• Miguel Inácio

Inauguração do Centro de Trabalho do PCP na Amareleja
«Honra em ser comunista»
Ao contrário dos desejos dos seus adversários o PCP avança. Sábado foi lançada mais uma pedra na construção do futuro, com a inauguração do Centro de Trabalho da Amareleja.
Muito mais de duzentos quilómetros separam Lisboa de uma das mais bonitas vilas do País: a Amareleja. À medida que caminhávamos em direcção ao Alentejo, deixando para trás a confusão da cidade, o quente da manhã prometia que aquele seria um propício dia para inaugurar a nova sede do PCP na Amareleja.
Durante o caminho, e antes de chegarmos a Reguengos de Monsaraz, deparámo-nos com um estranho cenário. O que outrora eram planícies a perder vista, com chaparros e cearas, é hoje um «mar» de água que parece não acabar, uma mudança brusca, no entanto soberba, de quem por ali não passava a alguns anos.
Continuando viagem, até porque já não faltava muito, chegámos a Amareleja. O Centro de Trabalho dos comunistas fica mesmo no centro da vila, na Praça Humberto Delgado, uma referência ao candidato à Presidência da República em 1958 e que foi assassinado pela PIDE em 1965.
A música, alentejana, e os carrinhos das farturas davam a entender que as Festas de Santa Maria ainda estavam para durar. Os habitantes, esses, escondidos do sol, à beira de uma sombra, olhavam intrigados para todos aqueles que não eram filhos da terra e que faziam fila para comprar bilhetes para a tourada, que nesse dia, à tarde, lá se iria realizar.
Entretanto, poucos minutos passavam das onze horas, já a sala do Centro de Trabalho do PCP se encontrava preenchida pelos camaradas que quiseram ver o resultado final das obras que, na opinião generalizada, era mais que positivo. Enquanto esperavam por Odete Santos, convidada para inaugurar aquele espaço, as conversas adensavam-se em tom de coro. A guerra do Iraque, a subida do preço dos combustíveis, a situação política nacional, os problemas da sua terra, a Festa do Avante!, tudo foi debatido pelos alentejanos.
Quando a convidada chegou, após os normais cumprimentos, iniciou-se a cerimónia.

Ligação à população

«PCP, o Partido da Classe Operária e de Todos os Trabalhadores» era o que se podia ler, em letras garrafais, numa das paredes da sala. Os desenhos de Álvaro Cunhal, feitos durante o tempo que esteve preso, e uma fotografia do comandante Che Guevara, adornavam o resto da sala.
«Esta casa é a base para o reforço em curso da organização partidária aqui na Amareleja», afirmou, no início da iniciativa, o responsável do PCP na freguesia, o camarada Domingos, destacando e valorizando a forte implantação eleitoral que o Partido e a CDU têm no concelho de Moura. Falou ainda nas dificuldades de execução do projecto e agradeceu o apoio que os comunistas da região deram àquele espaço.
Por seu lado, José Pós de Mina, presidente da Câmara Municipal de Moura, reafirmou a importância de levar mais longe o projecto da CDU, nas autarquias. «É fundamental termos um Partido forte, organizado, mobilizado. E como é evidente a existência de uma casa, onde os comunistas reunam, conversem, definem orientações, irá trazer uma melhor ligação à população da Amareleja», afirmou o autarca, desafinando os presentes: «esta espaço tem que ser de afirmação do PCP».
José Pós de Mina falou ainda nas nos cortes orçamentais e a política seguida pelos sucessivos governos em relação às autarquias, nomeadamente, as da CDU. «Este Governo limita e não transfere para as autarquias as verbas indispensáveis para resolver, por exemplo, o problema do investimento de água às freguesias do concelho de Moura, nomeadamente à Amareleja», denunciou, valorizando, sem a ajuda de nenhum outro partido, a promessa eleitoral anteriormente feita que era pavimentar e ter em condições todas as ruas, de todas as freguesias.
No final da sua intervenção, o autarca do PCP lembrou que falta pouco mais de um ano para que se realizem as próximas eleições municipais. «É necessário convencer as pessoas para a necessidade de criar um espaço político, para que as nossas propostas sejam aprovadas», concluiu.
Benedita, responsável do PCP no concelho, voltou a falar sobre o problema da água na freguesia. «Nós temos de explicar bem às pessoas que há um projecto no Ministério do Ambiente para ser aprovado e financiado. A responsabilidade não recai sobre o presidente da Câmara, mas sim no Governo. É isso que temos de dizer às pessoas, para que elas nos possam ajudar a exigir».

Fortalecer a organização

Dando os parabéns à organização local, Odete Santos, deputada do PCP na Assembleia da República, começou a sua intervenção falando da importância dos Centros de Trabalho. «Os Centros de Trabalho são muito importantes porque é a forma das pessoas se reunirem, de fortalecer a organização. É preciso a ligação às massas para explicar as coisas que as pessoas não compreendem», disse a deputada comunista.
Para ilustrar esta situação, Odete Santos deu como exemplo Cuba, onde a ligação às massas «é de facto fundamental». «Muitos diziam que Cuba cairia após a queda dos blocos socialistas. Afinal a Revolução cubana manteve-se, porque esta ligação às massas existe. Quem já teve a oportunidade de visitar aquela ilha sabe que isto corresponde exactamente à verdade», destacou.
Baseando a sua intervenção na importância da leitura do Avante!, Órgão Central do PCP, Odete Santos destacou o editorial e o tema que por lá se tratava: o silênciamento, por parte dos outros órgão de comunicação social, do trabalho dos comunistas. «Houve, por exemplo, uma conferência de imprensa sobre os fogos florestais que os jornais nacionais calaram pura e simplesmente e nada disseram acerca disso», referiu, sublinhando que o Partido não está parado, «tem tomado posições sobre vários problemas da vida nacional, nomeadamente em relação às questões da justiça, que agora continuam a vir a luz do dia, nomeadamente neste episódio das cassetes piratas roubadas».
Entretanto, segundo disse, «o PCP tem sofrido grandes embates, mas tem conseguido a unidade, a coesão interna dos comunistas. É importante que surjamos perante o povo, os trabalhadores, a classe operária, como um Partido forte. Se o PCP não existisse, onde podem os trabalhadores encontrar quem defenda as suas lutas?», interrogou-se, dando a resposta: «A história diz-nos que é nos comunistas que classe operária e os trabalhadores podem encontrar os seus defensores».

Combater as desigualdades

Manifestando-se orgulhosa e honrada por ser do PCP, Odete Santos defendeu, perante uma audiência de mais de 30 camaradas, que «o comunismo é o sistema da justiça social, o sistema que combate as desigualdades, o sistema que garante direitos, que reivindica direitos para os mais desprotegidos, para as mulheres, é o sistema que, por exemplo, combate a pobreza em Portugal. É uma honra ser comunista e pertencer ao PCP, que tantas tradições de luta tem, de luta pela pátria, contra a colonização de outros países ao nosso».
Por isto tudo, a deputada fez um apelo a todos os comunistas da Amareleja, em relação ao Congresso do PCP. «Agora aqui será mais fácil. Têm um Centro de Trabalho para a discussão dos documentos do próximo Congresso. É importante fortalecer-nos, resistir, mesmo à nova Lei dos Partidos Políticos que a direita e o PS cozinharam, entre si, expressamente contra o PCP», afirmou.
«Nós vamos demonstrar-lhes, no próximo Congresso, que somos um Partido forte, um Partido unido, e que a classe operária e os trabalhadores podem contar connosco para defender os seus interesses, para defender a pátria, os interesses de Portugal, da agricultura, da indústria, da evolução e investigação cientifica, porque nós, desde o nascimento do PCP, sempre temos dado provas de que verdadeiramente amamos a pátria e as pessoas que a compõe», concluiu. As suas palavras transformaram-se em força, e, de punho erguido, gritaram bem alto: «Viva o Partido Comunista Português».


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