A «alma» da fome
Ao entrar no espaço da ciência e da tecnologia, junto ao Café da Amizade, um painel gritava aos visitantes que «a alma da fome é política». Esta poderia ser a conclusão a tirar no final da visita à exposição que teve por tema «Fome: Passado, Presente e Futuro» e que também teve um lema: «Pelo Pão e Pela Paz».
Assim, logo à chegada, o enfoque era colocado numa ideia que depois surgia sob várias formas. Sobressaíam citações de Camões ou Paul McCartney, de Isaac Newton ou Emílio Peres, Bento de Jesus Caraça, Soeiro Pereira Gomes, Miguel Torga, obras de pintores e fotógrafos (mas Sebastião Salgado também ali se expressava por palavras...). Íamos observando instrumentos de trabalho na agricultura, admirando o que o museu de Seia faz com o pão, parando frente a dados sobre a evolução climática ou o consumo de energia, as fontes energéticas alternativas.
Especificando os principais géneros alimentícios, um quadro mostrava o extremamente baixo grau de aprovisionamento – logo, a elevada dependência externa – de Portugal. Ali perto, tratando o tema da fome e subnutrição no Mundo, afirmava-se com a firmeza que resulta dos estudos realizados ao longo dos anos por organizações como a FAO (das Nações Unidas): «A agricultura produz, mas a procura restringe-se ao mercado, exclui a população demasiado pobre». O significado era ainda melhor compreendido com os números da fome e da pobreza: mais de mil milhões de pessoas sobrevivem com um dólar ou menos por dia.
Um dos quadros exigiu mais tempo ao visitante incrédulo. Pois, era difícil acreditar, mas os termos de comparação ali estavam, expressos em dólares americanos:
- 8 dólares é a ajuda da União Europeia prestada, em média, a um habitante da África subsaariana;
- 490 dólares é o rendimento anual por cada habitante daquela região;
- 913 dólares é o valor anual do subsídio da UE por cada vaca.
O choque da distribuição de água de beber tratada era igualmente ríspido, denunciando que «o mundo tem sede» e que, nos cinco minutos que deveria ter demorado a conhecer aquela dezena de painéis, 20 crianças morreram de sede no nosso globo.
Estava bem presente a afirmação de que é possível e necessário alterar este estado de coisas. Começando por cada um de nós, que ali recolhia conhecimentos e conselhos para uma alimentação saudável, terminando no colectivo empenho na transformação social, quer por um concurso entre alunos de diversas escolas, quer pelas propostas e acção do PCP, quer pela opção a favor da agricultura biológica (comprando alimentos numa banca, à saída da exposição).
Os temas da fome como arma política, da agricultura biológica e dos transgénicos, e da alimentação e saúde foram ainda tratados num pequeno anfiteatro destinado a debates. O campo da ciência alargou-se, aqui como na Festa, a outras questões actuais: as perspectivas económicas e políticas do software livre e como se tece a rede da Internet.

Astronomia

A observação e a experimentação científicas ocuparam o lugar que é tradicional e fielmente procurado por muitos dos visitantes regulares da Festa e que cativa muitos outros: junto ao lago, a caminho do Auditório 1.º de Maio, numa tenda onde computadores conviviam com uma cama de pregos e outros objectos, à primeira vista nada científicos. A estrela do local continuou a ser a astronomia, com muitas centenas de pessoas a colocarem pela primeira vez um olho no telescópio.

MD


 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: