As políticas anti-sociais levaram ao descrédito da social-democracia
Alemanha
Terramoto eleitoral no leste
Os resultados das eleições de domingo, dia 19, em Brandemburgo e a Saxónia, confirmaram o crescente descrédito popular da social-democracia e da democracia-cristã, severamente penalizadas pelo eleitorado.
Amarrados um ao outro na desmontagem dos sistemas sociais e dos direitos dos trabalhadores como duas alas de um partido único neoliberal, SPD e CDU sofreram naqueles dois Estados a maior derrota eleitoral conjunta dos chamados «partidos populares».
O «partido» político mais votado foi o dos abstencionistas com valores entre os 41 e 44 por cento. Em Brandemburgo os dois partidos da coligação governamental (SPD e CDU) perderam conjuntamente 14,6 por cento (-106 mil votos), em relação a 1999.
Na Saxónia, enquanto os democratas-cristãos (CDU) baixaram de 56,9 para 41,1 por cento (-320 mil votos), os sociais-democratas (SPD) ficaram-se pelos 9,8 por cento seguidos de muito perto pelos neonazis do NPD com 9,2 por cento.
Em 28 dos 60 círculos eleitorais daquele Estado, o NPD ficou mesmo à frente do SPD com margens que chegam a atingir 15,1 por cento (NPD) contra 5,6 por cento (SPD). O PDS sobe ligeiramente na Saxónia de 22,2 para 23,6 por cento e mais acentuadamente no Brandemburgo, de 23,3 para 28 por cento, ultrapassando a democracia-cristã.

Profundo descontentamento

Estes actos eleitorais confirmam o profundo descontentamento popular expresso nas «manifestações das segundas-feiras», que se realizaram pela nona semana consecutiva, contestando a desastrosa política do chanceler Schröder contra os desempregados e denunciando a falência do chamado processo de «reunificação».
No próximo domingo, nas eleições autárquicas que se efectuarão na Renânia do Norte e Vestefália, são esperadas novamente grandes derrotas para a social-democracia. Alguns candidatos social-democratas, como é o caso da presidente da câmara de Bona, optaram por renunciar ao símbolo do SPD nos cartazes e na propaganda eleitoral com receio de sofrerem uma maior penalização.
Enquanto o chanceler Schröder numa linha suicida continua a insistir que não há alternativa para a sua política de terra queimada (e provavelmente não haverá no quadro do capitalismo), na democracia-cristã, como salienta o Die Welt, rebentou a polémica sobre a necessidade de um plano contra o desemprego, o que aponta pelo menos para uma mudança de retórica.

A subida dos neonazis

Outro aspecto destas eleições é a subida espectacular dos neonazis do NPD, subida essa que não se pode desligar do processo de revisionismo histórico se tem vindo a verificar na Alemanha desde a «reunificação» e que consiste essencialmente em apresentar «o povo alemão» não como vítima do nazismo, mas das forças que acabaram por libertar a Europa do Leste, como é o caso da URSS e do exército vermelho.
Os programas televisivos que propagam esta falsificação da História são cada vez mais numerosos. Por outro lado, com a expansão da União Europeia para o Leste têm vindo a aumentar as pretensões revanchistas da Alemanha em relação aos Sudetas na República Checa e a algumas regiões da Polónia, o que levou recentemente o Parlamento em Varsóvia, num acto de autodefesa, a votar o direito da Polónia de exigir reparações de guerra à Alemanha.
Apenas dois dias após as eleições em Brandemburgo e no Leste, o chanceler Schröder inaugurou uma exposição de arte em Berlim, adquirida com dinheiros do império Flick, um dos organizadores e beneficiários do trabalho escravo no regime nazi. Ainda há poucos anos, como presidente de uma comissão parlamentar de inquérito, o actual Ministro do Interior Otto Schiliy afirmava ter sido um erro não se ter expropriado os Flicks que enriqueceram à custa do nazismo.
A presença muito contestada de Schröder ao lado do Flick Junior, na abertura desta exposição, ilustra bem a viragem ideológica e a capitulação de determinados sectores da social-democracia e mesmo de algumas ex-forças de esquerda. Não admira pois que uma parte importante da juventude e do eleitorado alemão se deixe enganar pelo canto da sereia da extrema-direita mais agressiva.


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