• Anabela Fino

«Esta oliveira é nossa»
No ano em que o espaço internacional adoptou como tema central «A solidariedade internacional e internacionalista na luta pela democracia, a paz e o socialismo», nada mais natural do que ver nascer na Festa um painel exigindo a «Retirada imediata da GNR do Iraque».
Porque a expressão artística raramente é linear, foi precisa uma boa dose de paciência e outra tanta de imaginação para decifrar - acreditamos - uma das palavras de ordem do mural: «Esta oliveira é nossa». A ideia é bela, comovente, plena de significado. Numa época marcada pela guerra que o imperialismo parece apostado em levar a todo o lado; num tempo em que um dos expoentes da intolerância e do belicismo - Israel - arranca oliveiras milenares da Palestina para afirmar o seu domínio; numa conjuntura em que gerações inteiras são condenadas à fome por míngua de alimento do corpo e do espírito, faz sentido evocar a oliveira como património dos povos que se querem livres num mundo de justiça e de paz.
Expresso de múltiplas formas, o mesmo sentimento perpassava pelos diferentes stands presentes no espaço internacional: PDS e DKP (Alemanha); MPLA (Angola); PC da Bolívia; PT do Brasil; PAICV (Cabo Verde); PC da China; «Resistência» (Colômbia); PC de Cuba; PC de Espanha; Bloco Nacionalista Galego (Galiza); Partido dos Comunistas da Catalunha; «L’Humanité» (França); PC da Grécia; Partido FRELIMO (Moçambique); Partido dos Comunistas Italianos (Itália); Partido da Refundação Comunista (Itália); Organização de Libertação da Palestina; PC Peruano; FRETILIN (Timor Leste); PC da Turquia; PC da Venezuela; espaço da Paz e Solidariedade; Associação de Amizade Portugal-Cuba e Associação Iuri Gagarine.

Uma luta comum

Diferentes na maneira de ser e de estar, cada delegação empenhou-se em fazer do seu stand uma espécie de cartão de visita para melhor se dar a conhecer.
A Galiza, por exemplo, apresentou-se com os versos de Manuel Mana:
Galiza somos nós:
a xente e maila fala.
Se buscas a Galiza
en ti tes que atopala.

Já a Palestina surpreendeu os visitantes pelo toque de religiosidade expresso através de imagens esculpidas em madeira de oliveira, em plena coexistência pacífica com os tradicionais lenços que se tornaram símbolo da solidariedade com um povo em luta pelo direito à sua terra e ao seu Estado livre e independente.
Da Alemanha chegaram notícias da luta dos povos por uma outra Europa, que não a do capital, e testemunhos dos profundos golpes sofridos nos últimos anos pela classe operária no domínio das conquistas sociais: cortes nas reformas, nos subsídios de desemprego, na saúde..., que vão enchendo os cofres do capital. A reavivar memórias, um folheto do DKP lembrava, neste ano em que se comemora o 30.º aniversário da Revolução de Abril, que vale a pena «relembrar não só as conquistas da Revolução, mas ainda que a reacção portuguesa rapidamente pôde contar com a ajuda da reacção alemã», designadamente através da ajuda prestada pelos «serviços secretos e pela social-democracia» ao capitalismo português.
Da Turquia a Cuba, da Catalunha à Venezuela, da Coreia a Cabo Verde, da Itália ao Brasil, de Angola a Timor, da China à Colômbia, os produtos regionais estiveram lado a lado com as mensagens de luta pela paz e de solidariedade.
Entre as butifarras (salchichas) da Catalunha e os tónicos de ginseng (Coreia), os leques chineses e as lãs peruanas, no espaço internacional ia o tempo de um abraço a matar saudades de amigos, dois dedos de conversa a saborear uma bebida fresca, um debate acalorado sobre a situação no Brasil ou as eleições na Venezuela. Um quase nada ou o tempo que fosse preciso, que a Festa é isso, não só marcar presença mas estar disponível, para falar e ouvir, para dar e receber.
«O petróleo mata» e «Viva Cuba», pela «Paz e pelo Socialismo», «Viva a Solidariedade Internacional». Palavras de ordem que traduzem razões de luta, que é como quem diz razões de vida.


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