• Carlos Nabais

Avanteatro
Um palco de portas abertas
- A peça já começou?
- Sim, mas a sala está cheia. Já não há lugares. Se quiser ficar de pé, pode ir espreitar.

Este diálogo repetiu-se vezes sem conta junto à entrada do palco do Avanteatro. Invariavelmente esgotada, independentemente do tipo de espectáculo ou da hora (algumas peças começaram muito para lá da meia-noite), sala recebeu muitas centenas se não milhares de visitantes, atraídos por encenações de reconhecida qualidade ou movidos por aquela curiosidade de quem diz para si próprio, ora vamos lá ver o que se passa ali dentro. E muitos deixavam-se ficar, agarrados pelo mistério da representação, dos gestos e das palavras, da luz e da penumbra, da música.
Ao longo dos anos, o Avanteatro tem desempenhado um papel ímpar na divulgação do bom teatro que se faz em Portugal, constituindo um dos raros espaços, cujas portas abertas em permanência são um convite a todos, entendidos e leigos, aos frequentadores habituais e aos que nunca tinham visto o pano subir.
A esta diversidade de público, os organizadores respondem com uma variedade de espectáculos. Do mais arrojado e experimentalista, como a peça que abriu a programação deste ano, «A Padeira de Aljubarrota», às estórias tradicionais de Dom Roberto, interpretadas com mestria pelas marionetas do Fio de Azeite.
Sobre «A Padeira de Aljubarrota», peça que resultou de uma co-produção entre o Avanteatro e a Associação Cultura Menina dos Meus Olhos, deveremos no mínimo assinalar que se trata de um espectáculo de grande criatividade e imaginação, onde se cruzam um sem número de linguagens e línguas (fala-se francês, inglês, «mediavalês», «portunhol», etc.). A temática parte do mito de Aljubarrota, aborda o tema da independência, fazendo referência à invasão do mercado nacional pelas marcas espanholas, e detém-se no papel da mulher na sociedade actual.
Na mesma noite, a seguir ao teatro de rua, «Sima Meta Morfosis», apresentado no largo defronte à Cidade Internacional, a companhia almadense, Teatro Extremo, levou à cena a peça do autor romeno, Matel Visniec, «Velho Palhaço Precisa-se», que constitui uma parábola sobre a feroz competição entre pessoas na sociedade actual. Três velhos palhaços «degladiam-se» perante uma oportunidade de emprego que, no final, nenhum deles consegue obter.
Na manhã de sábado, uma peça infantil realizada pelo Fio de Azeite, surpreendeu pelo seu interesse pedagógico. Em «O Gato Cantor» junta-se o encanto das marionetas com a interpretação de belas árias de ópera, convenientemente explicadas pela cantora lírica Luís Rodrigues de Freitas. A companhia voltou na manhã de domingo a animar miúdos e graúdos com as «Novas Histórias de Dom Roberto».
«A Grande Imprecação diante das Muralhas da Cidade», um pujante texto estreado em Portugal em 3 de Janeiro de 1974, foi uma dos momentos altos vividos no passado fim-de-semana no Avanteatro. A peça, que regressou aos palcos numa encenação do Teatro dos Aloés, dirigida por José Peixoto, relata o desespero de uma mulher que procura em vão recuperar o seu marido recrutado à força para os exércitos do Imperador. Apesar de se lhe apresentar um estranho, a mulher tenta convencer os oficiais de que se trata do seu homem e procura tornar verosímeis as histórias díspares que ambos são obrigados a contar sobre um passado comum que nunca tiveram.
Horas antes, durante a tarde de sábado, o palco recebeu uma original peça intitulada «Subtone», que mostra a jornada de trabalho de uma empregada de limpeza, num apartamento tão minúsculo quanto sofisticado, repleto de tecnologias que nem sempre funcionam como se espera. No final, durante um atelier, os criadores explicaram como nasceu a ideia de fazer um espectáculo sem palavras, assumindo a dança como meio de expressão e as influências directas do realizador e actor francês Jacques Tati, e do seu personagem Mr. Hulot. Ao público presente mostraram e explicaram ainda o funcionamento do cenário, os truques e técnicas utilizados para criar a ilusão dos automatismos vistos durante a representação.
A outra incursão no domínio da dança foi «António Miguel», espectáculo interpretado na madrugada de domingo por Miguel Pereira e António Tagliarini.
A programação do palco encerrou com «Autos da Revolução», peça evocativa dos 30 anos do 25 de Abril, construída com base em textos de António Lobo Antunes, na qual se confrontam os pontos de vista de sete personagens: um carregador de mudanças, um tenente-coronel, um militante maoísta, uma criada, uma camponesa, uma burguesa religiosa e um patrão.
Durante os três dias, no Bar do Avanteatro, houve música noite dentro, com Rui Pedro e Pedro Joel, Rui Júnior e amigos e o Quarteto de Jazz de Miguel Amado.


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