descoberto, investigado, experimentado) uma sonoridade única e grandiosa, a um tempo doce, mordaz, percussiva, subtil, sarcástica, violenta.
Mas ver Paredes a tocar, é também ficar de olhos fitos na sua atitude intelectual e física, em estreita comunhão com (e ligação à) guitarra. Desde o carinho com que a vigia, a suspende, a envolve, ao arrebatamento com que a inicia; desde a subtileza com que a percorre, desenhando sinuosas linhas melódicas, ao vigor com que nela rasga insuspeitados acordes - é vê-lo ondular, dialogar, respirar com ela.
Afinal, o tocar de Carlos Paredes é, também, uma certa maneira de amar.

Manuel Jorge Veloso *

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* Crítico musical - intervenção numa sessão-espectáculo de homenagem a Carlos Paredes. Iniciativa do Sector Intelectual do PCP no Centro de Trabalho Vitória, em 14.05.96.


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