50.º aniversário da travessia do Canal da Mancha
Baptista Pereira, o campeão do povo
Quando Baptista Pereira Nasceu, a 7 de Março de 1921, já o Canal da Mancha havia sido atravessado por dois nadadores. No entanto, quando se inscreveu na prova, estava determinado não só a cumpri-la, mas a vencê-la. Foi a vitória de um homem simples, do povo, filho dele, dos seus sentimentos e da sua alma e de um atleta extraordinário.
Desde o século XIX que a travessia a nado do Canal da Mancha constituía um desafio para os mais audazes. Há histórias rocambolescas, outras trágicas, que nos dão conta das tentativas que homens sem medo fizeram para ter a alegria de conseguirem tão arrojado feito.
Reza a história da natação mundial de que somente a 24 de Agosto de 1875, o súbdito inglês Matthew Webb, marinheiro de profissão, «capitão Webb» de alcunha, conseguiu ter o privilégio de ser o primeiro nadador a conseguir tal feito, gastando o tempo de 21 horas, 44 minutos e 55 segundos.
Passou pois a constituir atracção anual a travessia do Canal da Mancha, interrompida aqui e ali por acontecimentos revelantes como foi o caso dos dois conflitos mundiais (1914-1918 e 1939-1945). Terminada a segunda guerra mundial, a travessia do Canal da Mancha passa a ser incluída no calendário das provas internacionais de natação.
Portugal nunca revelara entre os seus praticantes de natação, valores que se pudessem considerar de nível internacional; se havia uma ou outra excepção (Azinhais, Mário Simas, etc...), eram de facto tão poucos os nadadores de verdadeiro valor, que não chegavam a dar nas vistas.
Entretanto, Joaquim Baptista Pereira, nascido em Alhandra a 7 de Março de 1921, filho de gente pobre, que da apanha do moliço fazia o seu ganha pão, desde menino se sentia atraído pelas águas do Tejo, fazendo dos esteiros a sua «piscina olímpica». Quantas vezes atravessou o rio para ir ao «lado de lá» matar a fome com a fruta apanhada nas quintas de Alcochete.
A vida dura tornou-o num garoto rebelde. Trabalhou nos telhais, fábricas de telha instaladas à beira Tejo. Gineto era seu «nome de guerra», no meio da malta, aquele que o escritor comunista Joaquim Soeiro Pereira Gomes tão bem ilustrou no livro «Esteiros».
Baptista Pereira, em representação do Alhandra Sporting Clube, vinha somando vitórias na prática da natação desde 1935, tinha ele 15 anos. Seria de facto dos poucos nadadores portugueses, capazes de impor respeito a nível internacional. Fez-se um verdadeiro campeão, tendo na altura em sua posse os recordes nacionais dos 200 e 1500 metros.

Vítima da ditadura

Precisava de oportunidades e teve-as, não por força de apoios oficiais, mas fundamentalmente pela sua teimosia e ajuda das gentes da sua Alhandra e do Baixo Ribatejo, que nunca lhe regatearam carinho e apoio. O calendário da natação em piscina, em Portugal, não só era reduzido, como reduzido era o número de clubes e praticantes.
Em 1946 faz parte de uma equipa portuguesa que se desloca a Tenerife (Canárias) para disputa do IV Portugal-Espanha. Não tem uma prestação brilhante, mas acaba por ser vítima do salazarismo envenenado que naquele tempo também abrangia o desporto português.
A sua corajosa atitude de levantar o punho cerrado frente a um painel gigante do ditador espanhol, enquanto outros faziam a saudação fascista, valeu-lhe a irradiação de toda a prática desportiva, por proposta do chefe da delegação portuguesa, o inspector dos desportos Ayala Boto.
Parecia que acabava ali a carreira de um «homem que nunca fora menino». No entanto, a forte contestação popular, com manifestações da mais diversa ordem, traduzidas em exposições às entidades desportivas nacionais, partindo do Alhandra Sporting Clube, Junta de Freguesia de Alhandra e Associação de Natação de Lisboa, não deixou que isso acontecesse.
Os servidores do regime começaram a sentir que o castigo a Baptista Pereira se estava a transformar em arma política contra o governo de Salazar. É assim que o nadador, em pouco menos de dois anos, vê resolvida a sua situação desportiva, com a revogação do seu castigo. O campeão do povo regressa, mas, desta vez, envereda pelas provas de longa distância, onde mais uma vez vem ao de cima as suas excepcionais qualidades de nadador.
Em 25 de Outubro de 1953 bate o recorde da travessia do Estreito de Gibraltar, gastando cinco horas e quatro minutos. Em 1956 voltar a bater o seu próprio recorde, expendendo desta vez quatro horas, trinta e quatro minutos e seis segundo. Tem ainda participações méritosas em Atlantic City, Paris e no Nilo, embora não tenho conseguido superar os azares surgidos na altura. Nunca esmoreceu, sabia que melhores dias haviam de chegar.
Em 1954 inscreve-se para a travessia do Canal da Mancha, como que num desafio a si próprio, pois havia no lote de catorze concorrentes, de onze nações, alguns que lhe haviam ganho antes, noutras provas internacionais, como era o caso do egípcio Hammad o «Crocodilo do Nilo». Era para «gineto» um verdadeiro «tira teimas».

Uma das maiores proezas do desporto português

Sobre o histórico feito do camarada Baptista Pereira, escreveu na ocasião o jornalista desportivo Carlos Miranda: «Não se tratava só de fazer a travessia do Canal, o que, por si, já era uma tarefa espinhosa. Era isso sim, chegar primeiro que todos os outros...Na balbúrdia da partida, Baptista Pereira fica um pouco para trás...Meia hora de prova...o nadador de Alhandra era já o primeiro, à frente do egípcio Hammad, o «Crocodilo do Nilo», como era conhecido pelos seus patrícios... Começava bem, mas havia tanto para nadar...Com cinco horas de prova, Baptista Pereira está sensivelmente a meio do Canal e já tem cerca de duas milhas de avanço sobre Hammad...Nasce o dia...Do maltês Arthur Rizzo que inicialmente tinha acompanhado Baptista Pereira, já não há notícias...Estão percorridas três quartas partes da distância. Pressente-se que o assunto agora é apenas entre os dois grandes rivais, separados na altura, por uma diferença aproximada de 1600 metros. A terra já está á vista. Há dez horas de prova. Parece que a vitória, não vai fugir ao alhandrense. Mas entretanto o campeão do Nilo, começa a aproximar-se a aproximar-se...Num ápice, estala o alarme. O egípcio, com uma extraordinária ponta final, está já só a 400 metros...Surge outro contratempo, como tinha sido anunciado, o nevoeiro está implantado sobre a costa inglesa. O barco dos acompanhantes (do Baptista Pereira), extraordinários de dedicação, de amizade, de comungar num querer comum, mas constratando fortemente com a embaixada luxuosa do egípcio, composta por mais de vinte pessoas -, o barco português não está provido dos meios de orientação. Por erro, em vez de encaminhar Baptista Pereira para Dover, para as rochas brancas de Dover, desvia-o em direcção a Santa Margarida. É mesmo Baptista Pereira que se apercebe do erro, quando vê o barco do egípcio dois quilómetros para lá, a tomar outro rumo...dentro de água, preocupado, nervoso com a corrida...Baptista Pereira, dá instruções para que o rumo seja corrigido...As dificuldades ainda não estão acabadas...surge outra forte corrente, e Baptista é obrigado a um esforço enorme, durante mais uma hora...Hammad não é capaz de vencer o obstáculo, e atrasa-se; novamente mais de duas milhas separam os dois nadadores...Ainda faltam cerca de oito quilómetros...Os últimos momentos são verdadeiramente emocionantes. Alguns amigos de Baptista Pereira, que se tinham deslocado propositadamente de Alhandra, fretam um «gasolina», e vão ao encontro do grande nadador...e caem de espanto quando vêem dois nadadores bem juntos. Seria possível que Hammad...Num desespero rompem todos a incitar o conterrâneo – Força, Baptista! Força, Baptista!...Ficam estupefactos quando o nadador português se limita a fazer-lhes um vago aceno, e continua a nadar calmamente, nitidamente descontraído... o outro nadador era um inglês que se tinha atirado á água, para nadar um bocado ao lado de Baptista Pereira...O meio-dia aproxima-se. O Sol está a pino...A corrente arrasta-o. O português já a chegar ao limite das suas forças, não resiste muito, e acaba por tocar terra, num sítio extraordinariamente abrupto e escarpado, a Oeste de South Foreland Point...É tempo de fazer o sinal ao júri e cair, cansado, exausto. Baptista Pereira 12 horas 25 minutos e 1 segundo dentro de água, tinha ganho a Travessia da Mancha de 1954, conquistando assim uma das maiores proezas do desporto português...».

Para a posteridade

Dias depois, milhares de pessoas, representantes de associações e clubes, gente anónima, testemunhou na sede do Alhandra Sporting Clube, a homenagem que o «leão marinho» bem merecia. Ficou para a posteridade o feito do nadador que os poetas populares imortalizaram nas praças e feiras do País, através da voz melodiosa dos cantores.
Culminando a sua brilhante carreira desportiva, onde contou para cima de 150 vitórias, Baptista Pereira bate a 18 de Setembro de 1959 o recorde europeu de permanência na água, nadando 206 quilómetros, em 28 horas e 45 minutos.

Na obra de Soeiro Pereira Gomes

Nascido a 7 de Março de 1921, no dia seguinte à fundação do PCP, Baptista Pereira viveu a sua infância junto ao Tejo. Soeiro Pereira Gomes que se fixou nesta vila na década de 30 escolheu este menino «bravio» para personagem do seu mais conhecido livro, o romance «Esteiros» que conta a história das crianças obrigadas a trabalhar nos telhais da vila e onde o «gineto» (Baptista Pereira) já revelava grandes qualidades de nadador.
«Foi operário lutador, solidário. Foi companheiro e pai amigo. Foi o nadador que projectou o País no estrangeiro pelos seus feitos desportivos. Foi uma referência que desapareceu ainda novo com 63 anos de idade, há exactamente 20 anos», lê-se numa nota da Comissão de Freguesia do PCP de Alhandra, publicada aquando da última edição da Festa do Avante!, que lhe dedicou uma exposição, no Espaço do Desporto.
Antes de entrar na clandestinidade, Pereira Gomes ainda dinamizou a construção de uma piscina pública em Alhandra. O «gineto» fez-se homem e, durante perto de duas décadas, foi a principal figura da natação portuguesa, reunindo um palmarés único.

Ter consciência de classe

Como se pode comprovar pela ficha de militante, preenchida já após o 25 de Abril de 1974, Baptista Pereira era membro do PCP desde 1946. A sua relação com o mundo de trabalho desde muito novo e com figuras como Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol e António Dias Lourenço, entre muitos outros, ajudou-o a ganhar consciência de classe a que sempre pertencera.
Antes da Revolução dos Cravos, Baptista Pereira militou na Célula Comunista da «CIMA», onde colaborou na distribuição do Avante! com Beatriz Falcão. Participou nas lutas reivindicativas de 60 e 70.
Como comerciante de sucata, ajudou financeiramente o PCP e a sua casa serviu de apoio a muitos camaradas em dificuldades.
Apesar de várias vezes convidado a integrar as listas autárquicas, sempre recusou por não saber ler nem escrever. Apoiou sempre as listas do Partido Comunista Português. Baptista Pereira frequentava o Centro de Trabalho de Alhandra diariamente.

Cronologia
As vitórias de um campeão

27 de Setembro de 1936
Estreia oficial de Baptista Pereira enquanto nadador, com 15 anos, durante a travessia do Tejo (Trafaria/Pedrouços). Foi 3.º na sua categoria.
24 de Agosto de 1937
Na Piscina do Sport Algés e Dafundo, bate o recorde nacional dos 400 metros livres com o tempo de 5 minutos e 50 segundos.
29 de Agosto de 1937
Realizou a travessia do Tejo (Trafaria/Pedrouços). Foi o 1.º na sua categoria.
Maio de 1938
Com vista aos Campeonatos da Europa de Natação, vence todas as provas de selecção em que participou.
3 de Outubro de 1938
Atinge a internacionalização, durante a realização em Lisboa do Portugal/Alemanha, tendo sido 2.º classificado nos 400 metros livres, logo depois do campeão alemão.
1939
Faz parte da equipa portuguesa que defronta em Lisboa a Hungria.
1938/40/41 e 42
Foi vencedor da travessia da Póvoa.
1948
Ganhou a travessia da Baia de Sesimbra.
Em Outubro de 1950
O campeão da natação argentino, António Abertondo, vencedor da Mancha e do Estreito de Gibraltar, aconselha Baptista Pereira a dedicar-se a provas de fundo.
25 de Agosto de 1953
Baptista Pereira faz Alhandra/Rocha de Conde de Óbitos/Alhandra, nadando 166,600 quilómetros em 26 horas e 12 minutos, batendo o Recorde Nacional de distância.
20 de Setembro de 1953
Baptista Pereira nada das Berlengas a Peniche (cerca de 20 quilómetros), preparando-se para novos cometimentos.
25 de Outubro de 1953
Baptista Pereira lança-se à água na Ilha de las Palomas, em Espanha, lutando contra as correntes do Estreito de Gibraltar, mas atingindo Ponte de Cires, no Norte de África, no tempo de 5 horas e 4 minutos que passou a constituir recorde da travessia do estreito.
23 de Dezembro de 1953
Na maratona do Nilo, Baptista Pereira comandou grande parte da prova, completando 39 dos 42 quilómetros em 10 horas e 10 minutos, acabando por desistir. A quase totalidade dos participantes abandonaram igualmente a prova. A baixa temperatura das águas não permitiu melhor. A federação egípcia sabedora das anormais dificuldades, acabou por contemplar os desistentes com prémios.
24 de Julho de 1954
Baptista Pereira faz a travessia Peniche/Berlengas (cerca de 20 quilómetros).
Julho de 1954
Rodeando a Ilha de Abscon, em Atalntic City, Baptista Pereira nada 48 quilómetros.
21 de Agosto de 1954
Vence a travessia do Canal da Mancha
Em 1955
Faz parte da travessia de Itaparica para a cidade de Salvador da Baia/Brasil, não competindo por falta das equipas de segurança contra tubarões. Faz 22 dos 50 quilómetros do percurso.
Em 1956
Bate o seu próprio recorde, atravessando pela segunda vez o Estreito de Gibraltar, fazendo o tempo de 4 horas, 34 minutos e 6 segundos.
1 de Julho de 1956
Fica em 4.º lugar na III Travessia Internacional do Sena, Paris.
14 e 15 de Julho de 1956
Participa no Critério Internacional de Natação em França, prova entre o rio Loire e Nantes com duas distâncias (60 e 40 quilómetros), a qual era considerada o campeonato do mundo de longa distância. Venceu a de 40 quilómetros e ficou classificado em 3.º lugar no seu conjunto.
Em 1959
Bate o recorde de permanência da água, percorrendo 204 quilómetros em 28 horas e 34 minutos.
Em 1967
Baptista Pereira termina o seu percurso de nadador tendo-se atirado à água na inauguração da Piscina Municipal de Vila Franca de Xira. No seu currículo contam-se, entre outras, 19 vitórias em Campeonatos Nacionais, 14 recordes nacionais batidos, 29 provas no rio Tejo e 1.º classificado na travessia da Baia de Sesimbra.


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