O lugar da música e da conversa
Música e palavra foram os componentes essenciais dos pequenos palcos que quase a cada esquina se encontravam na Atalaia. Palco Arraial, Palco Setúbal e Café Concerto foram sinónimo de muitas horas de entretenimento e debate de ideias, porque a Festa do Avante! é alegria e divertimento, mas também intervenção social, discussão de perspectivas, informação e esclarecimento.
Samba brasileiro, canções tradicionais portuguesas, ranchos folclóricos e blues foram alguns dos estilos musicais que passaram pelos palcos, intervalados por alguns debates. No Café Concerto de Lisboa discutiu-se na tarde de sábado o livro de Lenine «O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo», obra redigida durante a Primeira Guerra Mundial, num aprofundamento criativo do marxismo, nomeadamente da lei da concentração do capital.
A actualidade desta obra é indesmentível quando se assiste, por exemplo, à guerra do Iraque. Lenine afirma que, quando as potências coloniais ocupam todos os territórios possíveis, a mudança do poder sobre estes têm de passar pela força. Silas Cerqueira considera que desde 1989 estes traços se acentuam e que actualmente a luta contra o terrorismo se transformou num mecanismo de guerra infinita que procura acabar com as revoluções e as democracias.
Jorge Cadima lembrou que o desaparecimento da União Soviética trouxe um desequilíbrio a favor da reacção e muitos perigos para a paz e o progresso. «Hoje, verifica-se uma disputa por esferas de influência, de recursos e de territórios, tal como o PCP previu no início da década de 90, baseando-se na teoria marxista, nesta obra de Lenine e na observação da realidade», referiu.
«Hoje diz-se que tudo é novo e que nada há a aprender com o passado. A tecnologia é de facto nova, mas o resto não. Com esta ideia pretende-se apagar a memória histórica sobre o imperialismo, as guerras e a exploração dos povos e fazer com que os trabalhadores cometam os mesmos erros. É preciso fazer com que este património não se perca», sublinhou.
O livro de Lenine «ajuda a compreender o mundo de hoje, dando-nos conceitos, interpretações e análises», lembrou Rui Namorado Rosa. É uma realidade onde um quarto do produto mundial corresponde ao volume dos negócios das maiores multinacionais e onde uma potência – os Estados Unidos – têm um papel hegemónico. «Os monopólios são cada vez mais monopolistas e na última década registaram-se inúmeras fusões e aquisições de grandes empresas. O comércio internacional acelerou, num processo muito assimétrico, porque o poder está nos países capitalistas e as dívidas de muitos triliões de dólares nos países do terceiro mundo», acrescentou.

A necessidade da arte

«Arte, Necessidade e Transformação» foi o tema do debate que se realizou no Café Concerto no domingo. Como salientou Filipe Dinis, as primeiras expressões artísticas antecedem em 15 mil anos a agricultura, mostrando como a arte é intrínseca ao ser humano. «A arte é um elemento essencial do processo de transformação e emancipação do homem», referiu.
A arte junta o prazer criativo e a abstracção e criação de símbolos para compreender a realidade. Neste processo, «há uma relação dialéctica entre arte e sociedade, influenciando-se mútua e infinitamente», defendeu José Pessoa, para quem a arte descomprometida é um mito: «A arte sempre serviu ideologias, mas é um meio de conhecer a vida e a nossa realidade.» Aliás, a expressão artística e o património constituem igualmente a defesa da identidade dos povos, sublinhou.
«Não há liberdade artística total, porque, embora a arte tenha leis autónomas, insere-se sempre na sociedade», declarou Manuel Augusto Araújo, dando como exemplo o quadro «Guernica», de Picasso, que considerou ser o melhor documento do massacre naquela localidade espanhola.
Irene Sá definiu a arte como técnica e manifestação de criatividade, salientando que a expressão visual é uma função essencial do ser humano. «Importa na formação do indivíduo e não apenas na ocupação dos tempos livres», sustentou.


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