• João Chasqueira e Domingos Mealha

Pavilhão Central
Abril com os olhos no futuro
O Pavilhão Central voltou a ser o espaço político por excelência da Festa. Em nenhum outro, como ali, em diferentes suportes materiais, do painel gráfico ao audiovisual, sempre com um elevadíssimo nível de rigor e perfeição técnica, é tratada e exposta a mensagem do PCP.
A sua ideologia, como partido da classe operária, as suas ideias e propostas, os seus pontos de vista sobre os grandes problemas do País e do Mundo, a sua actividade e luta, o seu projecto, tudo - numa síntese abarcando o essencial -, esteve presente, com clareza, nos conteúdos do Pavilhão Central.
Local que foi, ainda, um ponto de encontro obrigatório para quantos quiseram reflectir ou proceder a uma troca de impressões sobre grandes temas que marcam a actualidade. E foram muitas, durante os três dias, as pessoas, de todas as idades, que seguiram de modo atento e participativo os dez debates do Fórum e do À Conversa com...

Projecto arrojado

E porque tudo foi feito a pensar no visitante, um cuidado especial foi dado ao projecto do Pavilhão, uma estrutura edificada de grande porte, imponente (que não majestática), implantada longitudinalmente a partir da Praça da Paz, em desenvolvimento paralelo a um dos principais eixos da Festa, bem no coração desta, a Avenida da Liberdade.
Constituindo-se como um referente arquitectónico, sobressaindo na paisagem da Atalaia, com o vermelho forte dos seus panos a envolver a quota superior das laterais e da cobertura, em lâminas paralelas, alternadas por espaços rasgados para a entrada de luz - com isso garantindo transparências que penetravam no seu interior -, o Pavilhão voltou a oferecer renovados motivos de interesse para uma visita.

Oferta diversificada

Valorizado no exterior por quatro telas de grandes dimensões onde estavam impressas obras de artistas plásticos alusivas ao 25 de Abril (um painel, isolado, de Rogério Ribeiro e três outros da autoria de João Vieira, José Fazenda e Santa Bárbara) era ainda no interior do Pavilhão que melhor se entendia a grandeza e a própria complexidade do projecto.
À vista, numa apertada malha, eram as toneladas de tubo que suportavam a estrutura a adquirirem a dimensão de objecto artístico, causando efeito visual de grande beleza que não podia deixar de causar uma forte impressão ao visitante.
Sem que essa malha de ferro, quase labiríntica, suspensa no ar, perturbasse a leitura da informação ou a fluidez de circulação das pessoas, que, ao longo dos três dias, sempre em elevadíssimo número, percorreram o espaço, desfrutando das múltiplas propostas e conteúdos que o mesmo oferecia.

Que viva Abril

Sempre num convite à reflexão e ao conhecimento, ao visitante, por exemplo - e esta foi sem dúvida a grande aposta deste ano –, foi dado ensejo de rever, numa viagem pela memória colectiva, o nosso passado recente.
«Que Viva Abril, Sempre», assim se chamava a belíssima exposição desenvolvida ao longo de um percurso não linear, marcado inicialmente pelo negro, em fundo, nos painéis que o ladeavam. Totalmente preenchidos por texto e imagem alusivos a esse período terrível da nossa história – um tempo em que dominou o fascismo, o Tarrafal, a PIDE – , o negro dos painéis dava lugar depois ao vermelho da heróica luta do PCP contra a ditadura de Salazar e Caetano (ali testemunhada, entre outros materiais, pela réplica de uma casa com uma tipografia clandestina), vindo o curso da exposição desaguar, depois, na madrugada do 25 de Abril, que abriu as portas da liberdade, já em pleno coração do Pavilhão Central.

Registos com história

E era neste espaço, amplo, que a exposição, a uma outra escala, adquiria uma nova pujança e dimensão, com «Os 30 anos, 30 registos que fizeram história», retidos pela objectiva de quem a eles teve a sorte de assistir e ampliados em papel de grande formato e em telas de quatro por dois metros e meio.
Momentos que ficam como páginas inesquecíveis da luta do povo português por um País novo, como as campanhas de alfabetização e dinamização cultural no Verão de 1974 ou o arranque da Reforma Agrária, o primeiro grande comício do PCP no Campo Pequeno, as primeiras eleições livres para a Constituinte, a criação do salário mínimo nacional ou o primeiro Congresso da Intersindical.
Destaque, ainda, nesta exposição, para o painel de mais de 20 metros, semeado de cravos, onde, exaltando a Revolução do 25 de Abril, salientado era o significado da sua comemoração nos dias de hoje, seguindo-se, «em nome da verdade», uma desmontagem das mentiras e falsificações dos seus detractores, para terminar com a convicção de que «há outro caminho» e de que «está nas nossas mãos» lutar por mais democracia e mais justiça social para «retomar os caminhos de Abril».
Duas outras exposições ofereciam igualmente motivos suficientes para despertar a curiosidade de quem passou pelo Pavilhão: uma, dedicada à imprensa do Partido, testemunhando o que têm sido as grandiosas jornadas do 1.º de Maio através das páginas do Avante!; a outra, pondo em relevo a actividade geral do PCP, com destaque para as suas propostas, para as lutas sociais e laborais e para as próximas eleições regionais nos Açores e Madeira.

Auditórios à cunha

E por falar em lutas - inevitáveis, ontem como hoje, perante as injustiças do sistema capitalista e sua natureza exploradora e repressiva – , delas se falou também em alguns dos documentários, como o da «Luta pelas oito horas nos campos do Sul», projectados, em contínuo, em dois auditórios existentes no interior do Pavilhão.
Uma solução, inédita nos termos propostos, que foi, também, de resto, mais um caso de sucesso na diversificada oferta do Pavilhão Central, atendendo às plateias interessadas que suscitou, ao longo de cada dia, e que tiveram oportunidade de assistir, entre outros filmes, ao que regista o espectáculo «As Canções do 25 de Abril», no Coliseu do Porto, em 1997, ao documentário «As Portas que Abril abriu», baseado na obra homónima de Ary dos Santos ou ao «Guitar», evocativo da memória do saudoso Carlos Paredes.
Relevo ainda no programa destes auditórios para a estreia do filme «Quem é Ricardo?», curta metragem de José Borahona, sobre texto do escritor Mário de Carvalho, que trata o processo de detenção e tortura de um preso político.
No debate que se seguiu, com a presença do realizador, da produtora e de alguns actores, acabou por viver-se uma atmosfera de grande emoção com o relato dos camaradas Álvaro Pato e José Pedro Soares sobre as suas próprias experiências vividas nas masmorras fascistas.

Komunix

Novidade, este ano – a saldar-se também por um enorme êxito - , foi também o Komunix, como era designado o espaço dedicado às tecnologias da informação e da comunicação.
Em grande destaque esteve o software livre, que foi tema de uma exposição, onde detalhadamente eram explicadas todas as suas vantagens, sendo ainda objecto de três acções de formação, sempre muito concorridas, como o foram os seis computadores disponibilizados ao público.
Nota de registo, para além dos três debates realizados, todos eles com elevada participação, merece a edição do CD «Komunix V. 1.0», baseado no sistema operativo livre Linux. A procura foi tal que o Komunix esgotou, ficando a promessa dos camaradas do grupo de trabalho do PCP para as novas tecnologias de informação de que haverá uma reedição, em breve, cuja data precisa será anunciada na página do PCP.

Ary e «Grândolas» esgotam

Sobre o Pavilhão Central, onde outros acontecimentos relevante tiveram lugar, como o Espaço da Ciência e Tecnologia ou a exposição de homenagem a Júlio Diniz, uma nota de destaque final para o Café d'a Amizade, aprazível espaço a convidar à camaradagem e ao convívio, bem como para a «Loja da Festa», que, este ano, em moldes inovadores, ofereceu uma gama variada de artigos, alguns de tal modo apelativos, como os conjuntos de CD´s de Ary dos Santos e das «Grândolas», que viram as suas edições esgotadas.


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